Às vezes encontramos lugares que nos surpreendem.
terça-feira, março 10, 2015
domingo, março 01, 2015
METRO DO PORTO, LINHA B
De Vila do
Conde à Póvoa de Varzim
vão três
estações de metro: Alto de Pega,
Portas
Fronhas e São Brás. O comboiozinho
amareleja sobre carris cansados e o mar,
de
rebentações lúbricas, pressente-se
para lá das
casas. E o amor, quem pressente
o amor?,
pergunto retro-retoricamente.
Então oiço
uma voz de dentro: – Cala-te mas é
ó
incontinente das paixões palavrosas!
Guarda o
caderno e o lápis e não sejas parvo
que chegado
és à estação terminal.
27/2/2015
terça-feira, fevereiro 24, 2015
XANADU DO AMOR (7)
Fragmento duma carta captado pela mente de Mandrake:
« Nunca me deste um
sinal, nunca percebi o que querias de mim. Aprecio mais os gestos do que
as palavras, um toque de mãos pode ser melhor que uma declaração de
amor, o movimento do corpo é mais eloquente do que um discurso. E assim ficámos
no meio termo do encantamento possível. Bem vistas as coisas, acho que pertencemos
a mundos diferentes: nenhuma ponte, nenhum caminho, apenas o vento que
vai de um para o outro...»
RESPEITINHO É QUE É PRECISO (verso de Alexandre O´Neill)
Por favor, a Comissão Europeia que faça chegar rapidamente ao gabinete da ministra Maria Luís a lista das reformas propostas pelos gregos. E não se esqueça de esclarecer a questão dos procedimentos. Felizmente, temos uma ministra que pensa pela sua cabeça, não pela do senhor Wolfgang Shaüble... :)
quinta-feira, fevereiro 12, 2015
SONETO PARA UMA CORÇA
Foto: Kültür Tava
És uma corça roída de cio ciúme. Cicio
ternos bramidos enquanto roço a galhada
pelo teu focinho húmido e, mesmo assim,
achas que não te amo.
Espanta o pássaro que te adorna o flanco
– melancólica intrusão visual –
e abandona-te, meu bicho,
à sombra lume das araucárias.
(Este Inverno é como se fosse a Primavera.)
Sente o perfume dos líquenes, o calor
do húmus que sobe erecto da terra
e deixa manar a seiva que há em ti.
Assim, até que as folhas tremam, como asas
de borboletas cegas de encontro à luz.
ternos bramidos enquanto roço a galhada
pelo teu focinho húmido e, mesmo assim,
achas que não te amo.
Espanta o pássaro que te adorna o flanco
– melancólica intrusão visual –
e abandona-te, meu bicho,
à sombra lume das araucárias.
(Este Inverno é como se fosse a Primavera.)
Sente o perfume dos líquenes, o calor
do húmus que sobe erecto da terra
e deixa manar a seiva que há em ti.
Assim, até que as folhas tremam, como asas
de borboletas cegas de encontro à luz.
2/2/2015
sexta-feira, janeiro 30, 2015
XANADU DO AMOR (6)
Mandrake fumava sob a macieira de Cockaigne plantada no seu jardim de Xanadu.
Pensava: – Ela dizia
o que não sentia ou exactamente o seu contrário… Fazia-se forte para não ceder
aos sentimentos, confiante de uma impassibilidade que não era sua… E ele
acreditava no que ela dizia, levava-a a sério, era aliás a única pessoa que a
levava a sério… Ele não avançava por temor de ser rejeitado, enquanto ela
esperava pelos seus avanços… Mas como podia ele avançar por caminhos que ela
própria tornara ínvios?
“Há fogos que se
devoram a si mesmos”, disse Mandrake para ninguém.
Pensou: – O amor
deveria ser simples como uma árvore ou uma pedra.
quarta-feira, janeiro 28, 2015
PORQUE ESPERASTE
Foto Kültür Tava
Porque esperaste, ciente, a pele da minha mão?-- JORGE DE SENA, "Fidelidade" (1958)
terça-feira, janeiro 27, 2015
A MEU FAVOR
Foto de OLAF MARTENS
A meu favor / Tenho o verde secreto dos teus olhos / Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor / O tapete que vai partir para o infinito / Esta noite ou uma noite qualquer // A meu favor / As paredes que insultam devagar / Certo refúgio acima do murmúrio / Que da vida corrente teime em vir / O barco escondido pela folhagem / O jardim onde a aventura recomeça.
-- ALEXANDRE O' NEILL, "No Reino da Dinamarca"
-- ALEXANDRE O' NEILL, "No Reino da Dinamarca"
XANADU DO AMOR (5)
“Lotário”, disse
Mandrake, “afinal nada é como parece”.
O africano distendeu
os bíceps como se tal fosse imperativo para ouvir melhor. Veio-lhe um cheiro a
terra e a embondeiros vermelhos, um leão rugiu-lhe numa dobra da alma, a gazela
saltou em fuga, o caudal dum rio barrento bateu-lhe nas têmporas.
Nada é como parece,
anuiu em pensamento, e foi como se sentisse a derrota de tudo o que abandonara:
o seu povo, aquela que poderia ter sido a sua rainha, as noites de luar sentidas
de paliçadas de sonho quando os pássaros nocturnos rasgam de luz o silêncio do
tempo.
“Estão ambos apaixonados,
só que é uma paixão sem saída”, tornou Mandrake. Lotário, porém, já não o ouvia.
domingo, janeiro 25, 2015
XANADU DO AMOR (4)
Mandrake
teletransportou-se ao jardim perfumado onde ele e ela passeavam. A noite
crescia de eflúvios e estrelas silentes. Quem visse de longe, diria que iam de
mãos dadas, o que de facto não acontecia, pois só a proximidade dos corpos
deixava essa ideia enganadora.
A poderosa mente do
mago escrutinou a mente de cada um deles.
quinta-feira, janeiro 22, 2015
quarta-feira, janeiro 21, 2015
XANADU DO AMOR (3)
“Ela dá-lhe sinais
contraditórios, com avanços e recuos que minam a confiança da progressão
amorosa. É como se quisesse prendê-lo, sem desejar entregar-se. As mulheres…”
“Hum…”, nasalou
Lotário, e uma dúvida salpicou de sombra a pele de leopardo que lhe cobria o
tronco.
“Quando se encontram,
ela tem sempre pressa em partir, como se cedo se fartasse da companhia ou tivesse
alguém à sua espera. Ele teme-lhe as astúcias, o bate e foge com que o enleia.”
“Ele é um homem bom”,
aduziu o africano.
“De bons homens está
o mundo cheio”, replicou Mandrake, “e incompetentes nos lances do amor, também.”
A conversa não foi
adiante, o mago sabia perfeitamente onde devia parar. Estava tudo na sua mão,
era só urdir a teia.
Hojo acabava de aparecer,
avantajado no seu quimono, a anunciar o jantar. Num instante, Mandrake já estava sentado à mesa.
segunda-feira, janeiro 19, 2015
XANADU DO AMOR (2)
Mandrake vira-a uma
vez, na primeira linha das mesas, durante um espectáculo de magia. Não teria
mais de quarenta anos, o corpo era sólido, os seios pequenos. Os olhos tinham a
cor da luz do céu e na boca fulgia o brilho ardente dos frutos de morder. Tinha
feito voar uma pomba até à sua mesa, logo transformada em buquê de rosas, e ela
dera um gritinho de surpresa, tocando as flores num gesto sensual e terno.
Ele fornecia lâmpadas
e rolos de fio eléctrico para Xanadu. Fizera-se amigo de Lotário a quem
insistentemente pedia, como se nunca tivesse chegado a compreender as causas, que
lhe falasse da sua renúncia ao trono das Sete Nações Africanas.
O mago lembrava-se
com saudade das suas aventuras passadas: a luta contra o crime, mas também de
quando mediara Cupido na busca de uma mãe para o pequeno príncipe Randolph.
Agora, de novo, aproximava-se do filho de Vénus. Mandrake tinha um interesse
mágico pelas coitas de amor.
domingo, janeiro 18, 2015
XANADU DO AMOR (1)
“Ele pensa que ela
tem uma vida secreta, uma zona de sombra que não revela aos amigos nem aos
familiares mais directos.”
“Como assim?”,
estranhou Lotário, passando os dedos pelo feltro duro do seu novo fez, acabado de
estrear.
“Ela é demasiado equilibrada
e forte para uma mulher que se diz sozinha, sem homem.”, acrescentou Mandrake,
enquanto fazia desaparecer, num passe de mágica, a laranja fulva que tinha na
mão. “Está apaixonado, já entrou naquela zona de perigo de onde só a magia o
pode tirar.”
“Estou a ver”,
articulou Lotário no seu falar arranhado, “mas é um caso que não nos diz
respeito, acho .”
Mandrake anuiu com um
gesto subtil de mãos. Xanadu respirava silêncios e tecnologias, o fim do dia
alaranjava-se de sonho. E disse:
“Mas temos de o ajudar.
Pela magia, pela hipnose ou por qualquer outra via. O amor…”
Mandrake pensava em
Narda, e calou-se.
sexta-feira, dezembro 12, 2014
A CASA
Às
vezes penso que a Casa não existe; que a colina, o largo, as escadinhas que dão
para as ruas de baixo e de cima não existem; que os livros, os quadros e o cinema
são sonho sobre sonho, irrealidade. A Casa é, para mim, um apeadeiro de ilusões,
a pintura inacabada, um poema a escrever, a amiga ou o amigo a quem se dá o
braço.
Observo-lhe
as traves altas, as janelas, as portas que se abrem para fora como nos desenhos
das crianças, e o sonho tem vida. Para lá da ilusão, a Casa existe.
Na
Casa já vi e senti muito:
Ler e ouvir ler.
As mantas com cheiro a cinema naquele espaço
entre dois prédios, um rio de luz correndo na parede oblíqua.
O inconformismo.
As cores da paleta.
Os afectos e as afinidades.
Na
Casa somos maiores e não estamos sós.
Escrito para a CASA DA ACHADA, 11/12/2014
domingo, novembro 30, 2014
sexta-feira, novembro 28, 2014
EM PARATY
para ti - mensagem
daqui
não posso ouvir o sino das tuas quatro
igrejas nem mirar meu rosto de cair de
tarde nas águas do teu rio-poesia
imitando as velhas árvores.
mas, em cada pedra redonda da tua rua
deixei uma lágrima escondida
que fará brotar mais ervas
(ervas que as mulheres
capinam durante o dia
e à noite continuam a crescer).
(...)
JOSÉ KLEBER (1932-1989), poeta paratiense
daqui
não posso ouvir o sino das tuas quatro
igrejas nem mirar meu rosto de cair de
tarde nas águas do teu rio-poesia
imitando as velhas árvores.
mas, em cada pedra redonda da tua rua
deixei uma lágrima escondida
que fará brotar mais ervas
(ervas que as mulheres
capinam durante o dia
e à noite continuam a crescer).
(...)
JOSÉ KLEBER (1932-1989), poeta paratiense
terça-feira, novembro 11, 2014
domingo, novembro 02, 2014
AMIZADES ERÓTICAS
“Kundera enganou-se”, disse-me o meu
amigo, piscando os olhos onde vogava um brilho de assertividade.
“Enganou-se”, repetiu.
Foi aí, no fulgor inesperado da
repetição, que a coisa começou a interessar-me.
“Enganou-se em quê?”, perguntei.
E ele:
“Enganou-se naquela definição das
amizades eróticas. Não é nada daquilo que ele diz, duzentas mulheres em oito
anos, isso é a voragem do engate, apenas isso, o gajo confundiu as coisas.”
Admirei-me.
E o meu amigo:
“Sei bem o que são amizades eróticas,
tenho várias.”
E acrescentou, o despudorado:
“Amizade erótica, como eu a vejo, é
uma amizade marcada pelo erotismo, mas sem consumação carnal.”
Voltei a admirar-me.
“Escuta”, continuou, “é o mais
erótico que há: uma amizade que se prolonga sob o signo do impulso sexual, porque
há sempre erotismo numa amizade, mas retardada a sua concretização até aos
limites do possível… ou do já não possível. Sentir-se que o que podia ter
acontecido ainda não aconteceu, a vela do mistério a arder até ao fim, é muito
estimulante… Porque depois de se passar ao acto, acaba-se o mistério, é sempre
igual ao anterior.”
“Ó pá, mas isso dá mau resultado, elas têm
pressa, não gostam de esperar…”
“Eu sei”, respondeu-me o meu amigo, “por
isso é que em oito anos não tive duzentas, como a personagem do Kundera, mas
apenas duas.”
Saí de ao pé dele e pus-me a deambular
pela cidade, precisava de apanhar ar na cara. Há cada tipo mais esquisito! E
são estes os amigos que temos!
O PODER DAS CARTAS
Vi-o cair. Estava eu sentado na esplanada do café, ruminando um jornal do dia na companhia de uma bebida que me trouxera um empregado aciganado, de brinquinho na orelha, movendo-se nuns ténis azuis e brancos de marca indefinida.
Caiu à minha frente como uma maçã de Newton, os pés a fugirem-lhe, a cara no chão.
“Ajudem o rapaz por amor de Deus”, disse uma senhora decrépita que acolitava uma distribuidora de folhetos das Testemunhas de Jeová.
“Dêem-lhe um copo de água, não vá desmaiar”, aconselhou a dona da loja das revistas, uma loira boa de quarenta e tal anos.
Um moço bombeiro que bebia uma imperial prestou os primeiros socorros.
“Um pacotinho de açúcar, por favor, isto deve ser hipoglicémia”, gritou para dentro do café.
O rapaz, branco como uma raspadinha sem prémio, recebeu o açúcar por via sublingual. Olhou em volta: viu o moço bombeiro, a senhora decrépita e a loira boa. Suspirava à medida que se recompunha, e disse:“Podia ter acabado o namoro por SMS, ou apagado o meu nome na sua página do facebook, ou pintado na parede do meu prédio um esquece-me ou um deixa-me… Mas não, teve o requinte de me escrever uma carta, tudo dito e explicado. Isto já não se usa, por isso é que me custou tanto.”
Do bolso do casaco saía-lhe um sobrescrito de correio azul, lívido apesar de azul. Tive pena.
Caiu à minha frente como uma maçã de Newton, os pés a fugirem-lhe, a cara no chão.
“Ajudem o rapaz por amor de Deus”, disse uma senhora decrépita que acolitava uma distribuidora de folhetos das Testemunhas de Jeová.
“Dêem-lhe um copo de água, não vá desmaiar”, aconselhou a dona da loja das revistas, uma loira boa de quarenta e tal anos.
Um moço bombeiro que bebia uma imperial prestou os primeiros socorros.
“Um pacotinho de açúcar, por favor, isto deve ser hipoglicémia”, gritou para dentro do café.
O rapaz, branco como uma raspadinha sem prémio, recebeu o açúcar por via sublingual. Olhou em volta: viu o moço bombeiro, a senhora decrépita e a loira boa. Suspirava à medida que se recompunha, e disse:“Podia ter acabado o namoro por SMS, ou apagado o meu nome na sua página do facebook, ou pintado na parede do meu prédio um esquece-me ou um deixa-me… Mas não, teve o requinte de me escrever uma carta, tudo dito e explicado. Isto já não se usa, por isso é que me custou tanto.”
Do bolso do casaco saía-lhe um sobrescrito de correio azul, lívido apesar de azul. Tive pena.
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