domingo, abril 25, 2010

23 de Abril, comemoração do Dia Mundial do Livro - O CONTADOR DE HISTÓRIAS


HISTÓRIA TRISTE DA MULHER-A-DIAS QUE GOSTAVA DE LER POESIA


Antes de ter começado a trabalhar como mulher-a-dias, tinha sido operária numa fábrica de calçado, o salário certo ao fim do mês, refeições subsidiadas pela empresa, creche para as crianças e assistência médica gratuita, tudo regalias concedidas de livre vontade pela entidade empregadora ou decorrentes do contrato colectivo de trabalho em vigor.
Foi um bom emprego até ao dia em que uns operários da Malásia ou do Paquistão, não se sabe ao certo, se dispuseram a fazer o mesmo serviço por uma pequena parte do que por cá se pagava, prescindindo do refeitório, da creche e da assistência médica gratuita, luxos que não eram precisos lá por aquelas bandas onde a gente era saudável e de pouco alimento, e os miúdos, filhos dos operários, tinham sido habituados a andar pelas ruas, entregues a si mesmos, sem necessitarem de mais cuidados que aqueles que na natureza são dispensados pelos progenitores a qualquer cria animal.
Como tinha a renda de casa para pagar, o frigorífico para abastecer, as crianças para vestir e calçar, teve que procurar trabalho. Começou por lavar escadas, arranjou umas senhoras para quem passava a ferro e fazia arranjos de costura, foi companhia de uma idosa que convalescia de um acidente vascular cerebral, até que conseguiu um serviço de quatro horas diárias em casa dum senhor que era professor universitário e tinha uma biblioteca de muitas centenas de livros. Só a limpar o pó dos volumes, a arrumá-los meticulosamente nas estantes ou a retirá-los para cima da secretária do professor, levava ela uma parte considerável do seu horário de trabalho.
Este senhor, seu patrão, era homem de poucas falas: dizia bom dia ou boa tarde, faça isto ou faça aquilo, e mais além não ia nas suas práticas, embora se soubesse que era pessoa com dotes de conversação, de grandes e circunstanciados discursos em tudo quanto a matéria professoral dissesse respeito.
Pelo total de vinte horas semanais que fazia como mulher-a-dias em casa do professor de literatura – é a altura de dizer, para que se saiba, a área do conhecimento em que ele exercia a sua cátedra –, recebia mensalmente um valor próximo do salário mínimo nacional, um rendimento apesar de tudo satisfatório, tendo em conta as suas fracas qualificações profissionais e o facto de trabalhar apenas a metade das horas de qualquer assalariado normal. Assim, ainda lhe sobrava tempo para acompanhar os filhos e deitar a mão a um ou outro serviço que fosse aparecendo.
O senhor professor passava muito tempo ao computador a lançar uns apontamentos que, pelo que percebera duma conversa telefónica, eram destinados a um pós-doutoramento ou a qualquer coisa parecida começada em “pós” e acabada em “ento”. Como poderia ela saber exactamente do que se tratava se só conhecia as palavras simples de todos os dias, pouco entendendo das conversas que lhe ouvia ao telefone com os colegas e amigos? Uma coisa sabia, porém, era que aquilo que o professor escrevia ao computador era um estudo sobre versos e gente que fazia versos, poetas, como aquele seu antigo colega que compunha quadras para adornar os cravos de papel de S. João e um dia até lhe fizera uma que lhe parecera muito bonita mas de cujos versos há muito tempo se havia esquecido.
Soube que os apontamentos eram sobre versos e gente que fazia versos porque um dia, quando limpava o pó ao ecrã do computador, num breve momento em que o professor fizera uma interrupção para tomar café, pôde ler na página aberta a seguinte quadra:

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?

E outras se lhe seguiam, embora não as tenha conseguido fixar, lendo depois as considerações que o professor fazia sobre o autor, um tal Almeida Garrett, poeta que pelo nome até parecia estrangeiro, embora, coisa admirável!, estivessem os versos escritos em português e, tanto quanto lhe era dado entender, do melhor que já tinha lido, que era afinal muito pouco ou quase nada.
Ficou tão impressionada com aquela leitura que no sábado seguinte, estando de folga, se dirigiu à biblioteca municipal para ler os poemas do tal Almeida Garrett. Deu com o livro onde se encontrava o poema da barca bela, tinha um título bonito, “Folhas Caídas”, embora lhe fizesse lembrar o Outono e os momentos tristes da vida, como aquele em que o marido saiu de casa, deixando-a sozinha com o encargo dos filhos. Então leu com atenção o poema. A segunda quadra era igualmente bela:

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

E continuou, não conseguindo deixar de ler e reler todo o poema. Perdeu a noção de quantas vezes passou os olhos pela luz daqueles versos. Os olhos e a alma, que era dentro dela que sentia aquela formidável força que se soltava de cada sílaba, uma música colorida que lhe trazia uma inexplicável sensação de alegria e sofrimento:

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador!

E perante a revelação que ali se lhe oferecia, nunca mais foi capaz de deixar de ler os poetas.
A história, diga-se desde já, tem um final infeliz. Em casa do professor, a mulher-a-dias começou a descurar grosseiramente os seus deveres laborais. Sempre que o patrão não estava em casa, esquecia-se do trabalho e passava grande parte do tempo a ler poemas, dizendo-os por vezes em voz alta, desejosa de sentir o ouro e a química do verbo, de ouvir os ritmos, não lhe bastando já o silêncio anódino da leitura mental. A poesia tornou-se para ela um vício que não conseguia dominar, e por mais de uma vez se lembrou duma sua conhecida que fora despedida duma casa onde trabalhava porque na ausência dos patrões ia desbastando as bebidas da garrafeira até não ser capaz de se aguentar de pé. Também a poesia era agora para ela uma espécie de álcool forte e irrecusável.
O pior sucedeu quando certa manhã, regressando o professor mais cedo a casa, deu com o trabalho todo atrasado e a mulher-a-dias sentada na sua secretária a folhear os livros de poesia do seu estudo em preparação. Foi despedida, e aí está a injustiça cometida por aquele insensível professor.
Sim, injustiça e das maiores, porque tratando-se de um professor de literatura, era seu dever estimular, e não reprimir, o sonho poético da sua servidora. Coisas que sucedem quando o apego à poesia e às obras dos poetas é fruto da vaidade académica, do gozo de se saber admirado pelos artigos publicados em revistas da especialidade e de sentir o deslumbramento de colegas e alunos perante o fulgor do seu magistério. Para a mulher-a-dias a poesia era um deleite inútil, feito de satisfação interior, sem cálculo ou premeditação, por isso autêntico e puro como o musgo das pedras ou o vento que se mete pelas copas das árvores.
Tudo, ou quase tudo, foi tirado a esta mulher: o emprego, o amor, a felicidade duma família unida e equilibrada. Só não conseguiram tirar-lhe a capacidade de sonhar.
Uns tempos mais tarde, estando o professor de literatura a folhear um dos seus livros, viu sublinhados por traço alheio, num poema de Natália Correia, os seguintes versos:

Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.

Quedou-se pensativo por uns longos instantes, mas era tarde de mais para emendar o erro.

domingo, fevereiro 14, 2010

14 de Fevereiro, aquele dia

S´abuser en amour n´est pas mauvaise chose.


(RONSARD, Le Second Livre des sonnets pour Hélène, XLII)

sábado, janeiro 16, 2010

"O MUNDO À MINHA PROCURA"

O lugar da autobiografia tem sido encontrado num amplo campo interpretativo que vai da referencialidade à ficção. O autobiógrafo, investido da dupla condição de sujeito e objecto da escrita, tem que lidar com a memória (ou com aquilo que ficou dela) e com a selectividade (por vezes inconsciente) dos conteúdos de vida a transmitir. O arco do tempo da narrativa, arrancando as mais das vezes do período da infância, não dá azo a relatos fidedignos, a memórias nítidas, e o mais importante não é ser sincero, mas ter vontade de o ser ou simplesmente de parecer que o é.
Ruben A. (1920-1975) deixou uma bela autobiografia em três volumes: O Mundo à Minha Procura. No final do capítulo III do primeiro volume, escreveu: Não sei se foi o Adolfo Casais Monteiro que um dia, na aula de Português, me pediu para explicar um trecho dos Lusíadas depois de ter lido o meu exercício sobre o assassínio de Inês de Castro. O autor começa por não saber, por não ter a certeza, mas a partir desta dúvida inicial tudo se passa como se Adolfo Casais Monteiro tivesse sido efectivamente o professor do jovem Ruben Andresen Leitão naquele liceu do Porto onde fez os estudos secundários. O poeta da presença surge como o único docente a reconhecer no estudante refractário à Matemática e ao Latim o espírito arguto e o sentido trágico da vida e do amor que o levava a eleger o episódio de Inês de Castro como a passagem capital do grande poema camoniano. E termina assim: Passados poucos meses, a liberdade mental de Adolfo Casais Monteiro meteu-o na cadeia. Apareceu, então, como professor de Português o animal que regia Latim e que a meu respeito tinha a mais fraca das opiniões.
Aqui está um caso em que é justo que nos perguntemos se o texto é o reflexo da vida do autor ou se não será ele mesmo a instância criadora dessa vida, efabulação e reinvenção do eu autobiográfico?

sexta-feira, janeiro 01, 2010

A NÃO-INSCRIÇÃO

A leitura que tenho feito de algumas partes do livro Portugal Hoje – O Medo de Existir, do filósofo José Gil, fez-me levar os conceitos de inscrição e não-inscrição para o caso da juventude dos nossos dias.
José Gil fala em não-inscrição como uma ausência de desejo no sentido do real, um não acontecer, que no caso vertente pode muito bem estender-se a um não fazer, ou a um deixar que os outros façam – quase sempre os pais.
Também já passei pela juventude, e esta inclinação para reflectir sobre a actual pode parecer uma vontade de tecer comparações, de dizer: hoje é assim, mas antigamente era diferente, para melhor. Não vou por aí! Acho até, em certo sentido, que os jovens dos nossos dias são mais sensatos, mais solidários e até mais honestos do que os que se descobriram nos anos de ouro da vida durante as décadas de sessenta e setenta do século passado. Em que medida o ficaram a dever a esses que os precederam, os seus educadores, é matéria que parece não oferecer grandes dúvidas, pois alguma marca há-de deixar a educação, para bem ou para mal, acreditando porém que apesar da instabilidade que nos últimos trinta anos tem caracterizado a instituição familiar, a educação que demos aos nossos filhos foi, sempre generalizando, melhor e mais completa do que a que recebemos dos nossos pais.
A falta de inscrição no real, a acomodação à sombra da família, prolongando os anos que antecedem a entrada no mercado de trabalho, é uma resultante das dificuldades duma economia que não é geradora do pleno emprego e que muitas vezes só tem para oferecer a precariedade, mas também a expressão duma falta de desejo, ou de vontade que alguma coisa aconteça.
Um amigo que é director duma empresa de formação profissional, falava-me há tempos dum seu colaborador, um jovem licenciado em sociologia que estava a finalizar um mestrado e era o mais dedicado do departamento em termos profissionais. E acrescentou a seguinte informação: tinha-lhe morrido o pai entre os dezassete e os dezoito anos, quando ele se preparava para entrar na universidade, e esse acontecimento dramático tinha acabado com os dias plácidos da sua juventude. – É isso, às vezes é preciso sofrer um profundo revés, passar por uma grande infelicidade como a perda de um pai, importante no plano afectivo e igualmente decisivo em termos de subsistência, para que haja uma possibilidade de inscrição, uma vontade de agarrar pelos cornos o corpulento boi da vida.
São também às vezes acontecimentos capitais como uma doença ou um acidente que podem levar à reflexão e ao amadurecimento da consciência. Pascal falava daquilo a que chamou le bon usage des maladies, ou seja, aproveitar a inacção própria da doença, esse tempo só aparentemente infértil, para um exercício de introspecção e de descoberta de si – uma ruptura, afinal, com a não-inscrição.
E é assim que a partir de José Gil se geraram estas reflexões modestas, sonolentas e feitas um pouco ao correr das teclas. Há os que por esta altura de passagem abrem garrafas de champanhe. Como apesar de tudo há que ter esperança, esta é a minha única homenagem ao ano-novo.

sábado, dezembro 26, 2009

UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS GRANDES


Às vezes é preciso uma infelicidade (como uma doença grave ou a perda dum grande amor), para que se compreenda o sentido da vida. Só depois da morte há lugar para a ressurreição, só o “fértil desespero” da provação redime e liberta.
Oito anos depois releio O Príncipe com Orelhas de Burro, a viagem humana para além do humano, a inquietação do espírito e da carne ou a busca duma perfeição que não é deste mundo.
Arroubos dum autor em estado místico, dirão. Talvez sim, ou nem por isso: talvez apenas a certeza do limite e a dolorosa vertigem do insondável.

À NOITE

Os pinheiros iluminavam-se por detrás dos vidros das varandas dos prédios. A rua enchia-se dum estrépito de água sob os pneus dos carros que passavam excedendo um pouco a velocidade permitida por lei. Uma azáfama de embrulhos e sacos de compras dobrava-se sob chapéus-de-chuva desfraldados ao vento. Os enfeites de algodão e papel de lustro coloriam as montras das lojas abertas na moldura da noite.
O poeta
cozeu castanhas, abriu uma garrafa de vinho, estava acompanhado duma multidão que brindava e ria.
Sentia-se________feliz.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

A CONFISSÃO DE LÚCIO

Esta é a minha edição d’ A Confissão de Lúcio. Uma edição da Ática, tendo na capa o esplendoroso desenho de Almada Negreiros. Sabe bem voltar a esta narrativa, voltar à Confissão e aos poemas de Dispersão e Indícios de Ouro, saber que tudo faz parte do mesmo, e que é a vida do autor que se nos apresenta, reinventada, tanto na ficção como na lírica. A despersonalização de Mário de Sá-Carneiro foi sempre um falar de si, um permanente diálogo com o Outro que não sendo ele era ele próprio:

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

domingo, dezembro 06, 2009

LA LOCA DE LA CASA, Rosa Montero

Como a autora refere, o relato autobiográfico nunca é fidedigno. Interpõem-se entre o narrador (autobiógrafo) e os factos narrados os ponderosos efeitos da memória e da selectividade (por vezes inconsciente). É por isso que de acordo com Jean Starobinsky, um estudioso de literatura autobiográfica, a imagem do eu transmitida na autobiografia não é dissociável de um certo coeficiente de alteridade.
Isto para dizer o quê? Que estoy encantado com o livro da Rosa Montero, e que apesar de tudo o que se diz sobre a impostura inerente aos escritos autobiográficos, me pareceu muito sincero e corajoso o capítulo 3, aquele em que a autora, com vinte e três anos, se envolve sexualmente com o actor de cinema M.
Uma boa surpresa este livro que já li até metade. Lá estaremos dia 18, no nosso espaço de livros e emoções.
(Texto importado de www.comolhosdeler.blogspot.com, blogue da COMUNIDADE DE LEITORES DA BIBLIOTECA DE SÃO DOMINGOS DE RANA)

sábado, dezembro 05, 2009

QUARTA-FEIRA, 2 DE DEZEMBRO


, Saiba vossa excelência que há de tudo, com o tempo, já nem ligamos, cada um come como aprendeu, mas a ideia com que nós ficámos, na nossa cabeça, é que o senhor doutor era uma pessoa educada, entrava, dava as boas-tardes ou as boas-noites, dizia logo o que queria comer, e depois não se dava mais por ele, era como se aí não estivesse, Comia sempre sozinho, Sempre, o que tinha era um costume, Qual, Quando nós íamos a tirar o outro talher da mesa, o que estava defronte dele, pedia que o deixássemos ficar, que assim parecia a mesa mais composta, e uma vez, comigo, até se deu um caso, Que caso, Quando lhe servi o vinho, enganei-me e enchi os dois copos, o dele e o da outra pessoa que lá não estava, não sei se está a perceber, Estou a perceber, estou, e depois, Então ele disse-me que estava bem assim, e a partir daí tinha sempre o outro copo cheio, no fim da refeição bebia-o de uma só vez, fechava os olhos para beber, Caso estranho, Saiba vossa excelência que nós, criados, vimos muitas coisas estranhas,

JOSÉ SARAMAGO, O Ano da Morte de Ricardo Reis



Saíra do debate sobre a Mensagem de Fernando Pessoa. "Brasão", "Mar Português", "O Encoberto" – BENEDICTUS DOMINUS DEUS NOSTER QUI DEDIT NOBIS SIGNUM, que o mesmo é dizer ABENÇOADO SEJA O SENHOR NOSSO DEUS QUE NOS DEU O SINAL.
Rua Garrett arreada de chuva e iluminações de Natal. Ultrapassara a estátua do grande poeta que nem sequer foi nomeado nos poemas do livro. Viriato e D. Tareja, O Bandarra e António Vieira – esses sim, entre outros. O cheiro do bairro de Dinis Machado, algures entre a Rua do Loreto e o Largo do Calhariz. Não levava destino certo, deixou-se ir por uma das ruas do bairro, mas logo arrepiou caminho, enquanto um casal de estrangeiros examinava um mapa da cidade à luz lívida dum candeeiro com corvos. Espreitou a papelaria dos célebres cadernos portugueses de que fala Paul Auster em A Noite do Oráculo; lá estava, na montra, um exemplar do romance. Depois meteu-se numa tasca da Rua da Bica, mesmo em frente do elevador que descansava da vagarosa dobadoura das viagens.
Estava sozinho, mas o empregado expedito colocou-lhe dois copos sobre a mesa, um para ele e outro para uma pessoa que lá não estava. Um lapso, ou talvez não. Por coisas que iam sucedendo, firmara a ideia de que nada lhe acontecia por acaso. Lembrou-se de um trecho de O Ano da Morte de Ricardo Reis, e quando a garrafa veio encheu os dois copos. Sabe que não bebeu o vinho do segundo, embora não consiga recordar se quando se levantou, depois de pagar a conta, o deixara cheio ou vazio.
A caminho da estação do metro, moderadamente bebido, lúcido e contente, parecia-lhe que alguém o acompanhava.

sábado, novembro 28, 2009

Cenas de caça e pesca, seguidas de uma sextilha icárica

Do Diário de Miguel Torga:

Palheiros de Mira, 21 de Setembro de 1948

– Eh! rei dos alcatrazes! – gritou hoje à minha passagem um pescador.
Tem sido uma razia neles, grandes como aviões. Vêem-se ao longe a atirar-se ao mar como
stuckas, a pescar, e quando se aproximam do barco e eu lhe mando uma carga de chumbo três, berram como cabritos e agridem como feras quem se aproxima. São eles aparentemente que me levam ao largo, e os homens da companha, a quem os dou no fim para fazerem arrozadas (…).

26 de Setembro

ÍCARO

O alcatraz atira-se do alto.
Dobra as asas, e cai.
Do céu à terra é um salto.
Do céu ao mar, um gesto.
Longe, fica o protesto
Que não sabe aonde vai

(Diário, Livro IV)

domingo, novembro 15, 2009

POETA MILITANTE

Leio hoje as memórias de José Gomes Ferreira (A Memória das Palavras, Lisboa, Portugália Editora, 1965) e dou a páginas 105-106 com a evocação do esteta António Boto, artista que realizou “a simbiose do Homem com o Poeta sem falsas fronteiras entre a Poesia e a Vida”. Referindo os riscos corridos por este homem que desafiou o escândalo em nome da “Poesia autêntica, da Poesia que não mente”, José Gomes Ferreira estabelece como contraponto outra poética de risco – essa, segundo palavras suas, de dimensão heróica – que foi a do neo-realismo.
José Gomes Ferreira participou, se não heroicamente pelo menos com grande espírito de abnegação, na campanha contra a Monarquia do Norte, em 1919, integrado no Batalhão Académico. Tinha dezanove anos e era estudante de Direito. As memórias dão-nos imagens muito vivas desse período da sua vida em que a exaltação dos ideais republicanos não elide a expressão dum olhar de desencanto sobre o país e o atraso social em que se encontrava mergulhado.

sábado, novembro 14, 2009

BREVE DISCURSO SOBRE A NORMALIDADE

Acusado de ser o mandante das famigeradas escutas a Belém, sabe-se agora que afinal foi ele o escutado – com extracção de certidões e tudo! – , a pretexto duma investigação policial a um seu amigo. (Na nossa política passa-se com facilidade de sujeito de uma acção a seu objecto.)
É natural que as escutadas conversas com o tal amigo não incidissem sobre obras de caridade, arranjos florais ou o preço da roupa na época de saldos. Como gente do poder, deverão ter falado de estratégias de poder. Tudo isto parece normal.
Parece normal ser-se amigo de um corrupto? Parece que sim, até que o tal amigo se revele claramente como é e então caiba a decisão de cortar com a amizade ou, no bom espírito cristão, continuar junto dele para ajudá-lo a encontrar o bom caminho. Terá sido por razões semelhantes que o inquilino de Belém levou tanto tempo a separar-se daquele amigo conselheiro de estado (se é que se separou!) e que tendo demitido um seu assessor justamente por causa dum negócio de escutas, o mantém afinal dentro do Palácio, ao serviço da sua pessoa, como se nada tivesse acontecido.
Normal parece também que no bas-fond da política, onde pontifica uma senhora já de certa idade, se volte agora à carga a dizer do homem o que Mafoma nunca disse do toucinho.
Vivemos num país de políticos invejosos, sotainas hipócritas, heterossexuais pundonorosos, e sucateiros das consciências. No meio da desgraça, só nos falta sermos eliminados pela Bósnia ou seguirmos em frente com os golos de algum brasileiro. Tudo normal, portanto.

sexta-feira, novembro 13, 2009

ESCUTAS

Há duas coisas que um cavalheiro não faz: é fazer pelas pernas abaixo e comentar escutas.

Carlos Magno, hoje, no Contraditório da Antena 1

domingo, novembro 01, 2009

ALICE E O ESPELHO

Cansei-me de ler livros. Ando agora nas redes sociais da Internet, fazendo amigos, adicionando nomes à minha lista de contactos, escrutinando as fotografias e os perfis que me chegam nos fluxos mágicos do espaço virtual.
Ontem conheci um rapaz de nome Pierre. Francês? Não sei. A fotografia mostra-o com uma cabeleira negra, os olhos vagos, um cachecol desabado sobre o casaco de lã de cores amarela e verde, um sorriso terno que faz pensar em alegrias que estão muito para lá da ligeireza das teclas ou dos reflexos do ecrã. Engenheiro informático, solteiro, nascido a 23/7, omisso o ano, mas, pelo aspecto, aí pela casa dos trinta. Talvez trinta e muitos, mas que importa? Até aos quarenta anos os homens estão como novos, isto já eu ouvia à minha mãe, senhora comprovadamente experiente em tudo quanto ao sexo oposto diz respeito.
Antes de me dedicar às redes sociais da Internet, frequentei ginásios, lugares onde, com sorte, podemos melhorar a silhueta e conhecer atletas. Os corpos são como poemas. Vi muitos bíceps, muitos músculos abdominais que me cortaram a respiração acelerada pelos exercícios de marcha no tapete rolante. Um dia, porém, descobri que só homens desinteressantes se chegavam ao pé de mim com as mais incríveis propostas: um treino de jogging na pista da Cidade Universitária, um café à saída, a participação numa qualquer prova de corrida pedestre ao fim-de-semana. Achei que não compensava tanto esforço, tanto dinheiro gasto ao fim do mês, tanta desorganização de horários no termo do dia de trabalho. Chegava a casa sempre depois das nove, exausta e cheia de fome. Comia muito, e engordava disparatadamente. Desisti.
Depois de abandonar os ginásios juntei-me a um grupo de observadores de aves que se passeava de binóculos e máquinas fotográficas nas veredas da Serra de Sintra. Precisava de conhecer pessoas. Andei fins-de-semana a fio pelas zonas do Rio da Mula e da Lagoa Azul em demanda do falcão-peregrino, do gavião, do pombo-torcaz e da ferreirinha-alpina. Havia homens interessantes naquele círculo de amadores da natureza. Um dia, quando subíamos a uns penhascos de onde se avistam os longes do Cabo da Roca, fui auxiliada pelo Mário, um homem casado, o mais atraente de todos os membros do grupo. Agarrou-me pela cintura, encostou-se, e antes de me empurrar para cima tomou a liberdade de me apalpar demoradamente os seios, como se manipulasse duas alavancas impulsionadoras da minha subida ao coruto das rochas. Gostei que me fartei. O pior foi a mulher, observadora tanto das espécies avíárias como das movimentações do marido, que logo ali, desrespeitando o silêncio exigido para a observação dos pássaros, se pôs a ralhar asperamente com o fogoso consorte.
Saí pela porta pequena do grupo de amigos das aves e, através de uma colega, comecei a ir às reuniões duma comunidade de leitores. Livros e mais livros, discussões longas sobre temas que por mais que me esforçasse nunca conseguiria acompanhar. Memórias de Adriano, As Cidades Invisíveis, O Lobo das Estepes, livros grossos e duros como uma noite sem companhia. Participavam muitas mulheres na comunidade de leitores, pois, diz-se, são elas que mais apetência demonstram pela leitura. Quanto a homens, eram escassos e gastos.
Ainda se falassem de livros como os Onze Minutos do Paulo Coelho, ou desses que são escritos por personalidades conhecidas da televisão, que não dão trabalho a ler, como Não Sei Nada Sobre o Amor e tantos outros, ainda teria feito um esforço para me manter na comunidade. Assim não. Prefiro a Internet. A vida passa diante dos meus olhos como um grande quadro do mundo, sem complicações, à distância simples de um clique. Quando bem calhar dou o salto para o lado de lá. É assim como atravessar um espelho.

AINDA OS DIÁRIOS

O diário é uma escrita datada, fragmentária, intermitente. Philippe Lejeune chama-lhe o “grau zero” da construção textual, e, de certa forma, esse parece ser o sentimento de escritores como José Régio. O poeta d´As Encruzilhadas de Deus diz nas Páginas do Diário Íntimo: Um diário é informe ou disforme, desconexo, espontâneo, sei lá! Não é, ao menos pela forma, – uma obra de arte.
Contrariamente a estes juízos, os diários de Maria Gabriela Llansol (Um Falcão no Punho, Finita e Inquérito às Quatro Confidências) assumem-se como peças exemplares de literatura e reflexão. São obras de arte.

Herbais, 20 de Outubro de 1982

Manhã cheia de sol, em contraste com a atmosfera pluviosa dos últimos dias; querer continuar a escrever
Contos do Mal Errante é a minha resposta luminosa à manhã. Ultimamente julgava que o meu corpo era menos maleável, que, onde uns desejos se alargavam, outros se restringiam. Mas sei que o corpo responde à voz altissonante que chama, e ele próprio grita; assim, também ele ainda contém o amor carnal, que é bom condutor do humano. (…) Senti-me feliz sobre a superfície da terra que pisamos. O regresso ao corpo do Augusto ontem não podia passar despercebido nesta hora do Diário.

Maria Gabriela Llansol, Um Falcão no Punho, Lisboa, Edições Rolim, 1985, p. 90.

quinta-feira, outubro 29, 2009

A SURPREENDENTE E SEMPRE PROVEITOSA LEITURA DOS DIÁRIOS


Portalegre, 18 de Maio de 1953

Acabo de acompanhar ao cemitério, e de a fechar no seu caixão, a velha Lúcia, que me serviu durante quinze anos. Era casada, vivia com o marido e os filhos, e vinha todos os dias fazer-me o serviço de casa. Deixou-me há cerca de dois anos, por já não poder trabalhar. Vinha visitar-me de vez em quando, e continuava muito pegada a este casarão. Mulher dos velhos tempos, com um profundo sentido de honestidade, e dignidade na sua pobreza. Como eu lhe dava alguma coisa quando me visitava, acanhava-se de vir só por isso. Algumas vezes fui duro para com ela. Obrigava-a a levantar-se bastante cedo, fosse Verão ou Inverno, para me vir servir o pequeno-almoço à cama. Nos últimos tempos, sobretudo de Inverno, era-lhe isso penoso; e eu sabia-o, mas pouco a poupava. Estimava-a sinceramente, no entanto. Por sua vez, ela era-me profundamente dedicada, tinha-me um grande respeito, e até na morte falou em mim e na minha casa.


JOSÉ RÉGIO, Páginas do Diário Íntimo, Lisboa, IN-CM, 2004, p. 249.

quarta-feira, outubro 28, 2009

UM REFERENDO INJUSTIFICADO

A propósito da aguardada lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, aparecem agora certos defensores da família e da moral apregoando a necessidade de submeter a referendo tal matéria legislativa.
Pretendo mostrar que tal não faz sentido. E por várias razões. Vejamos:
1. O casamento é um contrato civil que estabelece direitos e obrigações em relação às pessoas que nele intervêm. A vertente patrimonial, ou seja, o reconhecimento de um conjunto de bens que passam a pertencer ao casal, é aspecto da maior relevância no contexto legal da união civil. Sabemos as garantias que daí derivam, tanto por morte de um cônjuge, como por divórcio. O que demonstra o interesse do legislador em não deixar desprovidos de meios patrimoniais o cônjuge sobrevivo ou os que forem obrigados à separação.
2. O objectivo do casamento não é necessariamente a procriação. Embora ela seja uma sua consequência natural, a verdade é que a razão principal que leva duas pessoas a uma vida em comum é do domínio da afectividade e do companheirismo.
3. Sendo assim, não me escandaliza a união entre pessoas do mesmo sexo. O amor não corre no sentido único do sexo oposto. Ele pode existir entre dois homens ou duas mulheres com a mesma dignidade do amor heterossexual, reclamando a constituição de laços familiares estáveis e duradouros.
4. Prosaicamente é então necessário comprar ou alugar uma casa, adquirir mobília e alfaias domésticas, fazer as despesas de manutenção do lar, afectando-lhes um orçamento para o qual cada um dos membros contribuirá na medida das suas possibilidades.
5. Nesta união de facto não salvaguardada pela lei, o que poderá acontecer por morte de um dos membros do casal ou por separação? Para quem reverterá o património comum? Há garantias de que, no caso de morte, o que resultou dum esforço de ambos (casa, carro, todo um conjunto de bens) não seja herdado ou apropriado por um irmão, um pai, um filho duma união anterior? E no caso de separação, como se fará a partilha dos bens comuns?
6. As indefinições avançadas são de uma injustiça clamorosa. O Estado tem a obrigação de garantir os direitos dos cidadãos, e os cidadãos em união homossexual não podem ter um estatuto de menoridade.
Pelas razões enunciadas não se justifica um referendo. Não estão em causa princípios éticos ou morais, apenas direitos e garantias dos cidadãos. Há que legislar, e basta!
Sabe-se que o que choca muitos dos moralistas que agora levantam a voz é a extensão da figura do casamento à união homossexual, em especial pela apropriação que dela fez a Igreja Católica, ao ponto de a instituir como um dos sacramentos da sua religião.
Sabe-se igualmente que o folclore e a bizarrice dos casamentos heterossexuais tenderá a estender-se a certos casamentos realizados entre pessoas do mesmo sexo. O ridículo, porém, fica com quem o procura. A maioria dos que passarão pelo Registo Civil para oficializar as suas situações não se prestará certamente a cenas de véu e grinalda, ou troca de alianças, ou ostensivos beijos na boca no momento da solenidade. Quem quiser dar espectáculo que o dê. A maioria dos interessados só quererá ver reconhecido um direito fundamental da pessoa humana: o direito à felicidade. Só isso.