domingo, novembro 30, 2014
sexta-feira, novembro 28, 2014
EM PARATY
para ti - mensagem
daqui
não posso ouvir o sino das tuas quatro
igrejas nem mirar meu rosto de cair de
tarde nas águas do teu rio-poesia
imitando as velhas árvores.
mas, em cada pedra redonda da tua rua
deixei uma lágrima escondida
que fará brotar mais ervas
(ervas que as mulheres
capinam durante o dia
e à noite continuam a crescer).
(...)
JOSÉ KLEBER (1932-1989), poeta paratiense
daqui
não posso ouvir o sino das tuas quatro
igrejas nem mirar meu rosto de cair de
tarde nas águas do teu rio-poesia
imitando as velhas árvores.
mas, em cada pedra redonda da tua rua
deixei uma lágrima escondida
que fará brotar mais ervas
(ervas que as mulheres
capinam durante o dia
e à noite continuam a crescer).
(...)
JOSÉ KLEBER (1932-1989), poeta paratiense
terça-feira, novembro 11, 2014
domingo, novembro 02, 2014
AMIZADES ERÓTICAS
“Kundera enganou-se”, disse-me o meu
amigo, piscando os olhos onde vogava um brilho de assertividade.
“Enganou-se”, repetiu.
Foi aí, no fulgor inesperado da
repetição, que a coisa começou a interessar-me.
“Enganou-se em quê?”, perguntei.
E ele:
“Enganou-se naquela definição das
amizades eróticas. Não é nada daquilo que ele diz, duzentas mulheres em oito
anos, isso é a voragem do engate, apenas isso, o gajo confundiu as coisas.”
Admirei-me.
E o meu amigo:
“Sei bem o que são amizades eróticas,
tenho várias.”
E acrescentou, o despudorado:
“Amizade erótica, como eu a vejo, é
uma amizade marcada pelo erotismo, mas sem consumação carnal.”
Voltei a admirar-me.
“Escuta”, continuou, “é o mais
erótico que há: uma amizade que se prolonga sob o signo do impulso sexual, porque
há sempre erotismo numa amizade, mas retardada a sua concretização até aos
limites do possível… ou do já não possível. Sentir-se que o que podia ter
acontecido ainda não aconteceu, a vela do mistério a arder até ao fim, é muito
estimulante… Porque depois de se passar ao acto, acaba-se o mistério, é sempre
igual ao anterior.”
“Ó pá, mas isso dá mau resultado, elas têm
pressa, não gostam de esperar…”
“Eu sei”, respondeu-me o meu amigo, “por
isso é que em oito anos não tive duzentas, como a personagem do Kundera, mas
apenas duas.”
Saí de ao pé dele e pus-me a deambular
pela cidade, precisava de apanhar ar na cara. Há cada tipo mais esquisito! E
são estes os amigos que temos!
O PODER DAS CARTAS
Vi-o cair. Estava eu sentado na esplanada do café, ruminando um jornal do dia na companhia de uma bebida que me trouxera um empregado aciganado, de brinquinho na orelha, movendo-se nuns ténis azuis e brancos de marca indefinida.
Caiu à minha frente como uma maçã de Newton, os pés a fugirem-lhe, a cara no chão.
“Ajudem o rapaz por amor de Deus”, disse uma senhora decrépita que acolitava uma distribuidora de folhetos das Testemunhas de Jeová.
“Dêem-lhe um copo de água, não vá desmaiar”, aconselhou a dona da loja das revistas, uma loira boa de quarenta e tal anos.
Um moço bombeiro que bebia uma imperial prestou os primeiros socorros.
“Um pacotinho de açúcar, por favor, isto deve ser hipoglicémia”, gritou para dentro do café.
O rapaz, branco como uma raspadinha sem prémio, recebeu o açúcar por via sublingual. Olhou em volta: viu o moço bombeiro, a senhora decrépita e a loira boa. Suspirava à medida que se recompunha, e disse:“Podia ter acabado o namoro por SMS, ou apagado o meu nome na sua página do facebook, ou pintado na parede do meu prédio um esquece-me ou um deixa-me… Mas não, teve o requinte de me escrever uma carta, tudo dito e explicado. Isto já não se usa, por isso é que me custou tanto.”
Do bolso do casaco saía-lhe um sobrescrito de correio azul, lívido apesar de azul. Tive pena.
Caiu à minha frente como uma maçã de Newton, os pés a fugirem-lhe, a cara no chão.
“Ajudem o rapaz por amor de Deus”, disse uma senhora decrépita que acolitava uma distribuidora de folhetos das Testemunhas de Jeová.
“Dêem-lhe um copo de água, não vá desmaiar”, aconselhou a dona da loja das revistas, uma loira boa de quarenta e tal anos.
Um moço bombeiro que bebia uma imperial prestou os primeiros socorros.
“Um pacotinho de açúcar, por favor, isto deve ser hipoglicémia”, gritou para dentro do café.
O rapaz, branco como uma raspadinha sem prémio, recebeu o açúcar por via sublingual. Olhou em volta: viu o moço bombeiro, a senhora decrépita e a loira boa. Suspirava à medida que se recompunha, e disse:“Podia ter acabado o namoro por SMS, ou apagado o meu nome na sua página do facebook, ou pintado na parede do meu prédio um esquece-me ou um deixa-me… Mas não, teve o requinte de me escrever uma carta, tudo dito e explicado. Isto já não se usa, por isso é que me custou tanto.”
Do bolso do casaco saía-lhe um sobrescrito de correio azul, lívido apesar de azul. Tive pena.
sexta-feira, outubro 31, 2014
O KITSCH
Em “A arte do romance”, Milan Kundera define um conjunto de sessenta e sete palavras que são, por assim dizer, o léxico-base ou o léxico-problema dos seus romances. Entre elas a palavra «kitsch», associada muitas vezes, de forma redutora, a «arte de pacotilha», mas que, segundo Hermann Broch, é algo diferente de uma mera obra de mau gosto.
Presente em toda a sexta parte de “A insustentável leveza do ser”, o kitsch de Kundera desdobra-se em declarações tão interessantes como esta: “O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os partidos e de todos os movimentos políticos”.
Há o kitsch totalitário, o familiar, o amoroso... Digo, por minha conta e risco, que um caso de kitsch amoroso é uma mulher convidar um homem para a cama e ele não aceitar. Não tem este meu juízo qualquer conteúdo valorativo, porque o kitsch não é bom nem mau, é simplesmente diferente. Ainda segundo Kundera, o kitsch é a ditadura do coração, e está tudo explicado.
Presente em toda a sexta parte de “A insustentável leveza do ser”, o kitsch de Kundera desdobra-se em declarações tão interessantes como esta: “O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os partidos e de todos os movimentos políticos”.
Há o kitsch totalitário, o familiar, o amoroso... Digo, por minha conta e risco, que um caso de kitsch amoroso é uma mulher convidar um homem para a cama e ele não aceitar. Não tem este meu juízo qualquer conteúdo valorativo, porque o kitsch não é bom nem mau, é simplesmente diferente. Ainda segundo Kundera, o kitsch é a ditadura do coração, e está tudo explicado.
quarta-feira, outubro 29, 2014
quarta-feira, outubro 08, 2014
NOBEL DA LITERATURA 2014
Será um destes dois - o japonês HARUKI MURAKAMI ou o queniano NGUGI WA THIONG´O. Quem o diz não é a universidade, nem a crítica, mas as casas de apostas. Quem sou eu para duvidar de tão esclarecidas organizações? Amanhã saberemos, mas, está mais que visto, a coisa decide-se entre eles.
quarta-feira, outubro 01, 2014
MURAKAMI, OUTRA VEZ
O segundo
conto já cá canta. É a história de um casal que acorda de madrugada com um
grande acesso de fome. Como não tinham comida em casa, resolvem assaltar uma
padaria. O problema é que em Tóquio, àquela hora, não conseguiram lobrigar
padaria aberta. Em alternativa, já desesperados, despejam a vérmina criminal da
fome sobre uma loja McDonald´s. Ameaçando os empregados com uma arma,
roubam nada mais nada menos que trinta hambúrgueres Big Macs.
Moral do
conto: só em estado de grande necessidade se troca uma refeição de pão fresco
pela comida de plástico da conhecida cadeia alimentar.
Uma coisa não
se compreende: a nota da tradutora na página 44. Eu acho, o que não é uma
certeza, que os tradutores têm prejudicado muito o Murakami, ou seja, têm-no
baixado deliberadamente de nível, em traduções de segundo e terceiro grau, talvez
com o objectivo de o tornarem ainda mais vendável.
Às minhas amigas admiradoras deste muito provável Nobel (umas quatro, no mínimo), recomendo que
aprendam rapidamente japonês.
terça-feira, setembro 30, 2014
TEXTO E SUBTEXTO
Para quem não sabe, digo que não morro de amores por este escritor,
eterno candidato ao Nobel de Literatura, mas pode ser que lá chegue este ano.
Li hoje, a modos que por dever de ofício, o primeiro conto da colectânea “O
Elefante Evapora-se”, uma história com um homem, três mulheres, um gato
desaparecido e um pássaro de corda. Das mulheres, que é o que mais interessa,
uma é uma espécie de telefonista de linhas eróticas; outra, uma adolescente a
cheirar a leite, mas muito atrevida; e a última é a legítima do homem à beira de
deixar de o ser. Não está mal, só que ainda ando à procura do subtexto. Como as
coisas estão, duvido bem que o venha a encontrar.
sábado, setembro 27, 2014
O CANTARIL
Afago-te a
barbatana do dorso como a um animal
de pêlo, mesmo
sabendo que vais rasgar-me os dedos
num assomo de
lâminas e espinhos de roseira brava.
Enganador o
género do teu nome: arranhas e mordes
com
requintes de fêmea, e eu deixo-me morrer
sob o olho túrgido
com que devassas os abismos
do oceano em
riste. És tu ou o quê, bicho de sal e água?
Como-te num assado de forno; chamo-te peixe
para esquecer que existes.
para esquecer que existes.
27/9/2014
terça-feira, setembro 23, 2014
O AMOR É SIMPLES
Numa carta
de Eça de Queiroz para Ramalho Ortigão, datada de Londres, 14 de Outubro de
1885, o nosso cônsul comunicava ao bom amigo e companheiro de letras o seu
casamento com Emília Rezende:
«Este
casamento, e a séria e grave afeição que o produz, é tão simples que não tem
história.» Uma boa maneira de abordar o assunto, não haja dúvida, mas o melhor
vem depois: «O único lado pitoresco (…) é que, quando a Emília e eu estávamos
constantemente juntos, na longa intimidade de três meses, falávamos de livros,
de cozinha, do que dizia o “Ilustrado”, um pouco de religião, muito das
senhoras da Granja, de arte, de cães, da cultura da beterraba e uma ou outra
vez do Fontes.» Conversas de praia, é claro. E continua: «E foi quando nos
separámos” – as férias de Verão, Setembro dentro, teriam entretanto acabado –
«que, de repente, batendo cada um por seu lado na testa, exclamámos a toda esta
distância: – É verdade, esqueceu-nos de dizer que devíamos unir os nossos
destinos!» Muitas vezes as coisas acontecem assim, há uns esquecimentos, mas
acaba tudo em bem… E remata: « É este o único lado pitoresco. O resto é um
pouco terre-à-terre, não vale de modo nenhum o esplendor lírico de Romeu and
Juliet e não podia ser posto em árias pelo lânguido Gounod.»
Perfeito! Ficamos
mais confortados: as coisas, às vezes, não são tão complicadas como nós a
fazemos.
domingo, setembro 21, 2014
VIAGENS NA MINHA TERRA
O criptopórtico de Aeminium (séc. I ou II d. C.), como o vi ontem no local (Museu Machado de Castro, Coimbra) e hoje numa gravura do livro de Jorge de Alarcão O Domínio Romano em Portugal. « O criptopórtico de Aeminium foi construído em dois andares. (...) Não temos dados para a identificação do arquitecto; mas não é hipótese destituída de senso pensar que tenha sido Caio Sévio Lupo, o mesmo architectus aeminiensis que construiu o farol romano da Corunha.» (Cap. VIII, p. 184 da obra citada.)
quarta-feira, setembro 10, 2014
TRISTEZA
ALBRECHT DÜRER (1471-1528), Melancolia, gravura (1514)
“Uma
irresistível e já automática associação de ideias faz-me sempre recordar a Melancolia de Dürer quando penso na obra
de Eduardo Lourenço. Se o Só de
António Nobre é o livro mais triste que alguma vez se escreveu em Portugal ,
faltava-nos quem sobre essa tristeza refletisse e meditasse. Veio Eduardo
Lourenço e explicou-nos quem somos e porque o somos. Abriu-nos os olhos, mas a
luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los.”
quarta-feira, agosto 27, 2014
HISTÓRIAS DE PROVEITO E EDIFICAÇÃO MORAL
On ne badine pas avec l´amour – disse
ela, saltando da cama, mostrando com eloquência que conhecia a história de Musset
e George Sand.
Cobriu o triângulo escuro da púbis com
um roupão igualmente escuro que costumava trazer por casa.
Ele nunca mais a viu, e agora, para
se distrair, anda na Net a copiar nus deitados de Modigliani.
sexta-feira, agosto 15, 2014
segunda-feira, agosto 11, 2014
MULHER NA PRAIA, nova versão
Santiago Carbonell, título desconhecido
Por que
marés de algas chegas até mim
à flor da
praia? De que ilhas vens
por correntes
e ventos que não conheço?
Pressinto o cone
de sal do teu corpo,
o canto
brando dos poros riscando
de água o
lume da tarde.
Estendo a
mão para te apanhar
como a uma
concha estriada de luz
sobre a
areia húmida.
Mas já não
te encontro.
8/8/2014
sábado, julho 26, 2014
EM ARLES
ARLES, 20 de Julho de 2014
A Casa Amarela de Arles, alugada por
van Gogh em Maio de 1888, mandada pintar na cor por que ficou conhecida. Mobilada
meses depois, quando Theo lhe enviou, para o efeito, 300 francos, nela se
instalou em Setembro do mesmo ano. Nesse embrião do “atelier du midi” viveu com Paul Gauguin um curto período minado
de ressentimentos e divergências estéticas. Até ao episódio infeliz da
automutilação em Dezembro de 1888.
A Casa já não existe – foi bombardeada
pela aviação alemã em 1944 –, mas ainda lá estão alguns prédios da avenida (Av. de Stalingrad) e as pontes
ferroviárias.
sexta-feira, julho 25, 2014
segunda-feira, julho 14, 2014
NA PROVENÇA
PAUL CÉZANNE, Montagne Sainte-Victoire (1904-1906); tela, 0,60 x 0,73 m. Zurique, Kunsthaus.
Segundo Giulio Carlo Argan, «uma das obras mais "especulativas" ou "ontológicas" de Cézanne, ponto de chegada de sua pesquisa dirigida à compreensão global do ser e de sua estrutura vital». Uma das várias pinturas de Cézanne sobre Sainte-Victoire, precursora do cubismo.
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