quarta-feira, janeiro 13, 2016

EM LISBOA,

ao fim da tarde de segunda-feira, sobre o Campo das Cebolas. Lembro-me da personagem José Anaiço e do bando de estorninhos em A Jangada de Pedra. A Memória, essa deusa de subtis efeitos!

domingo, janeiro 10, 2016

UMA PESSOA DE BOA ÍNDOLE


          O amor é incerto como um carreiro de formigas, disse o meu amigo, um pseudo-estoico desconhecedor absoluto da filosofia do Barão de Teive.
            O amor é o que é, argui negligentemente.
            O meu amigo lançou-me um olhar lívido e impassível, coçou uma borbulha ao lado do nariz sob o rebordo da lente dos óculos, e concretizou:
            Ela pensava ter-me agarrado pela trela como um caniche de pelo hirsuto, mas a mim nenhuma me prende: nem pelo sexo, nem pelo estômago… por coisa nenhuma.
            Aguentei a tirada. Eu estava farto de debater o seu niilismo em matéria de amor e casamento. Anos de conversas, de conselhos, falando-lhe de entrega e partilha, de vida a dois e de felicidade no lar não o haviam demovido dos seus abstrusos princípios. Cheguei a oferecer-lhe uma edição barata da Carta de Guia de Casados, de D. Francisco Manuel de Melo, e outra luxuosa de A Vida Sexual dos Solteiros e Casados, do médico e sacerdote João Mohana, pensando poder estimular-lhe uma inclinação para o compromisso. Apresentei-lhe mulheres, levei-o a bailes, inscrevi-o em sítios de relacionamentos amorosos da Internet – mas ele, nada.
            Andávamos sempre juntos – eu, a minha mulher e ele – até a coisa começar a ser vista e comentada como um “ménage à trois”, o que me desgostou profundamente. Foi aí, nesse aperto de ordem ética e moral, que o atirei para os braços de Adélia, uma descasada de trinta e tal anos, engolidora de homens, mas com sinais confortantes de alguma propensão para a estabilidade afetiva.
            Adélia prezava muito o social. Ia a exposições de pintura, a lançamentos de livros, frequentava os eventos anunciados no “facebook” com a mesma seriedade de quem marca presença em missas do sétimo dia ou em “raves” de jovens com “disk jockeys” da moda. Adélia fruía o efémero superior e dava nota disso nas redes sociais. Punha comentários e “likes” nas páginas de personalidades com 4999 seguidores e inscrevia como amigos figuras gradas do cinema, do jornalismo e das artes. Era o contrário feliz da não-inscrição postulada pelo filósofo José Gil.
            Devo dizer que, em tempos, estive apaixonado por Adélia, embora nunca tenhamos chegado a vias de facto. Ela achava-me piada, brincava comigo e até tentava fazer-me ciúmes, mas, no fundo, sabia que eu não era homem que pudesse servir-lhe. Desisti dos seus perfumes de maçã e ervas depois de um jantar de “sushi” acompanhado de saquê. A partir daí, passámos a falar de dois em dois meses, por telefone, e a enchermo-nos reciprocamente de “likes” nas mensagens lançadas no “facebook”.
            Conheço uma gaja que está bem para ti, disse ao meu amigo. Deixa lá essas merdas de estoico-epicurista, ó pá, e mete a mão na massa, que para estupidez já chega o “Soneto de Onan”, de José Régio, Sim!, só a mim me entrego e me possuo, / Porque eu me basto para achar o mundo!
            O meu amigo foi conhecer Adélia num restaurante fino e a coisa pegou. Fiquei feliz por ele e por ela. Bem, para ser sincero senti uma certa dor de corno: Adélia não me dera hipóteses e já se agradava, assim às primeiras, do meu amigo especioso.
            Quando dei a novidade à minha mulher, vi-lhe no rosto uma sombra de contrariedade. Acabava desta forma o nosso companheirismo triásico, as noites passadas em discotecas com a sua cabeça tanto assentando no meu ombro, como os seus seios roçando sem maldade pelos braços dele.
            Sosseguei-a. Continuaríamos a ser amigos, agora os dois casais, cada um com a sua, não viessem as línguas ordinárias badalar “foursomes” e orgias, seríamos superiores a isso. Mas Adélia nunca se aproximou de nós. Durante vários meses deixei de ver o meu amigo, experienciando, julgava eu, as alegrias gozosas da vida de casal. Quando finalmente o consegui apanhar para uma conversa é que soube a verdade. Ou seja, meia verdade, porque a outra metade foi-me contada por Adélia. Tive de juntar as duas partes para ter a peça completa, verso e anverso, positivo e negativo, afirmação e contraditório.
            Segundo o meu amigo, Adélia era dominadora, ninfomaníaca e dada a manias de grandeza. De acordo com Adélia, o meu amigo era vulgar, de relacionamento difícil e muito mau na cama.
            Tive pena pelos dois, sou uma pessoa de boa índole. Contei à minha mulher e um brilho novo surgiu-lhe nos olhos. Depois disse-me muito mal de Adélia, com quem nunca simpatizara, e concordou ser o meu amigo, de facto, de uma simplicidade comovente e pouco dado a convivências em sociedade. Não aceitou, porém, que fosse mau na cama, isso seria uma calúnia de Adélia. De seguida fez-se muito vermelha, e esta sua reação tomou-me por uns instantes o pensamento.
Não voltámos a falar de Adélia e, para esquecermos o triste caso do meu amigo, combinámos uma ida ao cinema no fim de semana seguinte. Os três, como antigamente.

sexta-feira, janeiro 08, 2016

1966

Ontem, 50 anos depois, na sessão das 18:30 da Cinemateca. Blow-Up. Vanessa Redgrave foi Guinevere, Cleópatra, Ana Bolena, Cordélia, Clarissa Dalloway, Isadora Duncan… Neste filme, era apenas mulher.
 

quinta-feira, janeiro 07, 2016

JANEIRAS até de madrugada

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas


Etc.

quarta-feira, janeiro 06, 2016

DIáRIO 6

Estou a ler "Impunidade das Trevas". E lembro-me do filme «As Mil e Uma Noites», 'volume' 1, o único em que assentei a vista.  Manuel da Silva Ramos, se não erro as contas, vai já pelos vinte livros de ficção. Uma passagem deste (Edições Parsifal, Fevereiro de 2015): « É curioso como este país se transformou em tão curto espaço de tempo. Agora, por onde se vá, é só velharia. (…) Os culpados são estes chulíssimos governantes de pacotilha que, a pretexto do seu bolso, só pensam na fecundação do comércio exportacional . Não é por acaso que o arauto do negócio global seja um mavioso sem filhos. Viva, pois, a austeridade sexual.» -- Cap. 5, pp. 22 e 23.

terça-feira, janeiro 05, 2016

DIáRIO 5

Ontem, na Casa da Achada, leitura de mais um capítulo de A Paleta e o Mundo, de Mário Dionísio. Sábado, dia 9, às 16 horas, não perder  a sessão sobre Conflito e Unidade da Arte Contemporânea – conferência proferida pelo autor em 1957, na Sociedade Nacional de Belas Artes, com casa cheia e fortes medidas de intimidação policial, como relata Maria Alzira Seixo no preâmbulo da recente edição do texto. Luís Miguel Cintra fará a leitura e a contextualização estará a cargo de Eduarda Dionísio.

segunda-feira, janeiro 04, 2016

domingo, janeiro 03, 2016

DIáRIO 3

Lendo o conto O Senhor dos Navegantes, de Ferreira de Castro, só me vinha à memória esta ermida na ilha de São Miguel. Felizmente, não encontrei no alto nenhuma presença inoportuna. – Nossa Senhora da Paz, Vila Franca do Campo, São Miguel; fotos de 20-12-2015.

sábado, janeiro 02, 2016

DIáRIO 2

Releio as novelas A Missão e O Senhor dos Navegantes, de Ferreira de Castro,  em discussão no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro no próximo dia 8. A última, inspirou-me desta vez uma atenção maior: um alucinado (ou talvez não) que se entrega ao trabalho de destruir os ex-votos depositados numa humilde capela sobre uma colina fronteira ao mar. Vejo na enciclopédia Lello Universal: «EX-VOTO : quadro , imagem, etc., que se coloca em igreja ou ermida, em cumprimento  dum voto.» – Simples, não é? E a vontade dos homens?

sexta-feira, janeiro 01, 2016

sábado, outubro 10, 2015

CARTA DE UMA JOVEM MILITANTE AO SEU LÍDER


Meu Querido Líder,
Fiquei feliz com a vitória, rejubilei. Noite alta de domingo ainda andava por Lisboa a agitar bandeiras e a cantar o nosso hino. A festa só acabou por volta das duas e tal da manhã, no mercado da Ribeira, quando enfim nos sentámos diante de uma travessa de gambas e uns copos de cerveja.
Sou filha de operários, sabe? Os meus velhos nunca perdem aquela festa de Setembro na margem sul e vão a todas as manifestações dos sindicatos, mas eu bem cedo percebi, sobretudo quando entrei para a Faculdade e comecei a preparar-me para assumir responsabilidades, que o país não avança com utopias e ideologias ultrapassadas. O país só irá em frente da maneira que bem nos mostrou nestes últimos anos, assim possa continuar o seu trabalho sem estorvo ou percalço.
Tendo ficado feliz, quero dizer-lhe que estou agora preocupada. Depois da vitória, não esperava que passássemos por este aperto. O senhor presidente em vez de o indigitar,  mandou-o negociar com os que perderam, se já se viu uma coisa destas! Então não fomos nós que ganhámos? Dizem que há outra maioria, imagine-se, quando a única legítima e verdadeira é a nossa, aquela que o povo nos deu para continuarmos a salvar a pátria.
Estou preocupada porque vejo-o na televisão em conversinhas com os líderes derrotados e estes entre si a falarem uns com os outros, com grandes abraços e apertos de mão, desejosos de fazerem aquilo que não pode ser feito.  
O meu namorado – que votou num partido da extrema-esquerda que não elegeu deputados, tendo agora de pagar os mais de cem mil euros que gastaram na campanha –, só tem gozado comigo nestes últimos dias: toma lá e en-costa-te que não tens remédio, agarra-te ao irrevogável e é se queres, etc. – bocas foleiras que me manda a toda a hora e eu tenho de aguentar porque ele até é de boas famílias e não vou desfazer o namoro para agarrar-me a um pobretanas qualquer sem eira nem beira.
Olhe, gostei muito de o ver em Castelo de Vide na universidade de verão dos pequeninos. Espero que para o ano nos encontremos por lá e as coisas estejam melhorzinhas. Com maioria absoluta só nossa, sem irrevogáveis a atrapalharem e com um presidente mais direitinho do que este que agora temos. Valha-o o Deus, tem-nos dado bastante jeito, mas já me aborrece olhar para o homem, sempre a salivar em seco e a falar por parábolas como um profeta da desgraça.
Despeço-me, Meu Querido Líder, que corra tudo pelo melhor.
Beijinhos à esposa e às meninas.
Esta que muito o admira,
 
 

sábado, agosto 22, 2015

FLORES DA ÁGUA

--- TEXTO PUBLICADO NESTE BLOGUE EM 2006 E AGORA REVISTO E MELHORADO (?) COM FOTOGRAFIAS DE AGOSTO DE 2015 ---

Para chegar ao Lagroal, àquelas quatro casas que brotam da linha do rio, era preciso conhecer a geografia local, sair da estrada que seguia para o Santuário e descer sempre às curvas por uma via que era de terra batida e hoje se faz de piso alcatroado e barreiras metálicas sobre o sufoco das ravinas.
Quem se metesse a caminho e esperasse encontrar alguma referência toponímica, logo se desiludia. Não havia placa que indicasse o desvio ou a proximidade do lugar. A única que se via era já à chegada, umas tábuas toscas:

CAZA DO LELITO
FRANGOS E ENTREMIADAS
VINHOS DOS MILHORES
CAMAS E DUXES QUENTES

A força do Lagroal era no Verão. Continua a ser. As casas enchiam-se de gente, o Lelito fazia negócio com os banhistas que procuravam cura para males dos olhos e doenças da pele. De um lado do tanque de banhos havia um muro alto que servia de prancha de saltos e  mirante, do outro uma barreira de tábuas por onde a água transbordava para o leito do rio.
É antiga a fama do Lagroal. Há cem anos ia-se de carroça ou no dorso dos burros. Chegava-se às águas e pessoas e bestas entravam nelas para se refrescarem da viagem. Os homens de cuecas ou ceroulas, as mulheres aventuravam-se de corpete e saiote, não havia fatos-de-banho. Pela hora do meio-dia sentavam-se à sombra dos salgueiros e comiam  tachadas de arroz de coelho com pão de milho, bebiam vinho e dormiam a sesta. Ao fim da tarde, depois dos banhos, tocava-se concertina e armava-se o baile.
Anos depois, começaram a chegar de carro, matrículas francesas eram muitas, o estacionamento selvagem a subir pela estrada até ao coruto do monte.
No Lagroal há histórias curiosas que são conhecidas dos que se habituaram a frequentar o local. A do Lelito, por exemplo. Chegou ali em certo Verão com uma mão à frente e outra atrás. Tomou o barraco que herdara de uma tia, meteu-lhe obras, e começou a assar frangos e a vender bebidas. Depois teve a sorte de deitar o olho a uma moça roliça que ali passava o mês de Agosto por causa de um problema de menstruações irregulares, que não havia médico, por mais sabido, que atinasse com solução para o mal. A moça – chamava-se Magnólia – começou a ajudar o Lelito no assador de frangos. Uma grelha de frangos assados, um mergulho nas águas. Levava assim o dia. À noite não se sabia o que é que fazia, mas dava para perceber que era cada vez  mais unha com carne com o Lelito. Curou-se, uma cura surpreendente, e nunca mais se separou do assador.
Outra história é a do Padre Ramos, sacerdote  novo, que estava colocado numa paróquia próxima e vinha celebrar missa campal aos domingos. Ouvia em confissão, dava a comunhão. Eram muitos os crentes que procuravam aos domingos o refrigério das águas ou que estanciavam no local durante o mês de Agosto, mal acomodados,  já se viu, pois não havia hotel ou mesmo pensão modesta, apenas umas casas que ofereciam camaratas, homens para um lado, mulheres para outro. Não se podia deixar essa gente sem conforto espiritual.
Só que o Diabo é um tentador – isso já se sabe – e o Padre Ramos foi sua vítima. Quem fala do Diabo fala do Demónio, Demo, Satanás, Satã, Mafarrico, Lúcifer, Cornudo, Belzebu, Bode-Preto, Tinhoso, Chavelhudo, Maligno, Mico, Peneireiro, Rabão, Diacho, Coisa-Ruim, Pé-Cascudo, Porco-Sujo, Cão-Tinhoso, Sarnento, Tisnado, Zarapelho, Maldito, Beiçudo, Mofento, Lá-de-Baixo, Diasco, Excomungado, Arrenegado, Tendeiro, Tentador, Brazabum, Mal-Encarado, Tição, Bicho-Preto, Azucrim, Dianho, Anjo Mau, Espírito das Trevas – que tudo quer dizer o mesmo, é só escolher, compreende-se agora como é difícil fugir às ciladas que nos arma, tantos os nomes e disfarces que usa. Pois a tentação do Padre Ramos respondia pelo nome de Margarida, não a do Dr. Fausto, mas uma que cursava Humanidades em Bobigny, região de Paris, onde vivia com os pais, emigrantes. O Padre Ramos, grande admirador da cultura francesa, não resistiu. Casou em França, onde fixou residência, e no Verão costuma vir a Lagroal com a mulher e a prole.
Isto passou-se muito antes de D. Rosa, mulher vistosa, ter incendiado a orla do rio com as fulgurações do seu biquíni amarelo, e de Alberto, o marido, ter granjeado famas incómodas por consentir à esposa tão magnânima exposição corporal.
Mas o caso mais perturbante que se viveu em Lagroal teve lugar aí há uns dez anos. Começou a correr entre os banhistas, que lhes dissera o Lelito e confirmara uma funcionária da Câmara que sofria de inchaços nas pernas, haver um projecto para desviar as águas de Lagroal para o Santuário a fim de aí se criar um moderno estabelecimento termal de curas milagrosas. Um arquitecto da Obra Divina já tinha desenhado os edifícios, as fontes e as piscinas que acolheriam os enfermos em desespero.
Chamemos as coisas pelo seu nome: o Santuário atravessava por essa altura uma arreliadora crise de milagres. Depois dos acontecimentos extraordinários do princípio do século, com danças astrais e chusmas de paralíticos a saltarem das cadeiras de rodas, a força milagreira foi abrandando. Só muito raramente se aludia a um ou outro caso extraordinário, e mesmo assim havia logo médicos que torciam o nariz e davam explicações científicas para os fenómenos: uma úlcera feia que sarava, um membro decrépito que ganhava o vigor antigo, uma aperto do coração que se sumia. Apesar de tudo, como se pode ver, casos de somenos importância… As águas de Lagroal pareciam ser a tábua de salvação para renovados milagres. E houve quem garantisse que um engenheiro dos Serviços Municipalizados já tinha encomendado as bombas e as condutas para levar a água serra acima. De tudo isto se começou a falar em Lagroal por meados de Agosto, altura em que os frequentadores viviam em pleno as delícias dos banhos. O espanto e a tristeza não podiam ser maiores.
Foi então que em Pomar e Dourém – as cidades mais importantes da região – e até nas terras mais pequenas como Freixarias ou Caxianda, saltou a indignação popular. Como dizia a propaganda da altura, os povos ergueram-se como um só homem para impedir o roubo das águas. Organizaram-se manifestações junto das câmaras municipais, os funcionários dos partidos pediram esclarecimentos às estruturas concelhias, estas às direcções distritais, e o assunto subiu aos conselhos nacionais, foi discutido no governo e no parlamento, as televisões apareceram, e começou a falar-se de boicote às eleições que se aproximavam.
Com a ajuda das televisões, os boicotes eleitorais são momentos altos de defesa e afirmação dos direitos cívicos. A receita é simples: toma-se uma corrente com o respectivo aloquete  (aloquete quer dizer cadeado, usa-se esta variante lexical para dar um cunho mais especioso à prosa); fecha-se com essas alfaias a assembleia de voto; entretanto, tenta-se deitar a mão aos boletins e urnas para queimar todo o material; a Guarda aparece, ameaça restabelecer a ordem democrática, e é nesse momento que algumas cidadãs fazem frente à corporação policial – está provado que é mais difícil os guardas tomarem qualquer acção de força contra as mulheres; chegam os repórteres das televisões e então, encenação primorosa, o presidente da junta de freguesia pede aos cidadãos que dispersem para que o direito de voto se exerça em liberdade; aumentam os protestos e o presidente da junta retira-se conformado. É nesta altura que o repórter anuncia que, nos termos da lei, o acto eleitoral será repetido na semana seguinte.
Mas não foi preciso chegar tão longe. O Santuário tinha adquirido, entretanto, novos argumentos para relançar os seus milagres e o povo confirmou o direito às águas. Se calhar puseram-se a fazer contas e concluíram pela inviabilidade do projecto. Talvez tivessem encontrado efeitos nocivos de impacto ambiental, talvez mexesse com as aves migratórias, com as espécies protegidas, e não pudesse beneficiar dos fundos comunitários. Algo aconteceu. Nos tempos que correm nada se faz sem demorados estudos prévios, por causa deles até os melhores projectos abortam. Para os habituais frequentadores, sem meios para demandarem as praias ou as termas, foi uma sorte. Nem chegou a ser um milagre. Há lá milagre maior que os pequenos milagres da vida que todos os anos têm lugar em Lagroal: o corpo bonito de D. Rosa sob o esplendor dos salgueiros; o amor do Padre Ramos e de Margarida; as formas arredondadas de Magnólia com a pele em brasa ao lume do assador. E tantos outros de que nem temos conhecimento. Flores da água. E as curas do corpo e da alma, santuário verdadeiro sobre a língua do rio, três meses felizes de Verão. Todos os anos.
 

quinta-feira, julho 02, 2015

INGRID BERGMAN

«Casablanca é o Werther do século XX. Quem o viu impassível ou já perdeu a alma, ou já perdeu o coração, ou já perdeu ambos.» - JOÃO BÉNARD DA COSTA.

Ontem na Cinemateca, início do ciclo INGRID BERGMAN - O PERMANENTE SUSTO DE SI PRÓPRIA: 19 filmes das diferentes fases da actriz (Suécia, Estados Unidos, Itália) durante o mês de Julho.

quarta-feira, junho 17, 2015

GREXIT


Um termo grotesco inventado por banqueiros e feiticeiros das “ciências” económicas.  Só quero que Tsipras e os seus pares consigam sair do labirinto. Teseu era grego, os minotauros também se abatem.

domingo, junho 07, 2015

NOITE DA LITERATURA EUROPEIA

«A História é a poesia dos vencedores / A Poesia é a história dos vencidos
--- Versos finais dum poema do poeta romeno Ioan Es. Pop, lido por Mónica Calle na Biblioteca da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (as duas primeiras fotografias).

segunda-feira, maio 18, 2015

POEMA DE AMOR A PARTIR DE WATTEAU

WATTEAU, A loja de Gersaint (1720-21)

Não quero saber de nenhum dos quadros
da loja, nem mesmo desse do Rei Sol
que o moço embala, com esmeros profissionais,
para um cliente importante. Basta-me a luz

do sapato ante o degrau, o jeito da perna
que precede o instante da levitação do corpo,
o volume das ancas e o mais que se não vê, mas
imagino. O resto, que não é pouco, só o direi a ti. 

 18/5/2015


domingo, maio 17, 2015

HISTÓRIAS DE AMORES E DESAMORES - A RAPARIGA DA BLUSA ROMENA

Conheci primeiro Odette de Crécy, há tanto tempo que não consigo dizer o ano ou o mês em que tal sucedeu. Vinha vestida, pareceu-me, à moda da Belle Époque, e foi como se assistisse ao nascimento de Vénus, adulta e nua como naquele quadro célebre de Botticelli. Depois chegou Natasha Rostova e só mais tarde, muito mais tarde, Elizabeth Bennet e Maria Monforte. Com esta tive uma relação duradoura, feita de olhares lânguidos, sempre à espera de ver aparecer um príncipe italiano que ma roubasse.
Frequentei o café durante muito tempo. Ali sentado na mesa do canto, fiz mais viagens que o Gulliver de Swift, conheci mais mulheres que o burlador de Sevilha. A verdade, porém, é que nunca chegava à fala com elas. Por timidez ou qualquer outra razão mais ou menos estúpida, não me sentia à vontade com o sexo oposto.  Elas entravam, eu olhava-as, dava-lhes um nome de ressonâncias artísticas ou literárias, e isso satisfazia-me. Foi assim durante muitos anos, eu era (e sou ainda, creio) uma espécie de onanista da imaginação.
O caso mudou de figura com uma rapariga que passou a estudar no café aí por Março ou Abril do ano passado. Era época de frequências. Trazia os seus livros e cadernos, sentava-se na mesa ao lado da minha e vestia sempre a mesma blusa. Creio que teria várias peças semelhantes, variando apenas em um ou outro detalhe do bordado, porque as blusas estavam sempre impecavelmente limpas e, parecendo a mesma, se calhar nenhuma seria igual à anterior.
O seu nome descobri-o com facilidade, estava escrito na capa dum caderno, sendo esse o dado que, para mim, a tornou diferente das outras. Eu sabia-lhe o nome, não tinha de o inventar.
Um dia dirigi-lhe a palavra. Perguntei-lhe que tal iam os estudos – que, pelos livros que via sobre a mesa, eram de História de Arte –, que não queria atrapalhá-la, mas que lhe desejava sorte e sucesso nas avaliações.
A rapariga, que se chamava Sandra, deve ter achado a minha conversa fora do comum. Olhou-me com um ar de vigilante de museu, igual ao que se tem quando um visitante se aproxima muito de uma obra exposta, ameaçando tocar-lhe, e agradeceu delicadamente. Eu compreendera que a minha abordagem não tinha sido perfeita, talvez pouco natural e com um palavreado fora de moda, mas fiquei satisfeito por ter sido um primeiro esforço de comunicação.  
Passei a falar-lhe sempre que se sentava na mesa ao lado da minha. Para a impressionar, referia-lhe Courbet e o Enterro em Ornans, Watteau e A Loja de Gersaint, grandes artistas e grandes obras, arengas que ela acolhia conformadamente, suspendendo o trabalho à espera que eu acabasse para poder continuar.
Andei nisto uns dias até que a rapariga passou a sentar-se em mesas cada vez mais afastadas da minha, lá para o fundo do café, atrás de uma coluna que nem dava para a ver. A verdade é que a minha conversa não atava nem desatava. Era, reconheço-o agora, do tipo “nem o pai morre nem a gente almoça”. As mulheres – eu não sabia, mas disse-me um antigo colega com quem agora costumo encontrar-me –, gostam é de homens do tipo “tiro e queda”, sem papas na língua, “Queres ou não queres? É em minha casa ou na tua?”
Graças às lições deste meu antigo colega, aprendi bastante. Fiquei mais preparado para enfrentar os desafios do mundo, não vivendo tanto da imaginação e dos seus floreados.
Esta semana, ao fim de algum tempo, voltei ao café. Sentei-me na mesa do costume e, coisa que já não esperava, tive uma recaída. Bebia uma água com gás quando vi entrar uma mulher que de imediato associei à Victorine Meurent do Almoço sobre a Relva: o mesmo cabelo, o mesmo sorriso entre o cândido e o perverso, as pernas e os seios igualmente desafiantes. Ainda aturdido, deitei os olhos para as mesas do fundo e lá estava, numa delas, a estudante de História de Arte. Só que já não era a Sandra que eu conhecera e com quem chegara a falar, mas a jovem mulher pintada por Matisse com uma blusa romena, a mesma que Sandra sempre trazia como se não tivesse mais nada para vestir.
Já decidi: não voltarei ao café tão cedo. O meu antigo colega apresentou-me uma jovem que trabalha como auxiliar de cozinha num restaurante do bairro. Talvez com ela, na simplicidade das nossas conversas, eu consiga esquecer a blusa romena, as outras mulheres, e acalmar o tormento da minha imaginação.
Auxiliar de cozinha? Mas como se chama  a auxiliar da cozinheira Françoise no romance Do Lado de Swann?

quarta-feira, maio 13, 2015

HISTÓRIAS DE AMORES E DESAMORES - A MINHA ANTIGA RAPARIGA


Não é que eu não gostasse das pernas dela, ou dos olhos, ou dos dentinhos ralos com que me mordia as orelhas quando repousávamos depois das cansativas sessões de cama.  A bem dizer, eu gostava da maior parte dos seus atributos físicos: os seios pequenos como limões; o seu ventre liso lavrado por uma tatuagem esquálida; os dedos finos, de unhas brilhantes sem pintura; as mãos que sabiam agarrar e se faziam sentir.
A minha rapariga era bonita e agradável, até sensual, mas uma coisa me tirava toda a alegria da relação: a sua voz.
A princípio não me dei conta disso. Embora nos amássemos muito, falávamos pouco.  A minha rapariga era operária de fábrica, não sabia conversar de política, nem de economia ou literatura, e eu não me interessava pela banalidade do seu quotidiano fabril. O que falávamos, alto e bom som, era a linguagem dos corpos e, mesmo assim, ela mais do que eu, pois para ser inteiramente franco, devo dizer que, como homem, sou um bocado fraco na cama.
A voz da minha rapariga, voltemos ao assunto, era de uma rouquidão que fazia lembrar um produto transgénico obtido por mistura das vozes distorcidas de Janis Joplin e Bruce Springsteen. Não me perguntem o que quero dizer com isto que não sei explicar. Era de uma rouquidão amoral, obscena e ao mesmo tempo aterrorizante. Ela não podia pronunciar nenhuma dessas palavras ou locuções que costumam sair da boca das mulheres quando estão no melhor da festa que logo eu me atrofiava todo e já não conseguia chegar a lado nenhum. As vergonhas por que então passei!
O caso pareceu-me de certa gravidade e, sem ela saber, consultei um curandeiro que me receitou pau-de-cabinda e algodão para os ouvidos. O homem interessou-se pelo problema da minha rapariga (ou seria meu?) e disse-me que lhe recomendasse uma infusão de coentros e flor de laranjeira para gargarejar duas vezes ao dia. Que a rouquidão passaria.
Fui para ela mais animado e toquei-lhe no assunto. O que eu fui fazer! A minha rapariga, até aí tão submissa, tão amiga, levantou-se alterada e começou a dizer que já desconfiava que eu não era homem para ela, que não viesse com desculpas para a minha imperícia e frustrações sexuais, que eu tinha a cabeça cheia de romances e outras porcarias dos livros e da Internet e que o que devia fazer era vergar a mola como ela, e não andar o dia inteiro a puxar o lustro às cadeiras das bibliotecas, a escrevinhar coisas parvas, que ela já tinha lido uma vez e não achara ponta por onde se pudesse pegar. E, estocada final, que já lhe dissera um colega do sindicato, amigo do peito, que a nossa relação era de um interclassismo estéril, antinatural, coisa que ela não percebeu mas que lhe pareceu fazer sentido.
Até me custa a continuar a narração. Ainda andei uns dias, tem-te não caias, a ver se compunha o ramalhete, a mandar-lhe flores e versos lúbricos, mas a minha rapariga não voltou a ser mesma. Trocou-me ao fim de umas semanas por um brasileiro bem apessoado que fazia entregas de pizzas numa loja do bairro.
Hoje, na mais completa solidão, não deixo de pensar na importância errada que dei à voz daquela que foi a minha rapariga, a forma como essa obsessão arruinou a nossa relação amorosa. Teria ela, de facto, essa voz rouca, indefinível e tormentosa, ou não teria sido tudo uma falsa percepção, uma forma inconsciente de eu mascarar a minha incapacidade para sentir e amar de forma plena?
Ontem mesmo, e daí a razão deste escrito, encontrei a minha antiga rapariga na mercearia da rua a comprar uns morangos para a sobremesa do jantar. Talvez se preparasse para uma refeição à luz das velas com o citado brasileiro entregador de pizzas. Trocámos umas breves palavras e, coisa estranha, não lhe senti a rouquidão da voz, mas, pelo contrário, tudo o que lhe saía da boca eram palavras límpidas e harmoniosas, boas de ouvir e tomar.  Verti uma lágrima e, uma vez mais na vida, tive pena de ter perdido um amor.

quinta-feira, abril 30, 2015

ÁLVARO DE CAMPOS E FERREIRA DE CASTRO - A VERTIGEM FEBRIL DAS MÁQUINAS

Dois textos e temáticas afins:

1/. A "Ode Triunfal" de ÁLVARO DE CAMPOS
 
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r  eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo quanto eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
(…)

2/. A peregrina do mundo novo, novela futurista de FERREIRA DE CASTRO publicada na revista ABC entre 13 de Agosto a 31 de Dezembro de 1925. Ilustrações de Emérico Nunes e Roberto Nobre.


domingo, abril 12, 2015

ESTAR OU NÃO ESTAR NUMA RELAÇÃO


As ligações afectivas mais ou menos duradouras são por vezes designadas, nas redes sociais da Internet, por esta expressão singular: “estar numa relação”. A princípio era o precariado juvenil que se servia dela, mas ultimamente tem vindo a estender-se a outros estratos etários, alguns de pessoas de razoável nível social e cultural.
Um professor universitário apresenta no seu perfil da rede social facebook um dado curioso: «Numa relação desde Janeiro de 2015».
“Estar” numa relação não é o mesmo que “ter” uma relação, porque a diferença entre ter e estar exprime um sinal de precariedade característico da sociedade moderna em que vivemos, uma sociedade de “corrosão do carácter”, como foi assinalado pelo sociólogo Richard Sennett.
Quando “estiver” numa nova relação, o dito professor indicará provavelmente “desde Agosto de 2015” ou “desde Fevereiro de 2016”, fixando assim o curso temporal e a transitoriedade dos seus afectos. Hoje, e cada vez mais, o que parece corresponder às aspirações de muitos não são  relações que se desejem duradouramente boas, mas, simplesmente, que sejam boas enquanto durarem.
“Estar numa relação” é uma coisa tão moderna que não nos vemos a dizer de Franz Kafka que esteve numa relação com Felice Bauer ou Milena Jesenská. E o mesmo de Garrett com a Viscondessa da Luz.
“Estar numa relação” é, portanto, matéria de Sandras Vanessas e Alexes Romeus, miudagem dos nossos dias, mas também de alguns senhores e senhoras com nomes antigos e idades para serem vovós.
Cá por mim, que sou mais antigo que moderno, ainda vou preferindo o “ter” ao “estar”. Mas isso,  dirão os meus amigos e eu humildemente aceito, são manias de quem quer ser diferente e, afinal, não deixa de ser igual aos demais.  

domingo, abril 05, 2015

DE EGITANIA À PONTE ROMANA DE ALCÁNTARA

Egitania foi o nome dado pelos visigodos a Civitas Igaeditanorum, hoje Idanha-a-Velha. A história da cidade encontra-se ligada à ponte romana de Alcántara (século II), pois como consta de inscrição colocada no seu arco central, os igaeditani contribuíram em dinheiro, como outros povos da Lusitânia, para a realização da obra. (Ver JORGE DE ALARCÃO, O Domínio Romano em Portugal). Fotos de 2/4/2015.

domingo, março 01, 2015

METRO DO PORTO, LINHA B


De Vila do Conde à Póvoa de Varzim
vão três estações de metro: Alto de Pega,
Portas Fronhas e São Brás. O comboiozinho
amareleja sobre carris cansados e o mar,
de rebentações lúbricas, pressente-se
para lá das casas. E o amor, quem pressente
o amor?, pergunto retro-retoricamente.
Então oiço uma voz de dentro: – Cala-te mas é
ó incontinente das paixões palavrosas!
Guarda o caderno e o lápis e não sejas parvo
que chegado és à estação terminal.

27/2/2015