segunda-feira, outubro 29, 2018

domingo, outubro 28, 2018

PINACOTECA

Pintura de HENRI FÉLIX EMMANUEL PHILIPOTEAUX (1815-1884).
Alphonse de Lamartine, o das Meditações Poéticas, ministro dos Assuntos Interiores do Governo Provisório de 24 de Fevereiro de 1848, rejeitando a bandeira vermelha dos revolucionários junto do Hôtel de Ville da cidade de Paris. A burguesia aos ombros da classe operária e do povo, pois então. Depois viria a II República e a vitória eleitoral, esmagadora, de Luís Napoleão Bonaparte, sobrinho do dito. E o golpe de 2 de Dezembro de 1851: o presidente da república guindado a imperador. Marx escreveria em O 18 do Brumário de Louis Bonaparte: « Hegel fez notar algures que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, as segunda como farsa.»


quarta-feira, outubro 24, 2018

BORGES: NADA O MUY POCO SÉ DE MIS MAYORES PORTUGUESES

Se é verdade o que nos é contado em “O Aleph”, então o monumento a JORGE LUIS BORGES, levantado há alguns anos no Jardim do Arco do Cego, em Lisboa, estará contido, por razão acrescida, naquele ponto da casa da calle Garay de Buenos Aires de onde se avistam todos os infinitos locais do universo sem transparência nem sobreposição. 
Isto é, se a casa da calle Garay ainda existir.
= Fotos de 22-10-2018 =

segunda-feira, outubro 22, 2018

REVISITAÇÕES


Dez anos depois volto a este texto. Temas e passagens reproduzidos quase com as mesmas palavras da "Nobel Lecture" de 7 de Dezembro de 1998 na Academia Sueca; a oposição campo / cidade, de Azinhaga e Mouchão de Baixo às dez moradas (em pouco mais de dez anos) na "metrópole lisboeta". Há coisas surpreendentes: aquelas, por exemplo, em que o memorialista alude aos desvios éticos do progenitor e maus tratos infligidos à esposa. Há coisas bonitas: aos dezoito anos, Saramago namorava com Ilda Reis e tinha uma relação de amizade com um pintor de cerâmica da fábrica Viúva Lamego, um tal Chaves a quem encomendou um prato em forma de coração para oferecer à namorada. Tinha pintada uma quadra da sua autoria: «Cautela, que ninguém ouça / o segredo que te digo: / dou-te um coração de louça / porque o meu anda contigo.» 


quinta-feira, outubro 18, 2018


«Quando se está só, está-se a dois. Quando se está a dois, está-se a três. Quando se está a mais que dois, está-se só.»
--- Da folha de sala da exposição SARA BICHÃO / MANON HARROIS na Fundação Portuguesa das Comunicações.

quarta-feira, outubro 17, 2018

RECEITA DE SOPA


Lá iam as duas, no declive dos anos, de passinho curto e conversa branda. Uma curgete, uma cabeça de nabo, uma batata doce… A sopa é muito boa para a saúde, tem vitaminas e favorece o trânsito intestinal. Um dente de alho e dois pés de salsa… Esta parte da receita já não ouvi, é imaginação. Conversa lenta, hidratante. Traziam nas mãos umas revistas coloridas. Consegui ver o título de uma delas: A SENTINELA.


terça-feira, outubro 16, 2018

O PRINCIPEZINHO (IV)





No asteróide 326 vivia um vaidoso.

«Ah! ah! Cá temos um admirador - exclamou o vaidoso mal avistou ao longe o principezinho.
Porque, para os vaidosos, todos os outros homens são admiradores.» 

segunda-feira, outubro 15, 2018

PINACOTECA

PAOLO UCCELLO, tríptico de A Batalha de San Romano (1435-1455/60), hoje repartido pela Galeria dos Ofícios (Florença), pela National Gallery (Londres) e pelo Louvre. Obra de arte referida no Capítulo 6 de O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez-Reverte. O tríptico representa o episódio militar ocorrido a 1 de Julho de 1432 em San Romano, no vale do Arno, entre os exércitos de Florença e de Siena.

domingo, outubro 14, 2018

VOU LENDO


Tanto quanto me permite a leitura do 1º capítulo, avisto um diálogo (eventualmente conflitual, seguramente complementar) entre a pintura e a fotografia. Predadora, ainda que testemunhal, a arte de fotografar em cenários de guerra. É interessante que na sexta-feira passada, no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro (Sintra), Julieta Monginho, autora de Um Muro no Meio do Caminho, tenha manifestado o seu pudor em fotografar os refugiados do campo da ilha de Chios (Grécia) onde trabalhou como voluntária. Em Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas, o protagonista Faulques descarrega a sua velha Leica 3MD com objectiva de 50 milímetros sobre uma rapariga deitada numa esteira num campo de refugiados do sul do Sudão: « A rapariga era jovem e de uma beleza translúcida apesar da cicatriz horizontal que lhe marcava a testa e dos lábios fendidos (…) pela doença e pela sede. E tudo, a cicatriz, as gretas dos lábios, os dedos finos e ossudos da mão junto ao rosto, as linhas do queixo e a ténue insinuação das sobrancelhas, o fundo do entrançado romboidal da esteira, pareciam confluir na luz dos olhos, no reflexo de claridade nas íris negras, na sua fixa e desesperada resignação. Uma máscara comovedora, antiquíssima, eterna, onde convergiam todas aquelas linhas e ângulos. A geometria do caos no rosto sereno de uma rapariga moribunda.»


sábado, outubro 13, 2018

GRANDE PLANO

JOANNA KULIG em Guerra Fria (2018), filme polaco realizado por Pawel Pawlikowski. Em exibição no Ideal e no El Corte Inglés. Gostei de ver.

quarta-feira, outubro 10, 2018

O PRINCIPEZINHO (III)

O rei do asteróide 325:
«O rei, vestido de púrpura e arminho, encontrava-se refastelado num trono muito simples, mas majestoso.
- Ah! Cá temos um súbdito! - exclamou o rei, mal avistou o principezinho.
E o principezinho pensou com os seus botões:
"Como é que ele pode saber quem eu sou se nunca me tinha visto?"
Ainda não tinha apreendido que, para os reis, o mundo se encontra extremamente simplificado. Todos os homens são súbditos.»

terça-feira, outubro 09, 2018

O PRINCIPEZINHO (II)

Sobre a flor do principezinho, uma flor de que só há um exemplar em milhões e milhões de estrelas:
«Nunca lhe devia ter dado ouvidos. Nunca se deve dar ouvidos às flores. Deve-se é olhar para elas e cheirá-las. A minha, perfumava-me o planeta todo, mas eu não era capaz de dar valor a isso. (...) Não fui capaz de entender nada. Devia tê-la avaliado não pelas suas palavras, mas pelos seus actos. Ela perfumava-me e dava-me luz! Eu nunca devia ter fugido! Devia era ter sido capaz de perceber toda a ternura escondida naquelas suas pobres manhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era novo de mais para a saber amar.»

segunda-feira, outubro 08, 2018

O PRINCIPEZINHO (I)

A metáfora dos três embondeiros que começaram por ser arbustos e depois cresceram até tomarem conta do pequeno planeta. Este era habitado por um preguiçoso que não se ralou com eles e o resultado está à vista.


quarta-feira, setembro 26, 2018

"NA PATAGÓNIA"


Uma das histórias surpreendentes narradas em Na Patagónia é a do militante anarquista Simón Radowitzky, nascido na Ucrânia, de família judia, em 1891, e falecido na Cidade do México em 1956. Diz o autor que na Argentina de princípios do século XX as palavras russo e judeu como que eram sinónimas. Só que este judeu não era como os de há dois mil anos que mataram o Justo. Radowitzky matou à bomba o injusto chefe da polícia de Buenos Aires, coronel Ramón Falcón, tendo sido preso na colónia penal de Ushuaia, na Terra do Fogo. Corria o ano de 1909. Torturado e sodomizado punitivamente pelos seus carcereiros, fugiu da prisão com o apoio de correlegionários, voltando a ser preso e finalmente indultado pelo presidente Yrigoyen, em 1930, «num gesto de boa vontade para com a classe operária». Radowitzky quis voltar à Rússia, desconhecendo que na pátria revolucionária se tinha dado o massacre de anarquistas em Kronstadt. Combateu em Espanha e veio morrer ao México, no mesmo país onde dezasseis anos antes fora assassinado Trotsky.


sexta-feira, setembro 21, 2018

VOU LENDO

Na área de anomalias congénitas do Museu Médico de Siriraj, Banguecoque - uma passagem deste "livro de viagens", 12º capítulo da 3ª parte:
«Talvez uma parte da aversão à morte tenha a ver com o rosto de tristeza que os mortos sempre apresentam. Sisudos, parecem contrariados por terem morrido, como se estivessem a ter um sonho mau.»
Lembrei-me de Ricardo Reis:
O sono é bom pois despertamos dele / Para saber que é bom. Se a morte é sono / Despertaremos dela; / Se não, e não é sono, // Com quanto em nós é nosso a refusemos / Enquanto em nossos corpos condenados / Dura, do carcereiro, / A licença indecisa. // Lídia, a vida mais vil antes que a morte, / Que desconheço, quero; e as flores colho / Que te entrego, votivas / De um pequeno destino.


quarta-feira, setembro 19, 2018

O TRABALHO, O CAPITAL E O PERIGO VERMELHO


NA DÉCADA DE 30, DURANTE O ÊXODO DE MUITOS AMERICANOS PARA A CALIFÓRNIA EM BUSCA DE TRABALHO E DIGNIDADE ---
«Há aí um tipo que se chama Hines. É dono de uns trinta mil acres de terra, com pêssegos e uvas, e tem uma fábrica de frutas de conserva e um lagar. Bem, ele vive constantemente a gritar contra “os malvados vermelhos”. “Esses vermelhos dos diabos levam o país à ruína”, diz ele. “Temos de os enxotar daqui, a esses patifes desses vermelhos.” Bem, um outro tipo que acabava de chegar do Oeste, ouviu a coisa. Coçou a cabeça e disse: “Olhe, senhor Hines, eu estou aqui há pouco tempo. O senhor pode dizer-me quem são esses malvados desses vermelhos?” Bem, rapazes, o Hines respondeu assim: “Um vermelho é um desses filhos da mãe que exigem trinta centavos à hora quando só queremos pagar vinte e cinco.” O rapaz ficou a pensar no caso, coçou a cabeça e disse: “Olhe, senhor Hines, eu não sou nenhum filho da mãe, mas também quero trinta centavos à hora. Quem é que os não quer? Que diabo, senhor Hines, se assim é, então toda a gente é vermelha.”»
--- JOHN STEINBECK, As Vinhas da Ira, tradução de Virgínia Motta.