domingo, junho 29, 2014
VEM DEITAR-TE NA GRAMA
Ontem vi os penáltis, mas só marquei livres.
«Quando
tu me vires no futebol
estarei no campo
cabeça ao sol
a avançar pé ante pé
para uma bola que está
à espera dum pontapé
à espera dum penalty
que eu vou transformar para ti
eu vou
atirar para ganhar
vou rematar
e o golo que eu fizer
ficará sempre na rede
a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral
desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama
e até não se poder mais
vamos jogar»
sábado, junho 28, 2014
800 ANOS DA LÍNGUA PORTUGUESA
LÍNGUA PORTUGUESA - Olavo Bilac (1865 - 1918)
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
LÍNGUA MATER DOLOROSA - Natália Correia (1923 - 1993)
Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joalhada
tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,
eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.
Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.
domingo, junho 22, 2014
LOPE DE VEGA, soneto "Esto es amor, quien lo probó lo sabe"
Rubén Ajo, ontem, no auditório do Instituto Cervantes, representando "Esto es amor"
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde, animoso;
no hallar fuera del bien centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;
huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el daño;
creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño:
esto es amor, quien lo probó lo sabe.
segunda-feira, junho 16, 2014
CINCO SENTENÇAS LETAIS
– Se é para dormir já, prefiro ir ver
televisão.
– Uma vez por semana só se for para
compras no supermercado.
– És o meu José, sou a tua Pilar.
– As noites têm longas horas, mas
para mim só sobram minutos.
– Qui aime bien, caresse bien…
Parece-me que não percebes nada do assunto.
(Do livro “Memórias Secretas dum Idoso”, autor
anónimo)
sábado, junho 14, 2014
UM CAPÍTULO
“Chamo-me Francisco, Paco para os
amigos, sou de Salamanca, cidade que a uns cura e a outros manca, vou para San
Sebastian, ou Donostia, em serviço da minha empresa, trabalho como
caixeiro-viajante. São saborosas as suas bolachas, não, obrigado, não quero
mais, nunca tenho grande fome pela manhã, daqui a pouco vou à carruagem-restaurante,
tomo um café com leite e fico bem.”
Exprimia-se num castelhano límpido, versátil,
utilizando vocábulos da língua portuguesa em substituição de outros menos
compreensíveis da sua, como, por exemplo, dizer luvas em vez de guantes ou quintas em vez de fincas. Falava dos seus amores. Hermes,
aparentemente alheado do discurso, deitava os olhos para os renques de árvores
que corriam na borda da linha, a grande velocidade e em sentido contrário.
“ Há uma altura certa para dizermos
as coisas”, começou, “ou as dizemos ou calamo-las para sempre. Falo de
sentimentos, já percebeu… Mas talvez não lhe interesse ouvir estas confidências,
já chegam os nossos problemas, por que razão havemos de querer saber os dos
outros?”
Fechei e guardei o pacote das
bolachas, o que deverá ter sido entendido como sinal para continuar.
“Nos afectos sempre fui comandado
pela cabeça, nunca pelo coração. Encarei os amores entre o desejo de entrega e
o receio de me sair mal, e assim cheguei a esta idade, a ponto de me fazer
velho, sem ter tido relações duradouras com mulheres.”
Deteve-se a olhar para Hermes, como
se quisesse avaliar de que forma ele acolhia o seu discurso.
“Os
últimos tempos vivi-os entre a ilusão de um amor e a indecisão em o seguir. Bem
vê, já fiz cinquenta e cinco anos, não sou nenhuma criança, não tenho idade para
andar a experimentar mulheres à espera de ver em qual acerto… Há idades para o
amor, na juventude é uma coisa, agora é outra, lembro-me sempre do que dizia
aquela personagem de Gabriel García Márquez, mais ou menos isto, o amor é
ridículo aos sessenta anos, mas a partir dos setenta é obsceno… Claro que me
agrada a ideia de uma companhia, quien
solo vive, solo muere, embora haja outro ditado, para mal maridar, más vale nunca casar, este aplicável tanto a
homens como a mulheres, parece-me… Está a ver a questão, não está?”
Claro que estava.
“Eu sabia que ela tinha uma simpatia
por mim, depois tornou-se bem mais do que isso e começámos a sair juntos, a
jantarmos aos sábados, a irmos ao cinema, sabe como essas coisas são… Não sei
se o senhor é casado… Ah, não é? Desculpe, mas talvez assim me entenda melhor.”
O salamanquense, salamanquino,
salmanticense ou salmantino, que por todos estes nomes são conhecidos os filhos
da velha cidade do Tormes, parou uns segundos, como que a ganhar ânimo,
enquanto ajeitava a camisa descomposta por entre o cós das calças.
“Só que eu nunca cheguei a
decidir-me”, continuou, “não é que não gostasse dela, mas o meu receio de
falhar falou sempre mais alto. Eu perguntava-me, que posso esperar desta
relação, de uma mulher com um passado, mãe de filhos já homens e à beira de ter
netos, certamente marcada pelos fantasmas de um ou mais maridos, que ao certo e
de verdade nunca soube quantos tivera. E disse cá para mim, Paco, não te metas
nisso, vais ficar à prova e ser motivo de comparação com todos os homens que
passaram pela sua vida, vais ter de aturar a família e os amigos, ser
apresentado em sociedade como ave rara, os tipos a pensarem, olha o gajo, tem
cara de choninhas, é bem diferente dos outros que tinham pinta de galãs e machos
fornicadores. E andei assim durante meses, entre a hesitação e o desejo, a
fugir-lhe sempre que as coisas se encaminhavam para o momento vertiginoso da
consumação carnal. O senhor desculpe, não quero maçá-lo, estou a ser
absolutamente sincero, já alguma vez passou por uma situação como esta?”
Disse-lhe que não.
“Uma noite, quando me despedia depois
de termos ido a uma sessão de cinema, ela convidou-me para tomar uma bebida em
sua casa. É claro que vivia sozinha. Achei aquilo de uma grande ousadia, o que
poderia querer uma mulher ao convidar um homem para sua casa àquela hora da
noite?”
Hermes levantou-se como se
pretendesse dirigir-se à casa-de-banho ou simplesmente desentorpecer as pernas,
mas, estranhamente, não saiu do seu lugar. Olhou os longes de searas fulvas que
corriam para lá das janelas como em ecrã panorâmico, ajeitou a mala na bagageira,
num gesto inútil, e voltou a sentar-se.
“Não aceitei o convite, dei uma desculpa
vaga. Temia iniciar uma relação para a qual não me encontrava preparado. O
senhor está a achar isto estranho, parece-me…”
Disse-lhe que não, cada um tem as suas
maneiras de sentir e nisto de amores nunca se sabe como é. Ele ficou mais
confiante.
“Uma coisa sei, meu caro senhor, as
mulheres raramente toleram as nossas indecisões, mas, pior do que isso, o que
elas nunca perdoam é que possamos alguma vez dizer-lhes não. Sedutoras por
natureza, conhecendo o poder que têm, não admitem uma desfeita. Não voltou a
convidar-me para sair, havia uma reserva da sua parte, como se pretendesse
certificar-se até que ponto ia o meu interesse. Eu esperava desesperadamente
que fosse ela a quebrar o gelo, a dizer-me uma palavra apaziguadora, mas essa
palavra tardava em chegar. Ao fim de alguns meses fui eu que telefonei a
convidá-la para jantar. Que não podia nessa semana, respondeu-me, muito trabalho
no seu escritório, que lhe falasse lá mais para o fim do mês. Voltei a
telefonar-lhe na altura indicada e ela, então, aceitou jantar numa sexta-feira.
As esperanças que eu depositei nesse reencontro, cheguei a acreditar que ela
renovaria o convite para acabar a noite em sua casa, estando disposto a
aceitá-lo, pedindo-lhe embora que me desse um tempo para quebrar os meus medos
e tabus. Nos dias que antecederam o nosso jantar andei dividido entre a
felicidade de poder vir a tê-la nos braços e o temor de não saber o que fazer
com essa felicidade, mas nada aconteceu como pensara. Ela foi amistosa, delicada,
mas sem avanços. Alegou trabalho extraordinário no dia seguinte, que era sábado, e
despediu-se pelas dez horas da noite. Vi-a meter-se num táxi à porta do
restaurante e desaparecer ao fundo da rua por dentro de um cone de sombra que
ela o reflexo amargo dos meus pensamentos. Nenhum aceno de dentro do carro, nenhum
olhar, apenas a lembrança de um beijo rápido já com a porta do táxi aberta.”
O viajante interrompeu a sua
narrativa por uns instantes. Não posso garantir, mas acho que uma lágrima lhe
rebrilhou a um canto do olho.
“Vim a saber”, continuou, “que começou a
andar com um camionista da empresa onde trabalha, um tipo quinze anos mais novo,
de cabelo rapado e brinquinho na orelha. Está a ver, uma mulher diplomada em
contabilidade, uma chefe de departamento, envolver-se com um tipo assim…”
Fiz-lhe sentir que os amores são
alheios à razão e à conveniência social, manifestando-lhe o meu pesar pelo desfecho
do seu caso. E lembrei-me de Willy Loman e Gregor Samsa, dois
caixeiros-viajantes que moram nas estantes da minha casa, qual deles mais
infeliz, qual deles com mais história.
Olhei Hermes, afundado no seu assento,
com uma quase imperceptível tristeza na sombra do olhar. Não podia imaginar que
uma carta de Ofélia lhe seria entregue em Bordéus nesse dia à noite. Via-se,
porém, que uma qualquer mágoa, prenunciadora desses estados de alma em que os
homens acertam contas com os seus sentimentos, devia estar a morder-lhe, ávida
e maldosa, as fímbrias do coração.
terça-feira, maio 20, 2014
sexta-feira, maio 16, 2014
terça-feira, maio 13, 2014
DOCUMENTOS DOS TEMPOS COLONIAIS
Um exemplo do desprezo a que eram votadas as mais elementares aspirações dos naturais. Até para receber o sacramento do matrimónio era preciso meter cunhas junto de patrões e superiores hierárquicos. Uma igreja para colonos e outra para colonizados -- colonização exemplar.
Nampula
27-10-71
Ex mo Senhor
Alferes Mil.
do D.B.I. / NP.
Manuel José
Matos Nunes
Muito bom
dia.
Vim
respeitosamente rogar a V. Excia e enformando-lhe o meu caso com a Paróquia.
Ora! – eu fui a Paróquia, por caso não toquei o
assunto do meu casamento na mão do Senhor Pároco; sem que primeiro ter com
Senhor Catequista e ele diz-me assim:
– Faria bem se o senhor isse ter com os seus
ou seu patrão, para ires com eles ou ele, a perguntar que dia será para o meu
casamento ou o mês. Para você ficares a espera o dia do seu casamento preparando
o seu material. Para você ires sozinho ter com o senhor Padre, ele há-de
custar-lhe dar-lhe uma resposta urgente.
Por isso
peço ao meu alferes que me dê uma pequena companhia para lá a Paróquia…
Muito grato
ficaria se me desse uma resposta possível.
Remete: A………………
domingo, maio 04, 2014
EPISTOLÁRIO *
Nampula,
13.11.1970
Cara amiga,
Foi com
satisfação que recebi a sua carta. Ela veio quebrar um silêncio de alguns meses
e estou-lhe grato por isso. Nem a minha partida precipitada, nem o embaraço e
desorientação de me vir ligar a uma causa que não é minha, nada disso justificava
uma partida sem nada dizer.
Começo por
lhe falar de Nampula, cidade onde fui colocado. O ambiente que aqui se vive é
essencialmente militar. Dantes, a cidade funcionava como quartel general
avançado; hoje, é daqui que a guerra é efectivamente conduzida. Viaturas militares circulam pelas ruas em
todos os sentidos. À noite, nos cafés, fala-se de tropa. Situada no interior, a
uns 200 km. da costa, a cidade beneficia de um clima seco que, segundo creio,
até nem é dos piores de Moçambique. Como diversões há um cinema e pouco mais. A
vida é caracterizada pelo “deitar cedo e cedo erguer” como mandam as boas
regras. A água tem de ser fervida antes de se consumir. Por vezes abre-se a
torneira e, por mais lentes que um homem ponha, não consegue enxergar uma só
gota do precioso líquido. Quanto ao abastecimento de luz também não prima pela
regularidade. Mas, apesar de tudo, isto ainda é muito bom quando comparado com
certos sítios… Tive bastante sorte em não ter ido parar ao mato.
Cheguei aqui
a 5 de Outubro, vindo de L. Marques, e não há dúvida que sofri um grande
choque. Lá em baixo tudo, ou quase tudo, é diferente. Fui colocado na Chefia do
Serviço de Intendência, organismo que tem a seu cargo o planeamento e a
coordenação do reabastecimento. As minhas funções são, portanto, essencialmente
burocráticas. Além disto entro na escala de serviços no Quartel General e,
muito provavelmente num futuro próximo, na de colunas logísticas para Mueda.
Por aqui a
guerra continua e ninguém desconhece que só de uma maneira ela pode terminar.
Não se pode conter aquilo que vem do seio do povo como não se pode conter um
vómito. O português, tão humilde na sua terra, transforma-se completamente ao
chegar a África. Ele contacta aqui com uma população num estado de subdesenvolvimento
muito maior que o seu e isso dá-lhe uma confiança extraordinária em si mesmo. O
que sempre foi um modesto jornaleiro converte-se num homem empreendedor,
contrata trabalhadores, adquire rapidamente aquela mentalidade odiosa que nós
conhecemos. Claro, é fácil prosperar quando se paga a um trabalhador, a coberto
da lei, 200 e 300 escudos mensais. Por muito pouco qualificada que seja a mão
de obra ela produz sempre dez vezes mais que o seu salário. E admirem-se que um
povo mais aguerrido (em Moçambique é o caso dos macondes e dos aianas) pegue em
armas disposto a lutar contra este estado de coisas. A guerra em Moçambique
estende-se já a três distritos: Cabo Delgado, Niassa e Tete. A actuação do
nacionalismo é todo à base de implantação de minas nas picadas. As minas são,
como sabe, engenhos explosivos accionados por compressão. São difíceis de
detectar, sendo a causa de muitas mortes e elevados prejuízos materiais. Cada “Berliet”
destruída representa para a Nação 400 000$00 e isto é sangrar. Mas os homens,
terão preço? Há quem diga por aqui que os homens é o menos – requisitam-se mais
– mas que as “Berliets” é que são difíceis de arranjar.
Uma guerra
destas só pode ser ganha, toda a gente o sabe, por quem tiver o apoio da
população. Ora o que é facto é que nós não temos o apoio da população. Ela pode estar subordinada, por uma questão
de medo, mas não perderá a oportunidade de se vingar de tanta humilhação
sofrida, nem deixará de prestar ajuda aos que já estão engajados na luta.
A mim
chateia-me estar aqui a perder 2 anos (e mais um monte de coisas) só para
defender as costas a meia dúzia de sub-humanos sem quaisquer escrúpulos.
Entretanto
aqui no distrito de Moçambique, onde habitam os macuas, a situação é
relativamente calma. Graças a isso temos o turismo interno: a ilha de
Moçambique, a praia da Choca, Nacala, António Enes, etc. Aqui em Nampula,
chegado o fim de semana, faz-se 200 km. até ao litoral como se vai de Lisboa ao
Guincho. Isso é importante para a sanidade mental de cada um. Pelo que disse já
deve ter para si que isto é do género que “não interessa a ninguém”. Se não é o
escape do fim de semana um cavalheiro tem fortes hipóteses de ir parar à
neuropsiquiatria.
Se me
aguentar por aqui, apesar disto ser uma sucata, terei oportunidade de acompanhar
certas matérias e, eventualmente, ir até L. Marques fazer umas cadeiras. Do mal
o menos. É aborrecido pensar que ainda falta tanto tempo para me ver livre
disto.
Durante os
dois anos de comissão terei direito a dois períodos de férias de 35 dias.
Possivelmente, um deles será para ir até Lisboa. Ainda há dois meses que saí de
lá e já só penso em voltar.
E por agora
é tudo o que tenho para lhe dizer. Escreva sempre e pergunte sempre o que
quiser.
Cumprimentos
para si e para seu marido.
Cumprimentos
também às jovens da DVL.
O amigo certo,
* Não há explicação - apenas uma vaga ideia - sobre a razão de se encontrar este aerograma na posse do remetente. Que ele foi enviado, foi: ver carimbo dos correios, 16.11.70.
quarta-feira, abril 30, 2014
terça-feira, abril 29, 2014
EXPERIMENTALISMOS POÉTICOS, ANOS 60
aviso prévio: dai esmola aos pobrezinhos e conquistai o reino dos céus.
matar a fome dos pobrezinhos não por amor aos pobres mas por temor aos deuses.
domingo, abril 27, 2014
sábado, abril 26, 2014
EPISTOLÁRIO
Lisboa, 13
de Maio de 1963
Querido
paizinho
O meu maior
desejo, ao receber esta minha carta é que se encontre de completa saúde, que
nós bem felizmente.
Recebemos a
carta do pai que já esperavamos, e junto vimos as fotografias que nos enviava.
Gostamos imenso delas; parece que no dia da vossa excursão o dia não estava
muito bom. O pai, aparece numa fotografia completamente trajado à Inverno:
gabardine, chapéu, gola levantada. Olhe que nós por cá vamos à praia, e com
que calor. No domingo fui ao Estoril no habitual passeio da Igreja, e na praia
estava tanta gente como em pleno Verão.
Agora vou
falar-lhe do jogo de quarta-feira: Eu estava já feito à ideia de ter de escutar
o relato pelo rádio, pois o Benfica não havia aceitado as propostas da R.T.P.
para a transmissão directa do desafio. Assim, enquanto toda a Europa via na
Eurovisão o desafio, nós, portugueses, estavamos condenados a não o vermos.
Nestas
condições tudo se resignou a escutar o relato. Até se contavam anedotas, de
tipos que não conseguindo arranjar bilhetes, se iam deslocar a Madrid para ver
o desafio na televisão espanhola. A mãe e o Justino foram para a D. Eponina ver
a televisão e eu fiquei à espera do relato. Estava o desafio a começar entra o
Justino em casa a dizer que ia dar pela televisão.
Deixei
imediatamente tudo, e fui ter com a mãe a casa da D. Eponina. A questão tinha
sido resolvida naquele instante entre a direcção do Benfica e a R.T.P.
Gostei muito
do jogo. O Feynoord parecia uma equipa de principiantes, só no fim mostrou
algum do seu valor. Quanto à pancadaria que a polícia deu no fim, foi uma
autêntica vergonha. Toda a Europa a assistir aquilo. O Estado procedeu a um
inquérito sobre o caso, porque realmente aquilo foi vergonhoso, e não fica em
casa como outras vergonhas, aquela andou por toda a Europa a ser vista. Com o
que fez, a polícia não se elevou nada, pelo contrário apenas se diminuiu,
porque a invasão do campo já vem sendo
hábito pelos benfiquistas, não é um facto inédito.
Cá por
Lisboa, andavam holandezes em todo o sítio, e com que peneiras eles estavam.
Parece que
toda aquela invasão [dos holandeses em Lisboa ], era organizada por um jornal
chamado “Het Vrye Volk”, qualquer coisa que quer dizer “Povo Livre”.
Outra
anedota corrente, era que a organização da tal invasão teve que fretar, à
última hora, um outro navio para transportar as lágrimas.
Mas enfim,
tudo acabou, no dia imediato pela manhã, desfeito o sonho, os exércitos
holandezes puseram-se em debandada.
Ainda bem
que eles perderam, porque se ganhassem eram capazes de inchar tanto, que até
tomavam conta de nós.
À parte
isto, eles eram muito boas pessoas. Falavam com toda a gente (a muito custo) e
traziam sempre o emblema do Benfica.
O resto viu
o pai pela televisão.
Sem mais
beijos do
filho
P.S. Junto uma anedota do Mundo Desportivo.
P.S. Junto uma anedota do Mundo Desportivo.
terça-feira, abril 22, 2014
domingo, abril 20, 2014
UMA EXPOSIÇÃO EM LISBOA
IGREJA DE SANTA MARIA MADALENA – QUEM É O HOMEM DO SUDÁRIO?
“Havia um homem bom e justo, chamado José. Era membro do Conselho, mas não tinha aprovado a decisão nem a acção dos outros membros. Ele era de Arimateia, cidade da Judeia, e esperava a vinda do reino de Deus. José foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Desceu o corpo da cruz, envolveu-o num lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado.”
LUCAS, 23, 50-53.
quinta-feira, abril 17, 2014
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL
Perdemo-nos
de nós como se o não soubéssemos,
logo agora que as cerejeiras estão em flor
e as tardes
flamejam de luz nos vitrais do tempo.
Falam-me de
ti muitos dos livros que leio,
alguns
filmes, palavras com que diariamente
me deito a
pensar no perfume de maçãs do teu corpo
naquela
noite em que nos vimos pela última vez.
Aceitemos as
coisas tal como são, não há hora
nem distância
que valham o pulsar dum poema.
Ainda bem termos
ficado por aí, entre o tudo
e o nada, no
esquecimento recíproco, seixos lívidos
sob o
tumulto do rio da vida, abraçados
a uma morte terna
e desejável,
única mãe de
que legitimamente renasceremos.
quarta-feira, abril 16, 2014
BLIMUNDA SETE-LUAS
Blimunda, painel de azulejos a partir de pintura de ROGÉRIO RIBEIRO (1930-2008). Está na fachada da casa lisboeta de Pilar e José Saramago. A lua e o sol por cima da cabeça e nas mãos o pão cerceador dos poderes: "Juro que nunca te olharei por dentro", disse ela a Baltasar. (Foto de 14/4/2014)
terça-feira, abril 15, 2014
POESIA PURA
Mandaram-me este poema no outro dia, com imagem e tudo:
Bastava que dissesses a palavra exacta,
que tens aprisionada na garganta,
Bastava que pendurasses
na porta do teu quarto um lenço branco.
Bastava que enfeitasses o chapéu
com as flores que o fim da tarde
põe sedentas da luz dos teus cabelos.
Bastava que me olhasses uma vez ainda....
Torquato da Luz
Fábrica de Escrita
(imagem: Scarlett Johansson)
que tens aprisionada na garganta,
Bastava que pendurasses
na porta do teu quarto um lenço branco.
Bastava que enfeitasses o chapéu
com as flores que o fim da tarde
põe sedentas da luz dos teus cabelos.
Bastava que me olhasses uma vez ainda....
Torquato da Luz
Fábrica de Escrita
(imagem: Scarlett Johansson)
quinta-feira, abril 03, 2014
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