sexta-feira, dezembro 12, 2014

A CASA


Às vezes penso que a Casa não existe; que a colina, o largo, as escadinhas que dão para as ruas de baixo e de cima não existem; que os livros, os quadros e o cinema são sonho sobre sonho, irrealidade. A Casa é, para mim, um apeadeiro de ilusões, a pintura inacabada, um poema a escrever, a amiga ou o amigo a quem se dá o braço.
Observo-lhe as traves altas, as janelas, as portas que se abrem para fora como nos desenhos das crianças, e o sonho tem vida. Para lá da ilusão, a Casa existe.
Na Casa já vi e senti muito:
Ler e ouvir ler.
As mantas com cheiro a cinema naquele espaço entre dois prédios, um rio de luz correndo na parede oblíqua.
O inconformismo.
          As cores da paleta.
Os afectos e as afinidades.
Na Casa somos maiores e não estamos sós.
 
Escrito para a CASA DA ACHADA, 11/12/2014

sexta-feira, novembro 28, 2014

EM PARATY

para ti - mensagem

daqui
não posso ouvir o sino das tuas quatro
igrejas nem mirar meu rosto de cair de
tarde nas águas do teu rio-poesia
imitando as velhas árvores.
mas, em cada pedra redonda da tua rua
deixei uma lágrima escondida
que fará brotar mais ervas
(ervas que as mulheres
capinam durante o dia
e à noite continuam a crescer).
(...)
JOSÉ KLEBER (1932-1989), poeta paratiense

 

domingo, novembro 02, 2014

AMIZADES ERÓTICAS


“Kundera enganou-se”, disse-me o meu amigo, piscando os olhos onde vogava um brilho de assertividade.
“Enganou-se”, repetiu.
Foi aí, no fulgor inesperado da repetição, que a coisa começou a interessar-me.
“Enganou-se em quê?”, perguntei.
E ele:
“Enganou-se naquela definição das amizades eróticas. Não é nada daquilo que ele diz, duzentas mulheres em oito anos, isso é a voragem do engate, apenas isso, o gajo confundiu as coisas.”
Admirei-me.
E o meu amigo:
“Sei bem o que são amizades eróticas, tenho várias.”
E acrescentou, o despudorado:
“Amizade erótica, como eu a vejo, é uma amizade marcada pelo erotismo, mas sem consumação carnal.”
Voltei a admirar-me.
“Escuta”, continuou, “é o mais erótico que há: uma amizade que se prolonga sob o signo do impulso sexual, porque há sempre erotismo numa amizade, mas retardada a sua concretização até aos limites do possível… ou do já não possível. Sentir-se que o que podia ter acontecido ainda não aconteceu, a vela do mistério a arder até ao fim, é muito estimulante… Porque depois de se passar ao acto, acaba-se o mistério, é sempre igual ao anterior.”
“Ó pá, mas isso dá mau resultado, elas têm pressa, não gostam de esperar…”
“Eu sei”, respondeu-me o meu amigo, “por isso é que em oito anos não tive duzentas, como a personagem do Kundera, mas apenas duas.”
Saí de ao pé dele e pus-me a deambular pela cidade, precisava de apanhar ar na cara. Há cada tipo mais esquisito! E são estes os amigos que temos!
 

O PODER DAS CARTAS

 
Vi-o cair. Estava eu sentado na esplanada do café, ruminando um jornal do dia na companhia de uma bebida que me trouxera um empregado aciganado, de brinquinho na orelha, movendo-se nuns ténis azuis e brancos de marca indefinida.
Caiu à minha frente como uma maçã de Newton, os pés a fugirem-lhe, a cara no chão.
“Ajudem o rapaz por amor de Deus”, disse uma senhora decrépita que acolitava uma distribuidora de folhetos das Testemunhas de Jeová.
“Dêem-lhe um copo de água, não vá desmaiar”, aconselhou a dona da loja das revistas, uma loira boa de quarenta e tal anos.
Um moço bombeiro que bebia uma imperial prestou os primeiros socorros.
“Um pacotinho de açúcar, por favor, isto deve ser hipoglicémia”, gritou para dentro do café.
O rapaz, branco como uma raspadinha sem prémio, recebeu o açúcar por via sublingual. Olhou em volta: viu o moço bombeiro, a senhora decrépita e a loira boa. Suspirava à medida que se recompunha, e disse:“Podia ter acabado o namoro por SMS, ou apagado o meu nome na sua página do facebook, ou pintado na parede do meu prédio um esquece-me ou um deixa-me… Mas não, teve o requinte de me escrever uma carta, tudo dito e explicado. Isto já não se usa, por isso é que me custou tanto.”
Do bolso do casaco saía-lhe um sobrescrito de correio azul, lívido apesar de azul. Tive pena.
 

sexta-feira, outubro 31, 2014

O KITSCH

Em “A arte do romance”, Milan Kundera define um conjunto de sessenta e sete palavras que são, por assim dizer, o léxico-base ou o léxico-problema dos seus romances. Entre elas a palavra «kitsch», associada muitas vezes, de forma redutora, a «arte de pacotilha», mas que, segundo Hermann Broch, é algo diferente de uma mera obra de mau gosto.
Presente em toda a sexta parte de “A insustentável leveza do ser”, o kitsch de Kundera desdobra-se em declarações tão interessantes como esta: “O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os partidos e de todos os movimentos políticos”.
Há o kitsch totalitário, o familiar, o amoroso... Digo, por minha conta e risco, que um caso de kitsch amoroso é uma mulher convidar um homem para a cama e ele não aceitar. Não tem este meu juízo qualquer conteúdo valorativo, porque o kitsch não é bom nem mau, é simplesmente diferente. Ainda segundo Kundera, o kitsch é a ditadura do coração, e está tudo explicado.
 

quarta-feira, outubro 08, 2014

NOBEL DA LITERATURA 2014

Será um destes dois - o japonês HARUKI MURAKAMI ou o queniano NGUGI WA THIONG´O. Quem o diz não é a universidade, nem a crítica, mas as casas de apostas. Quem sou eu para duvidar de tão esclarecidas organizações? Amanhã saberemos, mas, está mais que visto, a coisa decide-se entre eles. 

quarta-feira, outubro 01, 2014

MURAKAMI, OUTRA VEZ

O segundo conto já cá canta. É a história de um casal que acorda de madrugada com um grande acesso de fome. Como não tinham comida em casa, resolvem assaltar uma padaria. O problema é que em Tóquio, àquela hora, não conseguiram lobrigar padaria aberta. Em alternativa, já desesperados, despejam a vérmina criminal da fome sobre uma loja McDonald´s. Ameaçando os empregados com uma arma, roubam nada mais nada menos que trinta hambúrgueres Big Macs.
Moral do conto: só em estado de grande necessidade se troca uma refeição de pão fresco pela comida de plástico da conhecida cadeia alimentar.
Uma coisa não se compreende: a nota da tradutora na página 44. Eu acho, o que não é uma certeza, que os tradutores têm prejudicado muito o Murakami, ou seja, têm-no baixado deliberadamente de nível, em traduções de segundo e terceiro grau, talvez com o objectivo de o tornarem ainda mais vendável.
Às minhas amigas admiradoras deste muito provável Nobel (umas quatro, no mínimo), recomendo que aprendam rapidamente japonês.  

terça-feira, setembro 30, 2014

TEXTO E SUBTEXTO

Para quem não sabe, digo que não morro de amores por este escritor, eterno candidato ao Nobel de Literatura, mas pode ser que lá chegue este ano. Li hoje, a modos que por dever de ofício, o primeiro conto da colectânea “O Elefante Evapora-se”, uma história com um homem, três mulheres, um gato desaparecido e um pássaro de corda. Das mulheres, que é o que mais interessa, uma é uma espécie de telefonista de linhas eróticas; outra, uma adolescente a cheirar a leite, mas muito atrevida; e a última é a legítima do homem à beira de deixar de o ser. Não está mal, só que ainda ando à procura do subtexto. Como as coisas estão, duvido bem que o venha a encontrar.  

sábado, setembro 27, 2014

O CANTARIL


Afago-te a barbatana do dorso como a um animal
de pêlo, mesmo sabendo que vais rasgar-me os dedos
num assomo de lâminas e espinhos de roseira brava.
Enganador o género do teu nome: arranhas e mordes
com requintes de fêmea, e eu deixo-me morrer
sob o olho túrgido com que devassas os abismos
do oceano em riste. És tu ou o quê, bicho de sal e água?
Como-te num assado de forno; chamo-te peixe 
para esquecer que existes.

27/9/2014

terça-feira, setembro 23, 2014

O AMOR É SIMPLES

Numa carta de Eça de Queiroz para Ramalho Ortigão, datada de Londres, 14 de Outubro de 1885, o nosso cônsul comunicava ao bom amigo e companheiro de letras o seu casamento com Emília Rezende:
«Este casamento, e a séria e grave afeição que o produz, é tão simples que não tem história.» Uma boa maneira de abordar o assunto, não haja dúvida, mas o melhor vem depois: «O único lado pitoresco (…) é que, quando a Emília e eu estávamos constantemente juntos, na longa intimidade de três meses, falávamos de livros, de cozinha, do que dizia o “Ilustrado”, um pouco de religião, muito das senhoras da Granja, de arte, de cães, da cultura da beterraba e uma ou outra vez do Fontes.» Conversas de praia, é claro. E continua: «E foi quando nos separámos” – as férias de Verão, Setembro dentro, teriam entretanto acabado – «que, de repente, batendo cada um por seu lado na testa, exclamámos a toda esta distância: – É verdade, esqueceu-nos de dizer que devíamos unir os nossos destinos!» Muitas vezes as coisas acontecem assim, há uns esquecimentos, mas acaba tudo em bem… E remata: « É este o único lado pitoresco. O resto é um pouco terre-à-terre, não vale de modo nenhum o esplendor lírico de Romeu and Juliet e não podia ser posto em árias pelo lânguido Gounod.»
Perfeito! Ficamos mais confortados: as coisas, às vezes, não são tão complicadas como nós a fazemos.

domingo, setembro 21, 2014

VIAGENS NA MINHA TERRA

O criptopórtico de Aeminium (séc. I ou II d. C.), como o vi ontem no local (Museu Machado de Castro, Coimbra) e hoje numa gravura do livro de Jorge de Alarcão O Domínio Romano em Portugal. « O criptopórtico de Aeminium foi construído em dois andares. (...) Não temos dados para a identificação do arquitecto; mas não é hipótese destituída de senso pensar que tenha sido Caio Sévio Lupo, o mesmo architectus aeminiensis que construiu o farol romano da Corunha.» (Cap. VIII, p. 184 da obra citada.)

quarta-feira, setembro 10, 2014

TRISTEZA

ALBRECHT DÜRER (1471-1528), Melancolia, gravura (1514)
 
“Uma irresistível e já automática associação de ideias faz-me sempre recordar a Melancolia de Dürer quando penso na obra de Eduardo Lourenço. Se o de António Nobre é o livro mais triste que alguma vez se escreveu em Portugal , faltava-nos quem sobre essa tristeza refletisse e meditasse. Veio Eduardo Lourenço e explicou-nos quem somos e porque o somos. Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los.”
 
-- Blogue de JOSÉ SARAMAGO em 20/8/2009, publicado em O Caderno 2

quarta-feira, agosto 27, 2014

HISTÓRIAS DE PROVEITO E EDIFICAÇÃO MORAL


On ne badine pas avec l´amour – disse ela, saltando da cama, mostrando com eloquência que conhecia a história de Musset e George Sand.
Cobriu o triângulo escuro da púbis com um roupão igualmente escuro que costumava trazer por casa.
Ele nunca mais a viu, e agora, para se distrair, anda na Net a copiar nus deitados de Modigliani.

segunda-feira, agosto 11, 2014

MULHER NA PRAIA, nova versão

Santiago Carbonell, título desconhecido

Por que marés de algas chegas até mim
à flor da praia? De que ilhas vens
por correntes e ventos que não conheço?

Pressinto o cone de sal do teu corpo,
o canto brando dos poros riscando
de água o lume da tarde.

Estendo a mão para te apanhar
como a uma concha  estriada de luz
sobre a areia húmida.

Mas já não te encontro.
 
 
8/8/2014

sábado, julho 26, 2014

EM ARLES

ARLES, 20 de Julho de 2014
A Casa Amarela de Arles, alugada por van Gogh em Maio de 1888, mandada pintar na cor por que ficou conhecida. Mobilada meses depois, quando Theo lhe enviou, para o efeito, 300 francos, nela se instalou em Setembro do mesmo ano. Nesse embrião do “atelier du midi”  viveu com Paul Gauguin um curto período minado de ressentimentos e divergências estéticas. Até ao episódio infeliz da automutilação em Dezembro de 1888.  
A Casa já não existe – foi bombardeada pela aviação alemã em 1944 –, mas ainda lá estão alguns prédios da avenida (Av. de Stalingrad) e as pontes ferroviárias.  
 
(Fotografia do quadro obtida na Fondation Vincent van Gogh, Arles)

sexta-feira, julho 25, 2014