terça-feira, maio 20, 2014
sexta-feira, maio 16, 2014
terça-feira, maio 13, 2014
DOCUMENTOS DOS TEMPOS COLONIAIS
Um exemplo do desprezo a que eram votadas as mais elementares aspirações dos naturais. Até para receber o sacramento do matrimónio era preciso meter cunhas junto de patrões e superiores hierárquicos. Uma igreja para colonos e outra para colonizados -- colonização exemplar.
Nampula
27-10-71
Ex mo Senhor
Alferes Mil.
do D.B.I. / NP.
Manuel José
Matos Nunes
Muito bom
dia.
Vim
respeitosamente rogar a V. Excia e enformando-lhe o meu caso com a Paróquia.
Ora! – eu fui a Paróquia, por caso não toquei o
assunto do meu casamento na mão do Senhor Pároco; sem que primeiro ter com
Senhor Catequista e ele diz-me assim:
– Faria bem se o senhor isse ter com os seus
ou seu patrão, para ires com eles ou ele, a perguntar que dia será para o meu
casamento ou o mês. Para você ficares a espera o dia do seu casamento preparando
o seu material. Para você ires sozinho ter com o senhor Padre, ele há-de
custar-lhe dar-lhe uma resposta urgente.
Por isso
peço ao meu alferes que me dê uma pequena companhia para lá a Paróquia…
Muito grato
ficaria se me desse uma resposta possível.
Remete: A………………
domingo, maio 04, 2014
EPISTOLÁRIO *
Nampula,
13.11.1970
Cara amiga,
Foi com
satisfação que recebi a sua carta. Ela veio quebrar um silêncio de alguns meses
e estou-lhe grato por isso. Nem a minha partida precipitada, nem o embaraço e
desorientação de me vir ligar a uma causa que não é minha, nada disso justificava
uma partida sem nada dizer.
Começo por
lhe falar de Nampula, cidade onde fui colocado. O ambiente que aqui se vive é
essencialmente militar. Dantes, a cidade funcionava como quartel general
avançado; hoje, é daqui que a guerra é efectivamente conduzida. Viaturas militares circulam pelas ruas em
todos os sentidos. À noite, nos cafés, fala-se de tropa. Situada no interior, a
uns 200 km. da costa, a cidade beneficia de um clima seco que, segundo creio,
até nem é dos piores de Moçambique. Como diversões há um cinema e pouco mais. A
vida é caracterizada pelo “deitar cedo e cedo erguer” como mandam as boas
regras. A água tem de ser fervida antes de se consumir. Por vezes abre-se a
torneira e, por mais lentes que um homem ponha, não consegue enxergar uma só
gota do precioso líquido. Quanto ao abastecimento de luz também não prima pela
regularidade. Mas, apesar de tudo, isto ainda é muito bom quando comparado com
certos sítios… Tive bastante sorte em não ter ido parar ao mato.
Cheguei aqui
a 5 de Outubro, vindo de L. Marques, e não há dúvida que sofri um grande
choque. Lá em baixo tudo, ou quase tudo, é diferente. Fui colocado na Chefia do
Serviço de Intendência, organismo que tem a seu cargo o planeamento e a
coordenação do reabastecimento. As minhas funções são, portanto, essencialmente
burocráticas. Além disto entro na escala de serviços no Quartel General e,
muito provavelmente num futuro próximo, na de colunas logísticas para Mueda.
Por aqui a
guerra continua e ninguém desconhece que só de uma maneira ela pode terminar.
Não se pode conter aquilo que vem do seio do povo como não se pode conter um
vómito. O português, tão humilde na sua terra, transforma-se completamente ao
chegar a África. Ele contacta aqui com uma população num estado de subdesenvolvimento
muito maior que o seu e isso dá-lhe uma confiança extraordinária em si mesmo. O
que sempre foi um modesto jornaleiro converte-se num homem empreendedor,
contrata trabalhadores, adquire rapidamente aquela mentalidade odiosa que nós
conhecemos. Claro, é fácil prosperar quando se paga a um trabalhador, a coberto
da lei, 200 e 300 escudos mensais. Por muito pouco qualificada que seja a mão
de obra ela produz sempre dez vezes mais que o seu salário. E admirem-se que um
povo mais aguerrido (em Moçambique é o caso dos macondes e dos aianas) pegue em
armas disposto a lutar contra este estado de coisas. A guerra em Moçambique
estende-se já a três distritos: Cabo Delgado, Niassa e Tete. A actuação do
nacionalismo é todo à base de implantação de minas nas picadas. As minas são,
como sabe, engenhos explosivos accionados por compressão. São difíceis de
detectar, sendo a causa de muitas mortes e elevados prejuízos materiais. Cada “Berliet”
destruída representa para a Nação 400 000$00 e isto é sangrar. Mas os homens,
terão preço? Há quem diga por aqui que os homens é o menos – requisitam-se mais
– mas que as “Berliets” é que são difíceis de arranjar.
Uma guerra
destas só pode ser ganha, toda a gente o sabe, por quem tiver o apoio da
população. Ora o que é facto é que nós não temos o apoio da população. Ela pode estar subordinada, por uma questão
de medo, mas não perderá a oportunidade de se vingar de tanta humilhação
sofrida, nem deixará de prestar ajuda aos que já estão engajados na luta.
A mim
chateia-me estar aqui a perder 2 anos (e mais um monte de coisas) só para
defender as costas a meia dúzia de sub-humanos sem quaisquer escrúpulos.
Entretanto
aqui no distrito de Moçambique, onde habitam os macuas, a situação é
relativamente calma. Graças a isso temos o turismo interno: a ilha de
Moçambique, a praia da Choca, Nacala, António Enes, etc. Aqui em Nampula,
chegado o fim de semana, faz-se 200 km. até ao litoral como se vai de Lisboa ao
Guincho. Isso é importante para a sanidade mental de cada um. Pelo que disse já
deve ter para si que isto é do género que “não interessa a ninguém”. Se não é o
escape do fim de semana um cavalheiro tem fortes hipóteses de ir parar à
neuropsiquiatria.
Se me
aguentar por aqui, apesar disto ser uma sucata, terei oportunidade de acompanhar
certas matérias e, eventualmente, ir até L. Marques fazer umas cadeiras. Do mal
o menos. É aborrecido pensar que ainda falta tanto tempo para me ver livre
disto.
Durante os
dois anos de comissão terei direito a dois períodos de férias de 35 dias.
Possivelmente, um deles será para ir até Lisboa. Ainda há dois meses que saí de
lá e já só penso em voltar.
E por agora
é tudo o que tenho para lhe dizer. Escreva sempre e pergunte sempre o que
quiser.
Cumprimentos
para si e para seu marido.
Cumprimentos
também às jovens da DVL.
O amigo certo,
* Não há explicação - apenas uma vaga ideia - sobre a razão de se encontrar este aerograma na posse do remetente. Que ele foi enviado, foi: ver carimbo dos correios, 16.11.70.
quarta-feira, abril 30, 2014
terça-feira, abril 29, 2014
EXPERIMENTALISMOS POÉTICOS, ANOS 60
aviso prévio: dai esmola aos pobrezinhos e conquistai o reino dos céus.
matar a fome dos pobrezinhos não por amor aos pobres mas por temor aos deuses.
domingo, abril 27, 2014
sábado, abril 26, 2014
EPISTOLÁRIO
Lisboa, 13
de Maio de 1963
Querido
paizinho
O meu maior
desejo, ao receber esta minha carta é que se encontre de completa saúde, que
nós bem felizmente.
Recebemos a
carta do pai que já esperavamos, e junto vimos as fotografias que nos enviava.
Gostamos imenso delas; parece que no dia da vossa excursão o dia não estava
muito bom. O pai, aparece numa fotografia completamente trajado à Inverno:
gabardine, chapéu, gola levantada. Olhe que nós por cá vamos à praia, e com
que calor. No domingo fui ao Estoril no habitual passeio da Igreja, e na praia
estava tanta gente como em pleno Verão.
Agora vou
falar-lhe do jogo de quarta-feira: Eu estava já feito à ideia de ter de escutar
o relato pelo rádio, pois o Benfica não havia aceitado as propostas da R.T.P.
para a transmissão directa do desafio. Assim, enquanto toda a Europa via na
Eurovisão o desafio, nós, portugueses, estavamos condenados a não o vermos.
Nestas
condições tudo se resignou a escutar o relato. Até se contavam anedotas, de
tipos que não conseguindo arranjar bilhetes, se iam deslocar a Madrid para ver
o desafio na televisão espanhola. A mãe e o Justino foram para a D. Eponina ver
a televisão e eu fiquei à espera do relato. Estava o desafio a começar entra o
Justino em casa a dizer que ia dar pela televisão.
Deixei
imediatamente tudo, e fui ter com a mãe a casa da D. Eponina. A questão tinha
sido resolvida naquele instante entre a direcção do Benfica e a R.T.P.
Gostei muito
do jogo. O Feynoord parecia uma equipa de principiantes, só no fim mostrou
algum do seu valor. Quanto à pancadaria que a polícia deu no fim, foi uma
autêntica vergonha. Toda a Europa a assistir aquilo. O Estado procedeu a um
inquérito sobre o caso, porque realmente aquilo foi vergonhoso, e não fica em
casa como outras vergonhas, aquela andou por toda a Europa a ser vista. Com o
que fez, a polícia não se elevou nada, pelo contrário apenas se diminuiu,
porque a invasão do campo já vem sendo
hábito pelos benfiquistas, não é um facto inédito.
Cá por
Lisboa, andavam holandezes em todo o sítio, e com que peneiras eles estavam.
Parece que
toda aquela invasão [dos holandeses em Lisboa ], era organizada por um jornal
chamado “Het Vrye Volk”, qualquer coisa que quer dizer “Povo Livre”.
Outra
anedota corrente, era que a organização da tal invasão teve que fretar, à
última hora, um outro navio para transportar as lágrimas.
Mas enfim,
tudo acabou, no dia imediato pela manhã, desfeito o sonho, os exércitos
holandezes puseram-se em debandada.
Ainda bem
que eles perderam, porque se ganhassem eram capazes de inchar tanto, que até
tomavam conta de nós.
À parte
isto, eles eram muito boas pessoas. Falavam com toda a gente (a muito custo) e
traziam sempre o emblema do Benfica.
O resto viu
o pai pela televisão.
Sem mais
beijos do
filho
P.S. Junto uma anedota do Mundo Desportivo.
P.S. Junto uma anedota do Mundo Desportivo.
terça-feira, abril 22, 2014
domingo, abril 20, 2014
UMA EXPOSIÇÃO EM LISBOA
IGREJA DE SANTA MARIA MADALENA – QUEM É O HOMEM DO SUDÁRIO?
“Havia um homem bom e justo, chamado José. Era membro do Conselho, mas não tinha aprovado a decisão nem a acção dos outros membros. Ele era de Arimateia, cidade da Judeia, e esperava a vinda do reino de Deus. José foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Desceu o corpo da cruz, envolveu-o num lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado.”
LUCAS, 23, 50-53.
quinta-feira, abril 17, 2014
CANCIONEIRO DE JOSÉ RAFAEL
Perdemo-nos
de nós como se o não soubéssemos,
logo agora que as cerejeiras estão em flor
e as tardes
flamejam de luz nos vitrais do tempo.
Falam-me de
ti muitos dos livros que leio,
alguns
filmes, palavras com que diariamente
me deito a
pensar no perfume de maçãs do teu corpo
naquela
noite em que nos vimos pela última vez.
Aceitemos as
coisas tal como são, não há hora
nem distância
que valham o pulsar dum poema.
Ainda bem termos
ficado por aí, entre o tudo
e o nada, no
esquecimento recíproco, seixos lívidos
sob o
tumulto do rio da vida, abraçados
a uma morte terna
e desejável,
única mãe de
que legitimamente renasceremos.
quarta-feira, abril 16, 2014
BLIMUNDA SETE-LUAS
Blimunda, painel de azulejos a partir de pintura de ROGÉRIO RIBEIRO (1930-2008). Está na fachada da casa lisboeta de Pilar e José Saramago. A lua e o sol por cima da cabeça e nas mãos o pão cerceador dos poderes: "Juro que nunca te olharei por dentro", disse ela a Baltasar. (Foto de 14/4/2014)
terça-feira, abril 15, 2014
POESIA PURA
Mandaram-me este poema no outro dia, com imagem e tudo:
Bastava que dissesses a palavra exacta,
que tens aprisionada na garganta,
Bastava que pendurasses
na porta do teu quarto um lenço branco.
Bastava que enfeitasses o chapéu
com as flores que o fim da tarde
põe sedentas da luz dos teus cabelos.
Bastava que me olhasses uma vez ainda....
Torquato da Luz
Fábrica de Escrita
(imagem: Scarlett Johansson)
que tens aprisionada na garganta,
Bastava que pendurasses
na porta do teu quarto um lenço branco.
Bastava que enfeitasses o chapéu
com as flores que o fim da tarde
põe sedentas da luz dos teus cabelos.
Bastava que me olhasses uma vez ainda....
Torquato da Luz
Fábrica de Escrita
(imagem: Scarlett Johansson)
quinta-feira, abril 03, 2014
segunda-feira, março 31, 2014
domingo, março 16, 2014
COSMOCÓPULA
O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais
sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro
NATÁLIA CORREIA
NATÁLIA CORREIA
quinta-feira, março 13, 2014
"EU VI A LUZ EM UM PAÍS PERDIDO."
Saiba a boa amiga que me envia versos de Camilo Pessanha que eu costumo dormir com este livrinho.
quarta-feira, março 05, 2014
ETERNO RETORNO
Brotando
dos galhos da indefinida árvore, flores ténues, a certeza
de que a Primavera está a chegar.
segunda-feira, março 03, 2014
OS JORNAIS DA MANHÃ
Os jornais da manhã
os das grandes parangonase dos silêncios cobardes
esses que cheiram tanto a tinta
e sujam os dedos de quem os lê
e sujam o espírito de quem os lê
se a verdade tivesse a estrutura dos caracteres de imprensa
ou se se nutrisse do óleo das rotativas
talvez os ardinas não andassem descalços
os jornais da manhã
os da romântica génese nocturna
os jornais dos enormes silêncios
e das gritarias eufóricas
mas podres
os jornais cheios de fotografias
(para analfabetos)
os jornaizinhos
3. Outubro. 1967
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