S´abuser en amour n´est pas mauvaise chose. (RONSARD, Le Second Livre des sonnets pour Hélène, XLII)
Quando se pagavam os versos a peso de ouro por Augusto César, que sabe Deus se seria, ou não seria, era porque era um só Virgílio o que poetizava; mas hoje que se comutaram a poetas todas as sete pragas do Egipto, quem quereis vós que os farte, quanto mais que os enriqueça? --- D. Francisco Manuel de Melo, "Hospital das Letras".
O lugar da autobiografia tem sido encontrado num amplo campo interpretativo que vai da referencialidade à ficção. O autobiógrafo, investido da dupla condição de sujeito e objecto da escrita, tem que lidar com a memória (ou com aquilo que ficou dela) e com a selectividade (por vezes inconsciente) dos conteúdos de vida a transmitir. O arco do tempo da narrativa, arrancando as mais das vezes do período da infância, não dá azo a relatos fidedignos, a memórias nítidas, e o mais importante não é ser sincero, mas ter vontade de o ser ou simplesmente de parecer que o é.
Esta é a minha edição d’ A Confissão de Lúcio. Uma edição da Ática, tendo na capa o esplendoroso desenho de Almada Negreiros. Sabe bem voltar a esta narrativa, voltar à Confissão e aos poemas de Dispersão e Indícios de Ouro, saber que tudo faz parte do mesmo, e que é a vida do autor que se nos apresenta, reinventada, tanto na ficção como na lírica. A despersonalização de Mário de Sá-Carneiro foi sempre um falar de si, um permanente diálogo com o Outro que não sendo ele era ele próprio:
Como a autora refere, o relato autobiográfico nunca é fidedigno. Interpõem-se entre o narrador (autobiógrafo) e os factos narrados os ponderosos efeitos da memória e da selectividade (por vezes inconsciente). É por isso que de acordo com Jean Starobinsky, um estudioso de literatura autobiográfica, a imagem do eu transmitida na autobiografia não é dissociável de um certo coeficiente de alteridade.(Diário, Livro IV)
Leio hoje as memórias de José Gomes Ferreira (A Memória das Palavras, Lisboa, Portugália Editora, 1965) e dou a páginas 105-106 com a evocação do esteta António Boto, artista que realizou “a simbiose do Homem com o Poeta sem falsas fronteiras entre a Poesia e a Vida”. Referindo os riscos corridos por este homem que desafiou o escândalo em nome da “Poesia autêntica, da Poesia que não mente”, José Gomes Ferreira estabelece como contraponto outra poética de risco – essa, segundo palavras suas, de dimensão heróica – que foi a do neo-realismo.
Acusado de ser o mandante das famigeradas escutas a Belém, sabe-se agora que afinal foi ele o escutado – com extracção de certidões e tudo! – , a pretexto duma investigação policial a um seu amigo. (Na nossa política passa-se com facilidade de sujeito de uma acção a seu objecto.)
O diário é uma escrita datada, fragmentária, intermitente. Philippe Lejeune chama-lhe o “grau zero” da construção textual, e, de certa forma, esse parece ser o sentimento de escritores como José Régio. O poeta d´As Encruzilhadas de Deus diz nas Páginas do Diário Íntimo: Um diário é informe ou disforme, desconexo, espontâneo, sei lá! Não é, ao menos pela forma, – uma obra de arte.
Leio no Diário Inédito de Vergílio Ferreira, Bertrand Editora, 2008, p. 130: