sábado, maio 20, 2006

DIÁLOGO COM UMA ESTÁTUA


Naquela noite, numa das minhas deambulações pelas ruas da cidade, fui dar à velha praça onde se ergue a estátua do Poeta. Sempre me deslumbrou aquele monumento: a figura grave do grande Vate, com a sua espada e o livro da Epopeia, sobrepujando em bela pose as oito estátuas de pedra de cronistas e homens de letras em redor do pedestal. Obra de escultor romântico, não dá para enganar… Como já passasse da uma da manhã e estranhamente a iluminação do monumento continuasse por desligar, quedei-me a pensar como era absurdo aquele dispêndio de quilovátios num momento em que o país está tão carecido de atingir o equilíbrio das suas contas e quando a propósito de tudo e de nada tanto se fala de poupança de energia. Detido nestas ideações de pendor economicista, exercício a que muitas vezes me entrego, fui interpelado por uma voz de timbre invulgar que logo me pareceu provir das alturas da estátua.

- O senhor, por mercê, veja se me enxota este pombo que está pousado na minha coroa de louros. Já não aguento o fedor das dejecções que me lança.

Embora surpreendido por tão singular pedido, dispus-me a afrontar a ave columbina com o interjectivo da praxe, mas não chegou a ser preciso. Como se tivesse ouvido e compreendido o rogo do Poeta, logo deixou a cabeça laureada para se ir instalar, em voo picado, na do cronista Fernão Lopes.

- Vossa Excelência perdoe-me – tartamudeei – mas se bem me parece é uma estátua e as estátuas não costumam falar. É certo que Vossa Excelência não é uma estátua qualquer, mas, mesmo assim, estava longe de imaginar que possuísse o dom da palavra…

Apesar da distância e do desconforto angular com que o observava, vi claramente visto que me lançava um olhar de gozo pela observação proferida, respondendo-me de imediato.

- Em primeiro lugar peço-lhe para não me tratar com tanta formalidade. Sabe, nunca fui habituado… Trate-me por Luís, ou… pensando melhor, por Dom Luís. Afinal, ainda provenho da nobreza galega e, além disso, tenho idade mais que suficiente para ser seu tetravô. Dito isto, fique a saber que mantenho o poder da palavra por especial mercê de Vénus, deusa que sempre me acompanhou e a quem nunca faltei, como é sabido, com a minha veneração literária. Só há um pequeno problema: Vénus não me concede mais do que uma hora em cada mês para desenferrujar esta língua centenária, e sempre a horas mortas, quando não há gente metediça por perto, por razões que naturalmente compreenderá. Como se me afigura pessoa digna, com quem se pode ter uma conversa, vou aproveitar. Talvez esgote o meu tempo deste mês. Só lhe peço para não falarmos de política, pois como sabe é ciência que retalha o coração dos homens e não lhes traz o mor proveito da temperança.

Hesitei um pouco, e arrisquei uma primeira questão.

- Senhor Dom Luís, há grandes dúvidas quanto a alguns dos seus dados biográficos. Sabemos, por exemplo, que o exilaram no Ribatejo por causa de amores no Paço, fossem eles com Dona Catarina de Ataíde ou com a Infanta Dona Maria, filha do Rei Venturoso. Até usou nos seus poemas o nome críptico de Natércia… É verdade que amou a bela e culta infanta? Quem era Natércia?

Aquele olho de grande visionário pareceu ganhar um revérbero de fogo.

- O senhor foi logo tocar no maior segredo da minha vida. Como ousa pretender que venha pôr em praça pública matéria de tamanha delicadeza? Sempre fui um cavalheiro respeitador do bom nome das damas da nobreza. Aliás, sempre respeitei todas as damas, mesmo as ninfas de água doce que frequentavam a taverna Mal Cozinhado, e até defendi junto do Rei, como é sabido, uma boa mulher de família que ia ser deportada por, devido a necessidade, ter praticado a prostituição. Portanto não lhe digo nada sobre esse assunto. Não sou como o Visconde de Almeida Garrett que pôs a nu, naquela incrível peça chamada Um Auto de Gil Vicente, o romance de amor entre o meu colega Bernardim e a Infanta D. Beatriz, a futura duquesa de Sabóia. Ardi em muitas flamas, é certo, mas sempre observei a tradição cavalheiresca dos cancioneiros medievais: nunca se revela o nome da dama.

- Mas, Senhor Dom Luís – argui – o senhor é uma homem do Renascimento, não é um trovador medieval…

- Mas é claro que não sou um trovador medieval. Escrevi sonetos e odes à maneira do estilo novo, embora não tenha desprezado os géneros tradicionais como vilancetes e cantigas. Conceda-me porém a graça de não me catalogar como renascentista, ou maneirista, ou lá o que seja nessa vossa febre de periodologia literária, pois em realidade fui um romântico, avant-la-lettre se quiser, mas um romântico.

- Bem – arisquei – o senhor aprendeu com os clássicos da Antiguidade. Leu Virgílio, Horácio…

- E Plauto, e Terêncio, e Ovídio. E também Petrarca, e Dante, e Boscan, e Garcilaso, e Sannazaro. Conceda-me a graça de me poupar a comentários desse jaez, pois leitura foi ofício que sempre pratiquei, azeite que nunca faltou na torcida da minha candeia.

- Bem, não queria ofender, apenas queria exprimir, no meu falar singelo, que o senhor Dom Luís fez aquilo que todos os renascentistas fizeram: estudar os clássicos da Antiguidade e imitá-los. Por isso é que andou lá por Coimbra, na Universidade, como escolar…

Arrependi-me logo de tão inoportuna observação. O Épico pareceu ficar fora de si, abandonando a rigidez da postura e revolvendo-se freneticamente no cume do pedestal.

- Não diga isso nem a brincar! Assevero-lhe que não andei em nenhuma Universidade. O que aprendi, e não foi pouco, foi no Colégio das Artes em Santa Cruz. Por isso é que nunca me trataram por Doutor como soía acontecer com bacharéis e licenciados e sempre fizeram com o Doutor Sá de Miranda ou com o Doutor António Ferreira. Pensa o senhor que é preciso ir à Universidade para obter formação? Às vezes o melhor é mesmo não pôr lá os pés… Mas retomemos o tema do meu exílio ribatejano. O que eu sofri! Nem as ninfas do Tejo que tantas vezes invoquei em Santarém e em Constância minoraram a minha amargura. Tão perto e tão longe dos amores… Por isso é que me alistei como voluntário para o Norte de África…

- Onde perdeu o olho…

- Sim, onde perdi o meu olho direito numa rixa nocturna na casbá de Ceuta…

Atrevi-me então a observar que não era dessa forma que a tradição nos narrava o infeliz sucesso. Sempre nos ensinaram na escola que o Poeta tinha perdido o seu olho direito em feroz combate com os infiéis, em defesa da Pátria e da Cristandade. E ele riu, a única vez que o vi rir durante a nossa conversa, confessando o seu vicioso comportamento de espadachim quezilento, sempre pronto a soltar a lâmina da espada, como daquela vez em que feriu um tal Gonçalo Borges numa rixa no Rossio, indo bater com os costados na Prisão do Tronco, de onde só saiu para seguir na nau S. Bento para o serviço da Índia.

Neste ponto da conversa, abandonou surpreendentemente a posição erecta que lhe é conhecida e sentou-se no bordo do pedestal, as pernas pendentes em direcção à cabeça do cronista e gramático João de Barros.

- Senhor Dom Luís – atrevi-me a perguntar – em todos esses transes da sua vida nunca recorreu a influências, nunca lhe valeram os amigos?

Uma sombra pareceu correr sobre o rosto de bronze do Épico.

- Fala-me de amigos. Amigos verdadeiros tive poucos, não mais que o número de sílabas de um verso em medida velha. Olhe, tome nota: O Doutor Garcia de Orta, que fez a mercê de publicar uma ode minha no prefácio do seu Colóquio dos Simples e Drogas, o meu primeiro trabalho publicado; Diogo do Couto, que me resgatou em Moçambique, onde passava fome, sem dinheiro para prosseguir a viagem de regresso à Pátria; Heitor da Silveira, moço infeliz, meu colega, morreu à entrada da barra do Tejo; D. Gonçalo Coutinho, chamou-me Príncipe dos Poetas e pôs uma pedra na minha campa rasa; D. Manuel de Portugal, o meu Mecenas, sem ele se calhar não teria publicado Os Lusíadas...

- Os Lusíadas, Senhor Dom Luís, a Grande Epopeia, de que fizeram aquela edição pirata no ano de 1572…

Aqui o Épico voltou a tomar-se de uma invulgar excitação.

- Edição pirata, o senhor não sabe o que diz. Faz-me dó ver o tempo que se tem perdido com essa polémica. Não houve nenhuma edição pirata, saíram ambas da oficina de António Gonçalves, o meu impressor. Lá porque uma edição tem o pelicano do rosto com o bico para o lado esquerdo e na outra está o ridículo palmípede com o bico para o lado direito, idearam logo que a segunda era contrafacção. Já viu bem o trabalho que fizeram? Aqueles risíveis golfinhos, aqueles grotescos motivos vegetalistas, aquelas colunas e arquitrave que escandalizariam Vitrúvio se nelas botasse os olhos? Aquilo foi tudo feito a trouxe-mouxe. Uma edição miserável, cheia de gralhas, indigna do meu trabalho. Digo-lhe que odiei aqueles oficiais impressores. Havia de ver os canecos que viravam à hora de comer. Se a composição se tivesse feito da parte da tarde, quando destilavam a bebedeira, teriam botado no rosto do livro em vez de um pelicano uma galinha, ou um pato marreco, sabe-se lá…

- É de facto surpreendente essa informação que me dá…

- Inventaram muitas coisas a meu respeito, não se admire, podia estar aqui a enumerá-las o resto da noite. Desconhecem a minha vida, e como não sabem, inventam.

Perante esta afirmação, pareceu-me ter chegado a minha oportunidade de brilhar, e fui dizendo:

- Nem pense nisso, Senhor Dom Luís. Todos sabemos que passou dezasseis anos no Oriente, andou pelo Malabar em acesa luta contra o Rei da Pimenta, no estreito de Meca contra os navios muçulmanos, sulcou os mares da China, esteve em Macau como Provedor dos Defuntos e Ausentes onde terá sido injustamente acusado de ilícitos de colarinho branco, como hoje dizemos... Foi preso em Goa, naufragou na foz do rio Mecom…

- Alma minha gentil que te partiste

- Sim, esse belo soneto à Dinamene que perdeu nessa tragédia marítima… Mas hoje é uma figura inquestionável da nossa memória colectiva. Sem a sua obra Portugal se calhar não existiria, o senhor reinventou a nossa História, foi o grande arquitecto da Língua Portuguesa, o seu labor só merece referências elogiosas…

O Poeta aqui resolveu corrigir-me.

- Também tive os meus detractores, sabe? O Verney, por exemplo, que assinou o Verdadeiro Método de Estudar com o criptónimo de Frade Barbadinho da Congregação de Itália, disse muito mal de mim. Eu desculpo-o, coitado, coisas de racionalistas deslumbrados com Kant e com o progresso das ciências … Mas também houve muitos que se aproveitaram do meu nome. Veja o caso daquele escritor realista, o José Maria Eça de Queirós: veio acabar o seu romance O Crime do Padre Amaro aqui junto das antigas grades do meu monumento. Lá talento tinha ele, não nego, mas estava atrapalhado par pôr um fim na obra. Não admira, com tantos padres e beatas falsas, até um bom escritor pode vacilar. Então desfiou uma conversa reaccionária entre dois sacerdotes viciosos e um fidalgo decrépito e rematou a falar do meu olhar de bronze e dos meus largos ombros de cavaleiro. O que tenho eu a ver com aquele romance naturalista? Nada. Meteu-me ali para se safar, foi só isso… E o Visconde de Almeida Garrett, que no seu drama romântico Frei Luís de Sousa põe aquela patética personagem chamada Telmo a dizer que andou comigo lá pela Índia, em terra de prodígios e bizarrias? Eu desculpo tudo isto, são fingimentos de poetas, mas escusam de estar sempre a bater no mesmo…

- Pelo que vejo, o Senhor Dom Luís está informado de tudo… Tanto conhece a literatura dos Antigos como a dos Modernos…

- Saiba o senhor que estou morto, mas não durmo…

- Sim, efectivamente…

- Veja só o que se passa agora com essa manifestação artística de duvidoso gosto, a Cow Parade. Pois não é que fizeram uma miserável imitação da minha pessoa numa ridícula vaca a que puseram o nome de Vacamões? A isto, sinceramente, esperava ser poupado. Soube-o hoje mesmo. Quem me trouxe a notícia foi o meu colega Ribeiro Chiado que está ali diante de A Brasileira, e soube-o por alguém que veio do Rossio e lhe contou. É incrível! Sabe por que razão procedem assim, sabe? Porque eu vendo, tenho aceitação no mercado, nem preciso de marketing. Ah! se pudesse registar a minha trade mark como fez a Margarida da infraliteratura, havia de ver o dinheiro que ganhava só em direitos de imagem e merchandising… Mas, pensando bem, para que queria eu riquezas, se nunca as conheci nem me daria bem com elas? O meu único rendimento certo foi a tença de 15 000 réis anuais dada por D. Sebastião, justamente por ter escrito Os Lusíadas. Só que o pobre moço nunca deve ter lido o meu poema…

Por esta altura, o pombo que dormitava empoleirado na cabeça de Fernão Lopes descerrou uma pálpebra de sono como se estivesse a suplicar silêncio. Comecei a sentir frio e o cansaço começou insidiosamente a tomar conta de mim. Caminhava depressa a madrugada. O carro da recolha do lixo, vindo das bandas do Loreto, deu a volta à praça com grande estrépito e meteu-se nas ruas do Bairro Alto. Pela Rua das Flores chegava um hálito de rio em maré vazante. Desligaram-se as luzes do monumento.

- Senhor Dom Luís – disse respeitosamente – com a sua permissão, retiro-me; já é muito tarde, e tenho à minha frente um dia de trabalho.

Mas já não me respondeu o grande Vate. Tinha assumido de novo a majestade do seu porte, hirto, e eu vi que era apenas uma estátua que ali estava, uma estátua romântica com uma espada, uma coroa de louros na cabeça, e segurando um livro que encostava ao peito de bronze como se o quisesse meter no coração – coração que as estátuas não têm, por maiores que sejam os sonhos dos homens ou a exaltação poética dos artistas.

Tomei um táxi na Rua do Alecrim e fui para casa tentar dormir.

D.E.

domingo, abril 30, 2006

OS VELHOS

SUSANA SURPREENDIDA PELOS VELHOS , painel de azulejaria do século XVI, Palácio da Bacalhoa, Azeitão
Que os velhos podem ser perigosos elementos anti-sociais, perturbadores da ordem natural das coisas e violadores dos princípios morais de qualquer comunidade, já o divisara o profeta Daniel no escrito bíblico sobre a casta Susana (Daniel, versículo 13, 1-64). E nem sequer nos é permitido duvidar da razão de Daniel quando interveio em defesa de Susana: uma vez que o seu nome tem o preciso significado de “Deus julga”, julgando o profeta pela interposta pessoa de Jeová, logo se exclui qualquer hipótese de erro humano que pudesse desfigurar a verdade dos factos ou atrapalhar o correcto juízo sobre as acções praticadas.

A Susana que Daniel defendeu era jovem, bela e fidelíssima esposa, uma tríade de atributos de conjunção nem sempre observável. Era casada com Joaquim, rico comerciante judeu de Babilónia.

A casa de Joaquim e da casta Susana era frequentada por dois velhos juízes que se diziam conselheiros do povo mas que em verdade eram uns ociosos, libertinos e depravados como só os velhos sabem ser. Pensaram os dois em atentar contra a castidade de Susana. E na primeira oportunidade que se lhes deparou, apanhando-a sozinha a tomar banho num pequeno lago do jardim, tentaram consumar os seus lúbricos intentos.

Não conseguiram nada os velhos. Não que lhes faltasse o vigor, pois estavam ali para as curvas como já se percebeu, mas porque se opôs com tenacidade a casta Susana. Esta, no entanto, não se livrou de se ver envolvida numa situação dúbia para cujo esclarecimento e reposição da verdade foi vital a intervenção do profeta.

Serve esta imagem para ilustrar a periculosidade dos velhos. Entre nós, longe vai o tempo em que eles se dedicavam a práticas inócuas como passear os netinhos ou visitar os filhos. Hoje quem os quer ver é a caminho do Algarve ou de Benidorm, gozando as generosas reformas com que se sangram os fundos da Segurança Social e se debilitam as contas do Estado, sempre com a esperança de vida, esse pesadelo de qualquer governo justo, a crescer de forma descontrolada, em roda livre, prolongando a folia para além dos limites do razoável. Anda preocupado o governo, andam preocupadas as pessoas de bem. Tudo por causa dos velhos, esse género que não respeita os seus prazos de validade e perversamente se dilata no tempo a sorver prestações sociais suplementares, catorze meses ao ano, assistência médica e medicamentosa, cirurgias, custando os olhos da cara aos orçamentos públicos.

Felizmente temos um governo avisado, consciente dos perigos e das ameaças que os velhos representam. Pois se quereis gozar, cadáveres adiados estendidos ao sol nas areias das praias, refastelados nos bancos de jardim, trabalhai, o Estado não tem a obrigação de vos sustentar!

Entretenham-se os jovens com uns estágios profissionais, uns cursos de formação, nada que lhes conceda um estatuto de emprego certo e duradouro. Mas os velhos, esses, terão de dar o litro. Reformas nunca antes dos setenta, de preferência até mais tarde. Trata-se de gente ameaçadora, capaz do pior. Há que mantê-los ocupados e de rédea curta. Sabe-se lá em que desvarios congeminam quando os vemos, aparentemente calmos, nos jardins das cidades, cavaqueando ou jogando às damas. Nunca fiando. Ainda bem que a este respeito, para tranquilidade de todos nós, o governo não dorme…


D.E.

sexta-feira, abril 28, 2006

IDEIAS DE EUROPA



Na mitologia latina Europa é uma princesa de Sídon por quem se enamora Júpiter, o rei dos deuses. Para a seduzir, transformou-se o deus num alvo e manso touro, surpreendendo-a quando se divertia junto ao mar. Atraída pela beleza e pelo ar inofensivo do extraordinário animal, subiu Europa para o seu dorso, não esperando ele por outra coisa para partir à desfilada pelas águas do mar. Só parou em Creta, e aí se consumou a união entre o lascivo deus e a jovem princesa.

Europa princesa, rainha. Foi assim que a viu Sebastian Münster, geógrafo e cartógrafo alemão (1488-1552) ao publicar em Basileia a sua Cosmographia Universalis, apresentando, a par de vinte e seis mapas, a imagem alegórica da rainha Europa. E se um braço é a Itália, tendo na mão a Sicília, e o outro se projecta na direcção da Dinamarca e da Escandinávia, a cabeça é a Península Ibérica e os olhos são de Portugal.

Bem diz Camões no canto III de Os Lusíadas:

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.”

E Fernando Pessoa, na Mensagem, em admirável exercício de intertextualidade:

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.”

Ideias de Europa. Como em David Mourão-Ferreira, Retrato de rapariga:

“Muito hirta de pé no patamar do sono
Contornando sem pressa a curva de uma artéria
Por mais ocasional que fosse o nosso encontro
dava-me a entender que estava à minha espera
Com um livro na mão com um lenço ao pescoço
uma expressão cansada a palidez inquieta
de quem andasse ao vento ou trouxesse no rosto
em vez de pó de arroz um pó de biblioteca

surgia de repente onde sempre estivera
em Zurique em Paris em Liége em Colónia
Por único endereço uma carreira aérea
Mas não sei se era louca ou apenas mitómana
Onde quer que eu a visse uma coisa era certa
Numa rua num bar num museu numa doca
dava-me a entender que estava à minha espera
dava-me a entender que se chamava Europa”

D.E.

terça-feira, abril 25, 2006

A FELICIDADE DOS AMANTES

Vai para dois anos que me dedico a escrever cartas de amor, de manhã à noite, intensamente, no pequeno gabinete que aluguei num velho edifício de escritórios duma rua da Baixa. Mas devo dizer, como prévio e indispensável esclarecimento, que apesar da abundância da minha produção epistolar, toda ela sobre estados de alma amorosos, não me encontro apaixonado por ninguém nem julgo que tal me venha a acontecer nos tempos mais próximos. Trabalho as cartas de amor, moldo os sentimentos, forneço as chaves com que se abrem os corações mais empedernidos e se jogam os lances das inseguras paixões, mas tudo de uma forma profissional, não me deixando envolver, respondendo às solicitações, que são muitas, da minha vasta clientela. Sou, portanto, um profissional do amor. Escrevo as cartas que os apaixonados não sabem escrever, e cobro por isso os meus honorários.

Tudo começou quando aquela rapariga magra de olhos bonitos, que frequentava o café onde eu costumava estudar, se abeirou de mim com um pedido fora do normal: que lhe escrevesse uma carta para o namorado, uma carta de amor, que ela já tinha tentado e não lhe saía nada. Como eu era estudante de Letras, quase a terminar o curso, pensava encontrar em mim a competência legítima para dar a volta ao assunto. Foi então que comecei a exercitar-me nas singulares modulações do discurso amoroso: enleei-me nas metáforas, usei as anáforas e as sinestesias, voguei na crista da onda das expressões hiperbólicas como um surfista sobre uma prancha de afectos. A carta agradou. A seguir, foi-me pedida outra carta, e outra. A notícia da excelência dos meus escritos passou de boca em boca. Quando dei por mim estava a escrever cartas para um vasto público que frequentava o café ou a ele era atraído pelo poder da minha escrita.

De começo, todo este trabalho era feito de forma desinteressada, por simples vontade de ajudar, mas não tardou muito que alguns dos meus consulentes começassem a pagar-me o café ou a cerveja, a trazer uma garrafa de uísque como oferta, a deixar uma nota de cinco ou de dez euros. Era o reconhecimento pelos serviços prestados. Por essa altura, lendo um matutino de grande circulação, dei conta, na página de anúncios, do grande número de videntes, curandeiros, espiritualistas, génios de virtude e de conhecimento que ofereciam ajuda para toda a classe de problemas humanos: amor, dificuldades sexuais, droga, negócios, desavenças conjugais. Grande deveria ser o desamparo, a fragilidade, o desconcerto da vida dos homens para uma oferta tão copiosa de ajudas espirituais. Foi quando me lembrei de abrir um gabinete de aconselhamento amoroso e confecção de cartas de amor. Pareceu-me propósito natural, honesto, pois não trabalhava com ciências ocultas ou ilusões de curas, com enganosas imagens do sobrenatural, limitando-me, com os pés bem assentes na terra, a usar o inexcedível poder da palavra escrita para captar e conciliar o apetecido amor.

Abri o meu gabinete na Baixa, deitei uns anúncios nos jornais, criei um sítio na Internet. Como sou respeitador dos desígnios fiscais, colectei-me e comecei a passar recibos verdes. E se na mesa do café já ia tendo algum movimento, no meu gabinete – decorado com esmero, com uma estante onde se destaca, em preciosa edição, a Ars Amatoria de Ovídio, e, na parede, o brilho de uma gravura de Dido e Eneias amando-se na gruta mítica – ali, o negócio começou a prosperar a olhos vistos. Era só facturar.

A rapariga magra de olhos bonitos tornou-se nesse meu princípio de vida a melhor cliente do gabinete. Vinha todas as semanas com um novo pedido: uma carta, um simples bilhete, um poema. Sim, também comecei a fazer poemas de amor, um preço ligeiramente mais alto, está bem de ver, dado tratar-se de género especioso e de mais seguro efeito. Ela ficava a olhar-me, muitas vezes com a expressão própria de quem vive uma grande paixão. Mas também acontecia aparecer para pedir um conselho sobre um vestido ou uma ementa romântica, matérias que não estavam propriamente dentro da minha especialidade mas que procurava atender, sem cobrar qualquer preço, dado tratar-se de cliente sempre merecedora de uma atenção comercial.

Entretanto, a partir das notas tiradas nas consultas comecei a interessar-me por uma espécie de sociologia do amor. Tendo eu clientes de ambos os sexos, verifiquei que entre as mulheres eram jovens as que me pediam cartas e poemas, enquanto da parte dos homens era por volta da idade madura que tal necessidade se manifestava. O que sugere como é diferente entre os sexos a forma de sentir e viver o amor. Talvez volte a este tema, se puder, em próxima oportunidade…

Passei a viver, como se pode imaginar, um tempo de prosperidade e de grande satisfação pessoal. Sabia que as minhas cartas ajudavam a melhorar a vida das pessoas que me procuravam, ordenando sentimentos e paixões com resultados de sucesso. Os meus clientes, resolvidas as suas inseguranças, estabilizadas as vidas amorosas, habituaram-se a passar pelo gabinete para me comunicarem os seus novos estados de alma. Deixam sempre pequenas lembranças em manifestação de gratidão, o que me toca profundamente. E eu sinto-me satisfeito pela felicidade de todos como se se tratasse da minha própria felicidade.

Um problema, porém, veio ensombrar a alegria dos dias. Uma manhã, quando menos esperava, entrou-me no gabinete a rapariga magra de olhos bonitos. Vinha transtornada, percebi logo. Já lhe conhecera muitas expressões apaixonadas, já lera muito nos seus belos olhos, mas nunca a vira como naquele dia. Antes que pudesse articular palavra, perguntar ao que vinha, se havia crise ou desenlace amorosos, jogou sobre a secretária um grande maço de cartas e poemas, tudo o que tinha encomendado e eu havia escrito. Receei por momentos que a devolução da mercadoria pudesse significar a existência de defeito, inadequação de forma ou de conteúdo, avaria superveniente, deterioração do sentido, sei lá, são vertiginosas as idades do amor, nesta matéria tudo é mudança, variedade, novidades, o que hoje está certo está amanhã errado, mesmo o mais experiente dos conselheiros pode falhar. Até que ela, reprimindo a respiração ofegante, disse:

- Tome, fique com elas. Foi para si que as encomendei.

Saiu porta fora e nunca mais a vi. Só então dei conta de que a rapariga magra dos olhos bonitos estava apaixonada por mim. E logo desde os tempos das primeiras cartas, as que lhe escrevi ainda no café.

Se ao menos eu tivesse descoberto a tempo, antes de me ter metido nesta empresa que cura dos amores alheios e desleixa os próprios, talvez a minha vida fosse hoje diferente. Mas agora é tarde. Sou um profissional do amor, tenho responsabilidades perante os clientes, não posso deixar-me envolver. Talvez a minha vida mude, talvez eu venha ainda a escrever cartas de amor na própria voz, a saber mais de mim e menos dos outros. Mas para já não devo abandonar o barco: na modesta parte que me cabe, sou responsável pela felicidade dos amantes.
D.E.

25 DE ABRIL, SEMPRE !

sexta-feira, abril 14, 2006

BREVE NOTÍCIA DO HOMEM QUE SALVOU A CUSTÓDIA DE BELÉM

D. Fernando Saxe-Coburgo-Gotha

Pense-se no que seria o nosso património artístico e literário sem três peças fundamentais: Os Lusíadas de Luís de Camões, o políptico Veneração a S. Vicente de Nuno Gonçalves e a Custódia de Belém de Gil Vicente. Seria um património menos rico, imaginariamente despojado de tão importantes obras. E no entanto, quando hoje lemos a grande epopeia camoniana ou apreciamos no Museu Nacional de Arte Antiga os painéis do pintor régio de D. Afonso V e o esplendor artístico da obra-prima da ourivesaria manuelina, não nos passa sequer pela cabeça que esses três tesouros já estiveram em risco de perdição.

Os Lusíadas, quando a embarcação que trazia Camões de Macau para Goa – onde iria cumprir pena de prisão por irregularidades cometidas no desempenho das funções de provedor dos defuntos e ausentes – naufragou na foz do rio Mecom, na costa do Cambodja. Diz a tradição que Camões salvou o manuscrito nadando apenas com um braço, segurando com o outro, acima da espuma das águas, o precioso trabalho poético.

Os painéis de Nuno Gonçalves, esses, jaziam abandonados num depósito em S. Vicente de Fora e talvez viessem a servir como tábuas de andaime ou pasto de lume se o pintor Columbano não tivesse dado com eles em 1882.

Quanto à Custódia de Belém, pilhada pela soldadesca de Napoleão e mais tarde devolvida pelos franceses, deu entrada na Casa da Moeda onde a descobriu, em risco de se converter em vil metal, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, nobre de origem alemã, rei consorte de Portugal pelo seu casamento com a rainha D. Maria II.

Falemos um pouco deste homem que parece ter sido o salvador da Custódia de Belém. Ficou conhecido na História de Portugal pelo nome de Fernando II. Era uma personalidade de rara sensibilidade artística, desenhador de mérito, tendo apoiado os artistas plásticos da sua época através da compra de obras e da atribuição de bolsas para estágios de formação no estrangeiro. Foi graças à sua ajuda que Columbano estudou em Paris.

Em 1834, com a extinção das ordens monásticas, adquiriu D. Fernando o pequeno Convento de Nossa Senhora da Pena, em Sintra, fundação jerónima do tempo de D. Manuel I, e a partir desse núcleo lançou um projecto de edificação de um palácio de que foi comitente e em certa medida arquitecto – o Palácio da Pena. Saíram do seu risco muitas das soluções compositivas e decorativas desse palácio de conto de fadas, uma obra eclética e revivalista que dialoga com múltiplas estéticas, da arquitectura mudéjar granadina ao manuelino e ao neobarroco.

Foi um rei estrangeiro, mas isso não lhe diminuiu a importância nem o afecto que o País lhe dedicou. Não se limitou a ser uma figura decorativa, um rei consorte. Trabalhou em nome da cultura, deixou obra.

E impediu que a Custódia de Belém, essa miniatural catedral gótica, filigrana e poema, fosse muito provavelmente derretida.
D.E.

quinta-feira, março 23, 2006

POLITICAMENTE INCORRECTO

GEORGE SAND, desenho de ALFRED DE MUSSET


George Sand foi o pseudónimo literário de Amandine Lucie Aurore Dupin, francesa nascida em Paris, vivente entre 1801 e 1876.

Alfred de Musset, poeta e dramaturgo romântico, um dos seus famosos amantes, é o autor do desenho que nesta página se reproduz. Outro seu amante, não menos famoso, foi Chopin, uma ligação que durou perto de dez anos.

É significativo que esta escritora, autora de um grande número de romances de diversos subgéneros literários – histórico, iniciático, epistolar, de crítica social – tenha tido necessidade, para se afirmar no mundo da literatura e do jornalismo, de usar um pseudónimo masculino.

George Sand é um exemplo de mulher bem sucedida, que viveu do que escreveu, profissional da escrita numa sociedade conservadora onde o papel da mulher estava confinado ao lar e à reprodução familiar.

Em 1848, ano da queda do rei Louis-Philippe e do início da Segunda República francesa, George Sand deixou-se tentar pela política. Mas depressa se desiludiu, retirando-se para o campo e começando um novo ciclo de produção romanesca de inspiração rústica.

Não é por mera casualidade que lembramos esta mulher na semana em que se agitaram as águas da nossa política em torno da iniciativa legislativa sobre a fixação de quotas para mulheres nos cargos políticos elegíveis.

E perguntamos: precisam as mulheres que lhes dêem a mão para entrarem na Assembleia da República ou nos órgãos autárquicos? Temos a ideia de que se elas desejassem uma participação mais activa na vida política há muito que o teriam conseguido. Dominariam hoje as estruturas dos partidos e os órgãos do poder da mesma forma que já dominam, ou estão em vias de dominar, as carreiras universitárias e a investigação científica, o jornalismo, a vida literária e artística. E isto por várias razões: porque são mais fortes e inteligentes do que os homens, mais determinadas e laboriosas, e porque não há fatalidade biológica ou condicionamento de educação que as impeça, se assim quiserem, de chegar onde chegam os homens. Só que elas manifestam pela política essa saudável anorexia que as afasta dos jogos do poder. As mulheres são um anti-poder, é assim que as vemos. Até porque não nos parecem edificantes muitas das experiências de poder político no feminino.

Significa isto que tudo está bem e nada é preciso fazer? Nem pensar! Infelizmente, ainda persistem na sociedade actual os condicionamentos e discriminações que levaram Amandine Dupin a adoptar o pseudónimo George Sand. Só que o problema não se resolve com quotas ou qualquer outra medida administrativa. É uma questão de reforma de mentalidades que só a educação pode gerar. É um trabalho de gerações a ser feito por homens e por mulheres.

Por isso votamos contra o projecto legislativo neste comentário. Comentário político. Politicamente incorrecto.



D.E.

quinta-feira, março 16, 2006

PINTAR A ALMA



Que há de comum nestes dois retratos?

Um, de D. Sebastião, é obra de Cristóvão de Morais com data de 1571. O outro, de Antero de Quental, é de Columbano Bordalo Pinheiro e foi pintado em 1889. Três séculos separam a factura das duas obras: do período maneirista ao naturalismo do século XIX. Mas o que de certa forma as unifica é o poder que ambas demonstram de, através dos olhos, revelarem a alma dos retratados.

Do jovem D. Sebastião fica-nos esse sentimento de grande vingador e defensor da Cristandade, o olhar insolentemente belo e desafiador, sonhador de heroísmos e feitos cavaleirescos. De Antero de Quental, a imagem de um velho lutador à beira da desistência, o desespero por um país que recusava modernizar-se, ele que fora a figura mais luminosa da Geração de 70 e lucidamente identificara nas Conferências do Casino as causas da decadência dos povos peninsulares.

Sempre se soube ler nos olhos das pessoas. Com a arte dos grandes mestres também é possível ler nos olhos dos retratos.

D.E.

quinta-feira, março 09, 2006

WERTHER NO CHIADO



Custou-me muito a deixar de fazer uso da casaca azul que vestia no dia em que dancei com Charlotte pela primeira vez; mas, na verdade, estava já incapaz. Mandei, porém, fazer outra igual, assim como o colete e os calções amarelos. Conquanto este novo vestuário não me produza o mesmo efeito, espero, com o tempo, que hei-de vir a ter-lhe a mesma amizade.

Carta do jovem Werther, de 6 de Setembro de 1772, ao seu grande amigo Wilhelm.
“Werther” de Goethe




Davam-no como louco. Vestido de fraque, com uma rosa flamejando na lapela, movia-se todos os dias entre a Baixa e o Chiado, suscitando escárnios e perplexidades, olhares piedosos, curiosidades mórbidas. A razão de assim se apresentar, em fato de cerimónia, era explicada pelo povo da seguinte maneira: o homem do fraque era um eterno noivo; tinha ficado pendurado à porta da igreja à espera de uma noiva que, entretanto, decidira desistir do casamento. E de tal forma se deixara perturbar pela insólita situação que nunca mais largara o trajo do funesto dia.

Devo dizer que nunca acreditei nessa explicação. Não me parecia possível alguém poder enlouquecer por tão singelo contratempo. E deplorava esse pendor popular para reduzir a vida e as paixões dos homens a uma cenografia de convenções e momentos solenes sem os quais a felicidade não existe. Para mim, o homem do fraque tinha todo o aspecto de ser uma pessoa superior, dessas que não se deixam abater com facilidade. E depois, assim dito, sem mais, que significado tem um casamento? Podiam falar de uma paixão não correspondida ou dos infinitos desconcertos do amor, mas não, o que a vox populi destacava era o cerimonial das núpcias, esse lugar de vaidades onde tantas vezes não mora o verdadeiro sentimento amoroso. Se o homem do fraque assim se apresentava, impecavelmente vestido, subindo o Chiado com o seu passo certo e modos delicados, por alguma razão seria mas não certamente por essa que lhe atribuíam.

É verdade que muitas vezes não lhe corria bem o passeio. O relacionamento com os passantes era difícil, tinha os seus momentos críticos. A Lisboa cinzenta daquele tempo não condizia com o desvario perfumado da sua imagem: tinham dificuldade em aceitá-lo tal como era. Uma tarde, vi eu, ainda o Fernando António não estava sentado na cadeira da Brasileira e mal se podia respirar na Rua António Maria Cardoso, junto à estátua do poeta António Ribeiro Chiado, no sítio onde hoje se abre a garganta do metro, um grupo de rapazes dirigiu-lhe umas palavras provocatórias. Perdeu a compostura, e os insultos saíram-lhe em catadupa. Isto acontecia quase todos os dias: um fraque não podia passear em paz na Rua Garrett, carreiro de autómatos engravatados metidos em fatos de medida de lanifícios da Covilhã.

E foi assim que dia após dia, quando me cruzava com ele na rua e dava conta dos comentários jocosos que faziam à sua passagem, ia crescendo a minha admiração pela sua figura refinada, pela coragem com que enfrentava o bosque de criaturinhas acéfalas das ruas da Baixa e do Chiado. Tornou-se o meu ídolo. Para o ver passar comecei a lançar mão de perigosas estratégias, como inventar justificações para chegar atrasado ao escritório e fazer pausas a meio da tarde para tomar café, direitos não contemplados no meu contrato de trabalho. Arrostava então com as admoestações do chefe e aos poucos ia desorganizando toda a minha vida profissional. Não me concentrava no trabalho, errava os lançamentos nas fichas de inventário, confundia clamorosamente as existências de mercadorias. Ansiava todo o dia pela hora da saída para me plantar à porta da Brasileira e vê-lo chegar para tomar café. Que distinção e modos correctos, achava-o um ser de um mundo diferente. Acima de tudo, fascinava-me o pressentimento de haver por detrás daquele homem uma extraordinária história de vida. Para a conhecer daria tudo. E não era uma vulgar curiosidade a tomar conta de mim: já naquele tempo me habituara a discorrer sobre o sentido da vida e a felicidade dos homens.

Por diversas vezes, na rua, tentei dirigir-lhe a palavra, um mero cumprimento que lhe permitisse identificar-me como pessoa capaz de aceitar a sua maneira de ser, de o respeitar nas suas singularidades comportamentais, mas nunca consegui fazer-me notar. Parecia ter o olhar cravado num ponto distante, só reagia se alguma provocação lhe era directamente dirigida.

Aconteceu que entrando um dia na Livraria Bertrand à procura de um manual de Contabilidade para aprofundar e melhorar os meus saberes profissionais, tentando assim recuperar da má imagem formada a meu respeito pelos meus patrões, vejo o homem do fraque a pagar no balcão da caixa um livro acabado de retirar de uma prateleira. Era o Werther de Goethe, edição da Guimarães Editores desse ano de 1970. Sabia que aquele romance alemão, publicado em 1774, narrava as desventuras amorosas do jovem Werther, artista e leitor de Homero, num conjunto de cartas por ele escritas a um grande amigo durante os anos de 1771 e 1772. Confesso não ter valorizado, de imediato, nem o acto de compra do livro, nem a escolha daquele autor do romantismo alemão. Tinha a intuição de que o homem do fraque era uma pessoa culta, habituada a lidar com as grandes obras literárias, portanto pareceu-me perfeitamente natural que frequentasse as livrarias e lesse Goethe. Mas nessa noite, deitado no meu divã à espera da chegada do sono, a terrível espertina a tomar conta de mim, comecei a ver o que até aí não ousara sequer considerar: a escolha do Werther não era uma simples coincidência ou uma inclinação meramente literária. A história daquele romance deveria ter alguma coisa a ver com a vida do homem do fraque. Fiquei tão excitado com a minha descoberta que já não consegui dormir.

No dia seguinte cheguei cedo ao escritório, tendo provocado no meu chefe um sorriso de satisfação. Renunciei à pausa para o café, a meio da manhã, aguentando-me acordado à custa do consumo imoderado de cigarros. Naquele tempo ninguém ligava aos malefícios do tabaco, fumar fazia bem à saúde e confortava o ego dos pobres mortais. A minha cabeça vogava num nimbo deletério de fumo, o meu chefe tossia, enchia o lenço de escarros copiosos, mas nem se importava. Ainda não estavam definidos a figura e os direitos do fumador passivo; ainda nenhuma empresa, nem mesmo na América, tinha sido processada pelos arrasadores cancros de pulmão causados aos seus funcionários pela liberdade de fumar em áreas laborais. Portanto, fumava-se com todo o à-vontade, apenas era costume pedir licença às senhoras, mero procedimento cortês, nada mais do que isso. O chefe tinha boas razões para estar satisfeito comigo: estava a cumprir o horário, os lançamentos brotavam da ponta da caneta e cobriam o branco da fichas de inventário em ritmo satisfatório.

Terminei em apoteose de produtividade o período laboral da manhã. O chefe, entusiasmado, até me convidou para ir almoçar, amabilidade que agradeci sem poder aceitar, pois tinha outros planos para o escasso tempo da minha hora de almoço. Dirigi-me à Livraria Bertrand antes da uma da tarde, hora de encerramento de todo o comércio do Chiado com a natural excepção de restaurantes, cafés e similares. Conhecia aí um caixeiro meu vizinho, com quem não tinha afinidades especiais, mas que me podia ajudar naquilo que pretendia. Havia reparado que o homem do fraque, objecto de troça em toda a Rua Garrett, era bastante considerado na Livraria Bertrand. No dia em que o vi adquirir o Werther, recebeu do citado caixeiro, à saída, um cumprimento tão atencioso que me pareceu muito para além da cortesia formal devida pelo comércio aos seus clientes. Aquele homem podia ajudar-me a descobrir a história do homem do fraque. Fui falar com o caixeiro, um sujeito de meia-idade que havia estudado no seminário, com fama de latinista e de conhecer gente da sociedade. Às minhas inquirições, respondeu assim:

Pois quer o meu amigo que lhe fale sobre o senhor doutor, o que se passeia de fraque no Chiado, faço-o com gosto, sim senhor, é cliente desta casa há algum tempo, seis ou sete anos, quando tinha escritório de advogado na Boa-Hora era aqui que adquiria as edições jurídicas, um grande escritório, digo-lhe, tinha vários colegas a trabalhar com ele, e comprava obras literárias, revistas especializadas, foi pena ter deixado de exercer a advocacia, na barra do tribunal não havia outro, discurso fácil, nenhum juiz lhe fazia o ninho atrás da orelha, sabia da poda como ninguém, a grande causa dos seus problemas foi Charlotte, peço-lhe o grande favor de não espalhar isto que lhe conto, faço-o por amizade, somos vizinhos, e já vejo que é um jovem inteligente, analista dos géneros humanos, lá diziam os antigos homo sum et nihil humani a me alienum puto, sou homem e nada do que é humano considero alheio, pois essa senhora é que lhe estragou a vida, é filha de um diplomata alemão, casada com um jovem diplomata colega do pai, sabe como é a carreira diplomática, um dia estão em Lisboa a gozar este sol ameno de que os nórdicos tanto gostam, no outro já estão no Cairo ou em qualquer esconso do Mundo a destilar suores, o marido de Charlotte estava longe, colocado temporariamente numa perigosa missão onde não era de bom conselho fazer-se acompanhar da família, o senhor doutor trabalhava para a Embaixada Alemã, tinha relações muito estreitas com todo o pessoal diplomático, foi assim que foi convidado para uma recepção na embaixada onde conheceu Charlotte, que bela mulher, ao contrário da nórdica típica esta tem os olhos negros, os cabelos são azeviche puro, pois bastou vê-la para ficar apaixonado, perdidamente, com o seu fraque de cerimónia e uma rosa na lapela também não passou despercebido a Charlotte, então, abyssus abissum invocat, um abismo atrai outro abismo, começaram a sair juntos, a passear no Chiado ao fim das tardes, é claro que não havia nada de mais, Charlotte amava o marido embora não ficasse indiferente ao charme e à inteligência do senhor doutor, diziam os latinos procul ex oculis procul ex mente, ou seja, longe dos olhos longe do pensamento, mas não era verdade, pois aqui aplicava-se outra grande máxima latina, omnia vincit amor, o amor vence tudo, mesmo longe Charlotte tinha sempre o marido no pensamento, mas apreciava aquela amizade tão saborosa que sentia pelo senhor doutor, amizade?, sei lá o que é, chamemos-lhe amizade para simplificar as coisas, está-me a perguntar como é que estou ao corrente de tudo isto?, talvez não saiba que a nossa livraria é fornecedora da Embaixada Alemã, temos relações com todo o pessoal, há coisas que transpiram com facilidade, mas dizia eu, enquanto Charlotte via a relação com o senhor doutor como uma amizade colorida, ele deixava-se dominar pela nuvem negra da paixão, paixão impossível, mórbida, repare que não larga o fraque, estava assim vestido quando a conheceu, e depois descobriu a semelhança entre o seu caso e o do jovem Werther, se já leu o romance lembrar-se-á de que o infeliz amador não largava a casaca do dia do baile em que dançou com Charlotte, no romance também assim se chamava o objecto da paixão desmedida, é então que dá em adquirir tudo o que fosse edição do romance de Goethe, estou a falar não só das diversas edições da Guimarães, as que se encontravam no mercado, mas também as que saíam na língua original e até em outras línguas, sei disto porque fazia o favor de me consultar, aconselhava-se comigo sobre as lojas de livros antigos, sei que encontrou numa loja do Bairro Alto uma edição francesa de 1854, tradução de Saint-Beuve, como estava alvoraçado nesse dia em que topou com o raro exemplar, está a ver a situação, um pouco doentia, não lhe parece?, e assim encheu uma estante de diferentes edições do Werther, deu-se então o caso do marido de Charlotte regressar a Lisboa após terminar a sua missão, pois pensa o meu amigo que acabou a convivência?, desengane-se, o marido estava ao corrente de tudo, sabia como a mulher gostava da companhia do senhor doutor, ainda lhe agradeceu o apoio prestado na sua ausência, ficaram grandes amigos, trazia para lhe oferecer uma edição raríssima do Werther descoberta num alfarrabista de Roma durante uma visita que fizera ao Vaticano, I Dolori del Giovine Werther, de 1883, edição milanesa da editora Sonzogno, e imagina o meu amigo que se entregou Charlotte, a partir de então, à convivência exclusiva com o seu amado esposo?, em renovada lua-de-mel?, nem pensar, para onde eles iam ia o senhor doutor atrás, afectos triangulares, é coisa que dá para pensar, o pior foi o caso começar a ser falado, Lisboa é uma aldeia, e foi o marido que acabou por pedir a Charlotte para se distanciar daquela amizade, nenhuma imposição, apenas um pedido, tudo gente civilizada como está a ver, Charlotte falou com o senhor doutor, fez-lhe ver que aquela paixão não levava a nada, deixou de o receber, e agora anda aí pelo Chiado como o meu amigo vê, não sei onde vai acabar aquilo…

Tão bem me tinha corrido a manhã de trabalho que nem pensava poder borrar toda a pintura durante o período da tarde. Erros sobre erros, desatenções. Não deixava de pensar no homem do fraque e em tudo o que me contara o caixeiro. Às quatro horas o chefe chamou-me ao gabinete do patrão e falou desta maneira:

Vou dizer-lhe uma coisa, aqui diante do dono desta casa para que não restem dúvidas da minha determinação, se o senhor insiste em não se aplicar no trabalho, se vem para aqui pensar na sua vida particular, nos amigos, na namorada, nos romances que lê ou no futebol, se não ajuda a puxar este grande carro que é a nossa casa comercial, comércio por grosso e a retalho, comissões e consignações, agências em todas as cidades da Metrópole e do Ultramar, então é melhor que não trabalhe para nós, empregos e empregados não faltam aí, vá para funcionário do Estado, não se ganha tanto mas trabalha-se muito menos, venha amanhã se vier com vontade de dar o litro, de contrário é melhor que não volte a aparecer, hoje não aceito mais o seu trabalho, pode sair que vou dar ordem para lhe descontarem as horas da tarde.

Que podia fazer um pobre vendedor da sua força de trabalho, sem o amparo de sindicato ou comissão de trabalhadores, perante o poder avassalador do grande capitalismo comercial? Só obedecer, não havia outra solução. Dei comigo a subir a Rua Garrett, com um nó na cabeça, a caminho do eléctrico.

Cheguei a casa. Comecei de imediato a ler o Werther adquirido na livraria à hora de almoço. Nunca tinha lido o romance do princípio ao fim. O que dele sabia não passava das referências habitualmente feitas em antologias, histórias de literatura ou artigos de jornais. Mas lendo-o e relendo-o, carta após carta, até ao desfecho narrado pelo editor, via como os romances são afinal o espelho da vida real. Este, como se sabe, é autobiográfico, tirado da própria vida de Goethe, mas ressurgia então no Chiado, em outras vidas iguais. E uma coisa me começou a preocupar: no romance, o jovem Werther suicida-se com um tiro de pistola na cabeça, única saída encontrada para a paixão impossível que lhe oprimia o coração. Onde chegaria o homem do fraque no seu delírio de amor? Sobressaltei-me tanto que passei outra noite sem dormir. Precisava de chegar ao Chiado, no dia seguinte, o mais cedo possível. Era urgente estar com o homem do fraque à hora do primeiro café na Brasileira. Entre as nove e as dez era quando ele aparecia, esperaria o tempo que fosse necessário. Bem me importava o escritório, já tinha decidido não voltar a pôr lá os pés, tinha era de falar com o infeliz apaixonado, fazer-lhe ver o perigo que corria se acaso a sua história, por capricho dos deuses, fosse uma repetição da história do pobre Werther. Ainda havia tempo para arrepiar caminho.

Durante toda a manhã aguardei a sua chegada sentado na Brasileira. O homem do fraque não apareceu. Ninguém o viu desfilar à tarde nos passeios do Chiado.

Calcorreei alvoraçado a planura das ruas da Baixa, subi e desci o Chiado não sei quantas vezes, aventurei-me nas vielas do Bairro Alto, desci à Rua do Alecrim, Largo Barão de Quintela, Cais do Sodré, Largo do Corpo Santo, meti-me pela Vítor Cordon, dei a volta por todo o perímetro do antigo espaço conventual de S. Francisco, entrei em cafés e restaurantes, subi à Trindade, fui ao Largo do Carmo... estava escrito no livro do tempo que ainda teriam de passar três anos e alguns meses para aí se renderem os velhos senhores do burgo… Mas do homem do fraque, nem sombra.

Ao terceiro dia sem lhe descobrir o rasto comecei a ficar preocupado. Temia cada vez mais um acto de desespero do desditoso apaixonado. Dei em ler as necrologias, as notícias dos jornais. Estes só falavam daquilo que queriam, havia coisas de que queriam falar e não os deixavam, mas um suicídio, para mais sendo de gente da alta sociedade, era notícia a que se daria algum relevo, assim pensava eu… De suicídios, porém, só dei conta de um artigo do “Diário de Notícias” lamentando a infelicidade dos suecos, esses nórdicos habituados a pôr termo à vida com a maior das naturalidades, certamente, perorava o articulista, por não disporem de um sistema social e político tão justo e equilibrado como o de Portugal...

Não me contive e fui procurar o meu vizinho caixeiro da Livraria Bertrand. E recebi uma notícia extraordinária: o homem do fraque tinha fugido com Charlotte. A bela alemã, que nunca fora indiferente aos encantos do seu enamorado, tinha trocado um casamento cinzento por uma paixão que finalmente podia explodir de luz e de cor. Há dois dias que a Embaixada estava em alvoroço, os negócios e interesses da Alemanha em Portugal tinham passado para segundo plano. Todo o pessoal da embaixada não fazia outra coisa senão tentar localizar os fugitivos. Fiquei espantado e ao mesmo tempo senti uma grande tranquilidade tomar conta de mim. Passeei durante o resto do dia pelas ruas da Baixa e do Chiado com a alegria própria de quem acaba de se aliviar de um pesado fardo.

E pensava como a vida real é afinal bem diferente daquilo que nos servem os escritores nos seus romances e novelas.



D.E.

quinta-feira, março 02, 2006

" MARTÍRIO DE S. SEBASTIÃO ", PAINEL PROTOMANEIRISTA PINTADO POR GREGÓRIO LOPES (1536) PARA A CHAROLA DO CONVENTO DE CRISTO EM TOMAR


O mártir está atado à coluna sobre o plinto de mármore. Já três setas lhe entraram nas carnes. A cabeça – circundada por um duplo halo – cai-lhe para a banda esquerda, mas nenhum sinal de dor se reflecte na fenda da boca e os olhos ainda não se fecharam por completo sob a cortina das pálpebras.

Atentemos nos dois sagitários que ocupam o primeiro plano do painel. Só um deles, o que vemos à direita em uniforme militar quinhentista, assesta a sua arma sobre o corpo do mártir. O besteiro que está à esquerda parece apontar na direcção do verdugo do arco. Seria assim um protector do supliciado.

Das três setas que lhe trespassam o corpo, uma só por sorte não atravessou o coração, o que representaria morte imediata por falência do aparelho circulatório. Outra está alojada na região do rim, um órgão vital, embora subsista incólume o rim direito e esse seja fisiologicamente suficiente para assegurar as funções depurativas próprias destes órgãos. A última entrou-lhe pela zona lateral do tórax, só por milagre não terá causado danos no pulmão. Não admira pois que após estas setas e mais as que se seguiram sem que delas pudesse o artista dar testemunho, se tenham convencido os carrascos da morte de Sebastião.

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Sebastião era militar do exército romano no tempo dos imperadores Diocleciano e Maximiano. Corriam severos aqueles anos do final do século III, já se sentia vacilar o poder de Roma, e Diocleciano perseguia os prosélitos da fé cristã em todos os cantos do seu vasto Império. Veja-se que até à cidade de Olisipo, na distante província da Lusitânia, chegava a mão do implacável perseguidor: o martírio dos irmãos Veríssimo, Máxima e Júlia, ousados violadores dos éditos imperiais que proibiam a religião cristã. Sebastião, voltemos a ele, era um bom soldado. Tão bom e apreciado pela hierarquia militar que lhe foi atribuído o comando da primeira coorte imperial. A ingratidão de Sebastião, no entanto, não podia ter sido maior. Convertido ao cristianismo, aproveitou-se da sua posição de comando para catequizar os subordinados, subvertendo a disciplina castrense e prejudicando a religião oficial do Estado. E foi mais longe: tirando partido da sua posição e influência, converteu Nicóstrato e sua mulher Zoe, destacados cidadãos romanos; levou para a fé cristã Tranquilino, pai de Marco e Marcelino, mártires que viriam a merecer a graça da canonização; converteu também Cláudio, outro cidadão que pertencia à nata da sociedade de Roma, assim como as suas duas filhas. Foi por este cúmulo de acções, e pelo mais que a História não regista mas de que se suspeita, que Sebastião sofreu o martírio tal como vemos agora na obra do artista.

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Detenhamo-nos então no painel. O besteiro protector de Sebastião, que vemos orientar a arma na direcção do archeiro seu colega, não apresenta o mesmo uniforme militar. Pelo trajo que usa e pela grossura do porte, comparando com os retratos da época, parece-se mesmo com o senhor D. João III, rei de Portugal, possível doador da obra para a charola do Convento de Cristo. Nessa qualidade, como era então usual, podia ser representado na pintura. D. Manuel, por exemplo, aparece como rei mago em vários retábulos de que foi doador. Por que razão não havia D. João III de figurar no painel como defensor do mártir? Tal representação teria a força de um voto. E a verdade é que, por graça concedida ou simples coincidência, viria o Rei a ter como sucessor no trono o seu desejado neto D. Sebastião, assim baptizado por ter nascido a 20 de Janeiro de 1554, dia do ano consagrado aos festejos do santo.

Reparemos agora nas mãos de Sebastião – duas mãos direitas. A mão direita verdadeira está sobre a cabeça, o braço preso à coluna. A outra mão direita, a falsa, pois no seu lugar deveria estar a esquerda, surge por trás do corpo ao nível da cintura. Não tenhamos dúvidas, é uma mão direita que ali se mostra – a ser a esquerda não nos daria o polegar e o indicador na primeira linha da representação.

Ora não é crível que um artista de tão alto gabarito, pintor régio de D. João III, formado na oficina de mestre Jorge Afonso, conhecedor das fulgurações das artes flamenga e italiana, se tenha enganado no desenho como um simples principiante. Grande era a arte deste mestre. Só em Tomar passou ele três anos de intenso labor, em plena maturidade criativa, realizando painéis para a charola do Convento de Cristo: além de “Martírio de S. Sebastião”, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga, pintou o painel “Senhora dos Anjos”, que repousa no mesmo museu, estando ainda no local primitivo os painéis “S. Bernardo” e “Santo António Pregando aos Peixes”. E para o altar-mor da Igreja de São João Baptista, templo então dependente da Ordem de Cristo, realizou o artista o retábulo de que restam as peças “Degolação” e “Apresentação da cabeça de S. João Baptista”. Se um pintor desta craveira dá em trocar os dedos de uma mão de tal forma que a mesma passa de sestra a destra, alguma razão teria para o fazer…

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E entramos na segunda parte da história de Sebastião. Julgado morto pelos seus algozes, o corpo cravado de setas, foi deixado na praça pública como exemplo, para que se soubesse de que forma o poder imperial castigava a deslealdade. Mas pela noite passou pelo local uma pobre viúva, de nome Irene, que vendo aquele corpo inanimado, ainda com um sopro de vida, o recolheu e tratou.

Milagre ou mero resultado dos esforçados cuidados de Irene, Sebastião sarou. A seguir, vem a parte mais surpreendente da história: Sebastião decide apresentar-se a Diocleciano e reafirmar a sua fé cristã, declarando-se disposto a continuar a campanha de conversões, o que não agradou, como é de calcular, ao imperador. Daí que tenha ordenado a sua detenção imediata, mandando-o açoitar até à morte. E aqui está um paradoxo iconográfico que não sabemos como explicar, pois Sebastião não morreu das setas mas sim a golpes de chicote, e tal martírio raramente se vê representado nas imagens devotas.

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Narrativa hermética, esta que o artista nos dá. Não só pelos dedos trocados, em que alguém já pretendeu ver uma referência à relíquia de S. Sebastião, um rádio do braço direito, saqueada por Carlos V de uma igreja de Roma, em 1527, e oferecida ao seu cunhado D. João III . A representação de duas mãos direitas, sendo a mão uma extensão do braço, teria um forte poder invocativo de tão importante relíquia. Mas também pelos múltiplos planos de difícil decifração em que se desdobra o painel para além do óbvio sacrifício de Sebastião.

Uma coisa, no entanto, é clara: conta-se aqui uma história de intolerância religiosa. O evidente martírio de Sebastião, mas também o fanatismo de sinal contrário que se figura no plano do painel à direita do archeiro quinhentista. É visível que ocorre aí uma imolação pelo fogo: dois mártires estão presos aos mastros sobre a fogueira, alguém levanta uma cruz em direcção a eles, e uma grossa coluna de fumo sobe nos ares. Um auto-de-fé. Em 1536, ano da possível execução da obra, foi introduzida a Inquisição em Portugal. O artista não desperdiçou a oportunidade de testemunhar o momento histórico.

Facilmente se passa de perseguido a perseguidor. É só deixar andar a roda do tempo. Uns anos mais tarde, em pleno delírio inquisitorial, já não poderia o artista fazer uso de tamanha liberdade criativa. Veja-se esta passagem das “Constituições Sinodais”, de 1565, divulgada pelos bispados portugueses a propósito da representação das “santas imagens”:

“…que as imagens sejão esculpidas, ou pintadas com muita decência, & que não contenhão, ou representem, cousas vãas, supersticiosas, ou aphocrifas, ou que dem (sic) ao povo occasião de erro, ou escandalo (…), que não incluam pessoas particulares vivas, ou defuntas, e que se conformem com os Mysterios, vida & milagres dos originais, que representarão, & assi na honestidade dos rostos, perfeição dos corpos, & ornato dos vestidos."
D.E.

domingo, fevereiro 05, 2006

A INSTRUÇÃO DE JACÓ


Arribou numa manhã chuvosa de Inverno, as penas numa sopa, a tiritar de frio, e mesmo assim genioso de obscenidades e palrar insolente. Poisado na cerca do recreio escolar, inclinava a cabeça para cravar o olho nos gestos da miudagem.

- Papagaio louro, papagaio malcriado!

Ninguém sabia de onde viera, que ventos o haviam trazido. Mostrava uma perna anilhada, sinal de que teria dono, e apesar de enregelado parecia bem de saúde. O único problema era o vomitado obsceno que lhe saía do bico, uma torrente de inconvenientes palavras capaz de deixar intranquilo o mais negligente dos educadores.

Quem finalmente o apanhou, equilibrando-se num escadote trazido por um contínuo, foi a professora Alda, uma senhora decidida e muito habituada a lidar com aves domésticas: tinha dois periquitos e, em tempos, chegara a engaiolar um melro que cantava divinamente. Esta professora Alda era a subdirectora do colégio, dava aulas de Português, e pelas funções que exercia tinha-lhe sido atribuído um pequeno gabinete, comunicante com a biblioteca, onde passava muito tempo a preparar as lições e a ler. Era sempre a primeira a chegar ao colégio, pelas sete horas da manhã, e havia dias em que às nove da noite ainda se demorava no gabinete às voltas com as suas leituras. Era uma professora sabedora e competente, estimada por toda a comunidade escolar.

Depois de agasalhar e alimentar o pássaro, começou a pensar num nome para ele. Veio-lhe logo à ideia o nome de Jacó, tirado duma conhecida estória de Luandino Vieira, e assim começou a tratá-lo com muito afecto e serenidade, de tal forma que o bicho se acalmou e só de vez em quando lhe fugia a boca para a desgraça. O director do colégio, o Dr. Melo, informado da grosseria da ave e receoso daquele mau exemplo para a educação dos seus alunos, queria dar sumiço ao palrador. Teria sido bem mais fácil nos dias de hoje, pois poderia invocar o perigo da gripe aviária, e o animal receberia logo ordem de apresentação à inspecção veterinária, era levado para análises dentro de um saco de pano por uns senhores de luvas e máscara, pois com os vírus não se brinca. Mas não, tudo se passou há vinte anos, aquela pandemia ainda não tinha aparecido, e o Dr. Melo teve de enfrentar os insistentes pedidos da professora Alda para ficar com Jacó.

Dada a consideração que o director parecia ter pela sua docente, e também pelos indícios já manifestados de poder o pássaro entrar no bom caminho, ou seja, de esquecer aquelas abomináveis palavras obscenas, foi-lhe dada uma oportunidade. Ficaria recolhido no gabinete da professora Alda e ela trataria de o educar, com boas palavras e modos serenos, de forma a que um dia se pudesse instalar um poleiro no recreio para o acolher, passando a alegrar com a sua presença e brincadeiras a miudagem do colégio.

Ficou pois Jacó entregue à professora Alda que com muita paciência lhe começou a ler passagens dos seus livros, procurando instruí-lo com a prosa dos melhores escritores e os versos mais belos dos mais inspirados poetas. E de tudo parecia agradar-se Jacó, que bastava a professora abrir um livro para ele lhe saltar para o ombro e inclinar a cabeça de modo a acompanhar a leitura, até parecia que queria ler. Foi assim que Jacó ouviu – ou leu, quem sabe? - a “ Menina e Moça “ de Bernardim Ribeiro, acompanhando do ombro da professora Alda as diversas partes da obra: a história da Menina, o diálogo com a Dona do Tempo Antigo, as belas e tristes histórias de amor de Lamentor e Belisa, de Binmarder e Aónia, de Avalor e Arima. O que mais o impressionou foi a tragédia daquele rouxinol, uma ave como ele, que de tão apaixonado canto se deixou cair morto nas águas do rio. E Jacó pensava como era belo o sentimento da pobre ave, tão diferente de si, um triste papagaio que nunca tinha amado, perfeito ignorante dos contentamentos descontentes do amor.

Da sua vida passada, Jacó lembrava então os tristes dias vividos numa sórdida taberna, agrilhoado a um poleiro ferrugento, ouvindo conversas abjectas e aprendendo palavras indelicadas, tocadas muitas vezes pela vara do álcool, esse veneno que até chegou a provar, uma vez, quando lhe encheram o bebedouro de aguardente. Andava um bocado desarranjado de olfacto, mas o olho dizia-lhe ser como a água. Meteu o bico e a língua no líquido transparente, sorveu, desatinou quando lhe queimou a garganta e o papo. Depois veio aquele peso na cabeça, nem conseguia erguê-la, e os danados dos bêbados a rirem. Foi por episódios como este que se evadiu, vindo arribar ao colégio.

Quando, um mês depois da sua chegada ao colégio, o Dr. Melo entrou no gabinete da professora Alda para avaliar os progressos de Jacó, foi recebido com uma saudação muito correcta:

- Bernardiiiiiim! Rouxinol!

Nenhuma palavra inconveniente, nenhuma insolência, apenas o nome de um escritor e a alusão a um episódio do seu admirável livro. O director achou aquilo maravilhoso, mas receando tomar a nuvem por Juno aconselhou pelo menos mais um mês de perseverantes ensinamentos, o que não deixou de agradar à professora Alda, tanta a afeição que sentia pelo papagaio Jacó.

E os ensinamentos proseguiram. Ao fim da tarde, depois de terminadas as aulas, sempre que a professora Alda abria a porta do gabinete que dava para a biblioteca para ali ir procurar alguma obra, Jacó trepava alegremente por todas as estantes e assestava o cristal do seu olho de ave sobre as lombadas dos livros, imaginando pelos títulos as revelações neles contidas. Jacó interessava-se muito por tudo o que se relacionasse com aves, inclinação natural e fora de todo o despropósito. Afinal, ele era uma ave.

Num dia em que a professora lia um poema do poeta brasileiro Casimiro de Abreu,

“Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! Não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!” ,

Jacó ficou muito admirado com aquela ave – o sabiá – de canto tão melodioso, de quem os poetas colhiam tanta inspiração. E como o corvo da fábula, teve o desejo de cantar, de encher os ares de melodias perfumadas. Foram momentos de vaidade e tentação, depressa passaram, porque de um papagaio espera-se apenas um monocórdico palrar, já é bom que o faça de forma limpa, sem palavras torpes e  arremedos deselegantes.

Aconteceu então – estava quase a esgotar-se o segundo período de um mês concedido pelo Dr. Melo para a instrução de Jacó - ter a professora Alda começado a ler uns poemas de Alberto Caeiro, especialmente um deles em que se fala de uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo, ainda por cima com o nome invulgar de Espírito Santo, uma pomba que se coçava com o bico e sujava tudo do alto das cadeiras onde se empoleirava. Essa leitura causou grande perplexidade ao pobre pássaro, pois além de não compreender nada de religião, inclinação que as aves não têm, parecia-lhe absurdo dar um poeta o epíteto de estúpida a uma singela criatura da Natureza, para mais sendo uma ave. Os poetas que conhecera só diziam bem das aves: rouxinóis, sabiás, melros, rolas, andorinhas, até albatrozes, todas eram exaltadas no cantar poético. E estando ele a matutar nisto – nem se imagina do que é capaz a cabeça de um papagaio! – aconteceu entrar no gabinete o Dr. Melo e ser acolhido com um estridente grito:

- Pomba estúuuuuupida!

Calcule-se o efeito arrasador daquele grito. O Dr. Melo, lívido de espanto, dando como certa a recaída do pássaro, nem conseguia articular palavra. Ele que já tinha encomendado um poleiro para ser instalado no alpendre do recreio à entrada da secretaria. Era verdade que não se tratava de uma palavra obscena, dessas que fazem corar as pedras da calçada, mas era uma deselegância que bem poderia levar a outras deselegâncias maiores, à obscenidade declarada, enfim, à subversão de todo o sistema educacional em vigor no colégio. E inquiriu a professora Alda sobre os motivos de tal insucesso, por que razão falhara a pedagogia, que métodos foram ou não foram utilizados na instrução de Jacó.

Tudo piorou quando a professora Alda explicou não ter havido nenhuma falha pedagógica, que a pomba estúpida era de um poema de Alberto Caeiro, grande poeta, embora fictício, que a autoria verdadeira era de Fernando Pessoa, o da ´´Mensagem´´,

´´Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!”,

livro que até ganhou em 1934 o segundo prémio do concurso do Secretariado de Propaganda Nacional. Se ficou em segundo lugar e não em primeiro, foi porque, se calhar, havia outra obra de maior valor... E a tudo isto ia o Dr. Melo reagindo com uma crescente incomodidade. Pediu o livro, e ficou varado. Pois havia livros desses na biblioteca do seu colégio? Que diziam mal da religião e chamavam pomba estúpida ao divino Espírito Santo? Chamasse-se o autor Caeiro ou Fernando, ou lá o que fosse, um tal livro não poderia ficar ali, acessível a qualquer estudante em pleno processo de formação da personalidade. E deu em mandar passar uma revista a todos os livros para estabelecer os que ficavam nas estantes e os que deveriam ser removidos como impróprios para crianças e adolescentes.

Tudo isto causou muito mal à professora Alda, tanto que deu baixa médica e ficou em casa durante semanas, enquanto no colégio prosseguia a obra saneadora do Dr. Melo, estabelecendo um índice de livros proibidos, remexendo as estantes e as gavetas da biblioteca em perfeito delírio inquisitorial. Jacó assistia com perturbação a toda a faina censória. E tinha para ele como muito certo que quando o homem se põe a recear os livros, a temer as ideias, se está investido de algum poder é bem capaz de começar a cometer violências sobre os autores e quem os leia. Muito tinha aprendido Jacó naqueles dois meses de convívio com a professora Alda.

Entretanto, enquanto durava o auto-de-fé sobre os livros da biblioteca, Jacó permanecia no gabinete da professora ausente. Estava sozinho, e havia dias que nem comida lhe levavam. Limitava-se a olhar com infinita tristeza, pela porta entreaberta, o vazio que crescia nas estantes outrora cheias de belos livros, de encadernações esmeradas e lombadas flamejantes. Receoso de qualquer reacção nunca mais abrira o bico. Sentia uma grande saudade da professora Alda e de tudo o que descobrira com ela, a aventura de cada virar de página, a ternura de desarrumar e arrumar um livro numa qualquer estante da biblioteca. E se é que um pássaro pode chorar – essa possibilidade parece não estar contemplada nos tratados científicos! – Jacó chorou por várias vezes, como só uma pessoa pode chorar.

E foi então que decidiu fugir. Ao fim da tarde, apanhando uma janela aberta na biblioteca, subiu ao parapeito e encheu o olho do azul do céu. Respirou fundo, soltou as asas na mansidão da aragem e cego de luz começou a subir na direcção do Sol, cada vez mais alto, até começar a sentir um grande frio que lhe atravessava a plumagem e fazia esquecer o corpo. Pensava apenas, as forças a fugirem, nem sentia os membros. Depois, pareceu-lhe entrar num buraco negro com uma luz forte, ao fundo, que puxava por si, e à qual não conseguia resistir. Sentia-se cada vez mais fraco, mas isso perecia-lhe ser coisa natural. Afinal, nem sequer tinha almoçado.

D.E.







terça-feira, janeiro 24, 2006

FLORES DA ÁGUA


Escusam de procurar que não encontrarão no mapa. Para chegar a Lagroal, àquelas quatro casas que brotam do vale brumoso sobre a linha do rio, é preciso conhecer a geografia local, sair da estrada que segue para o Santuário e descer sempre às curvas por uma via de terra batida que o Inverno torna intransitável. Nenhum problema por isso: ninguém vai no Inverno a Lagroal, ninguém lá mora durante esse tempo – as casas ficam vazias e apenas as cabras se aventuram pelas ravinas a morder o mato.

Quem se meter a caminho e esperar encontrar alguma referência toponímica, que se desiluda. Não há placa, por mais singela que seja, que indique o desvio ou a proximidade do lugar. A única que encontramos é já à chegada, umas tábuas toscas:

CAZA DO LELITO
FRANGO ASSADO E ENTREMIADA
VINHOS DO MILHOR
CAMAS E DUXES QUENTES

A força de Lagroal é no Verão. As casas regurgitam de gente, o Lelito faz negócio com os banhistas da fervilhante praia fluvial, com os que procuram cura para achaques do peito e doenças de pele na rudimentar piscina por onde irrompe a água salutífera: de um lado um muro alto, que serve de prancha de saltos e de mirante, onde se debruçam os que se arredam do banho, do outro uma barreira de tábuas por onde a água transborda para a língua do rio, borbulhante, tal como sai das entranhas da terra.

Vem de longe a fama de Lagroal. Há cem anos ia-se de carroça ou no dorso das alimárias. Chegava-se à improvisada piscina, já então com aspecto semelhante ao que hoje persiste em mostrar, e homens e bestas entravam nas águas para se refrescarem. Os homens iam de cuecas ou ceroulas, as mulheres aventuravam-se de corpete e saiote, ninguém tinha fato-de-banho. Pela hora do meio-dia sentavam-se à sombra dos salgueiros na orla do rio e comiam o arroz de coelho com pão de milho, bebiam da farta pinga e dormiam a sesta. Ao fim da tarde tocava-se concertina e armava-se o baile.

Hoje vêm de carro, matrículas francesas aos molhos, e o estacionamento selvagem sobe pela estrada até ao coruto do monte.

Em Lagroal há histórias curiosas que só são conhecidas dos que se habituaram a frequentar o local. O Lelito, por exemplo, chegou ali num certo Verão com uma mão à frente e outra atrás. Tomou o barraco que herdara de uma tia, meteu-lhe obras, e começou a assar frangos e a vender bebidas. Depois teve a sorte de deitar o olho a uma rapariga roliça que ali passava o mês de Agosto por causa de um problema de desregulação dos fluxos menstruais, que não havia médico que atinasse com o mal, e até já tinha ido a uma consulta da especialidade sem que conseguisse resolver o delicado problema. A moça – chamava-se Magnólia – começou a ajudar o Lelito no assador de frangos. Uma grelha de frangos assados, um mergulho nas águas. Levava assim todo o dia. À noite não se conseguia apurar o que é que fazia, mas dava para perceber que cada vez era mais unha com carne com o Lelito. Curou-se, uma cura surpreendente, e nunca mais se separou do assador.

Uma outra história é a do Padre Ramos, sacerdote ainda jovem, que estava colocado numa paróquia próxima e vinha dar missa campal todos os domingos. Ouvia em confissão, ministrava a comunhão. Eram muitas as almas que procuravam aos domingos o refrigério das águas ou que estanciavam no local durante o Verão, mal acomodadas, pois já se viu que não havia hotel ou mesmo pensão modesta, apenas umas casas que ofereciam umas camaratas, homens para um lado, mulheres para outro. Não se podia deixar essa gente sem conforto espiritual. Só que o Diabo é um tentador – isso já se sabe – e o Padre Ramos foi vítima de tentação. Quem fala do Diabo fala do Demónio, Demo, Satanás, Satã, Mafarrico, Lúcifer, Cornudo, Belzebu, Bode-Preto, Tinhoso, Chavelhudo, Maligno, Mico, Peneireiro, Rabão, Diacho, Coisa-Ruim, Pé-Cascudo, Porco-Sujo, Cão-Tinhoso, Sarnento, Tisnado, Zarapelho, Maldito, Beiçudo, Mofento, Lá-de-Baixo, Diasco, Excomungado, Arrenegado, Tendeiro, Tentador, Brazabum, Mal-Encarado, Tição, Bicho-Preto, Azucrim, Dianho, Anjo Mau, Espírito das Trevas – que tudo quer dizer o mesmo, é só escolher, compreende-se agora como é difícil fugir às ciladas que nos arma, tantos os nomes e disfarces que usa. Pois a tentação do Padre Ramos respondia pelo nome de Margarida, uma moça esperta que cursava Humanidades em Bobigny, na região de Paris, onde vivia com os pais, emigrantes. O Padre Ramos, que sempre tinha manifestado uma grande admiração pela cultura francesa, não resistiu. Casou em França, onde fixou residência, e no Verão costuma vir a Lagroal com a mulher e a prole.

Tudo isso se passou muito antes de D. Rosa, mulher vistosa, ter incendiado a orla do rio com as fulgurações do seu biquini amarelo, e de Alberto, o marido, ter granjeado famas incómodas por consentir à esposa tão magnânima exposição corporal. D. Rosa, a quem faltava qualquer coisa, pensava que a fama sem proveito era algo difícil de suportar. Se davam em ornar a cabeça do marido com excrescências ósseas, ao menos que colhesse ela o proveito, que de nenhum mau passo, até ao momento – não podia falar pelo dia de amanhã! – lhe pesava a consciência.

Mas o caso mais perturbante que se viveu em Lagroal – e que agitou toda a região – teve lugar aí há uns dez anos. Começou a correr entre os banhistas, que lhes dissera o Lelito e confirmara uma senhora que sofria de inchaços nas pernas e era funcionária da Câmara, haver um projecto para desviar as águas de Lagroal para o Santuário a fim de aí se instituir um moderno estabelecimento termal de curas miraculosas. Um arquitecto que pertencia à Obra Divina, uma conhecida organização religiosa, já tinha desenhado os edifícios, as fontes e as piscinas que acolheriam os enfermos em desespero. Chamemos as coisas pelo nome: o Santuário atravessava por essa altura uma arreliadora crise de milagres. Depois dos acontecimentos extraordinários do princípio do século, com danças astrais e chusmas de paralíticos a saltarem das cadeiras de rodas, a força milagreira foi abrandando. Só muito raramente se aludia a um ou outro caso extraordinário obrado por santo milagre, e mesmo assim havia logo médicos que torciam o nariz e davam explicações científicas para os pretensos fenómenos: uma úlcera feia que sarava, um membro decrépito que ganhava o vigor antigo, uma aperto do coração que se sumia. Apesar de tudo, como se pode ver, casos de somenos importância… As águas de Lagroal pareciam ser a tábua de salvação para renovados milagres. E houve quem garantisse que um engenheiro dos Serviços Municipalizados já tinha encomendado as bombas e as condutas para levar a água serra acima. De tudo isto se começou a falar em Lagroal por meados de Agosto, altura em que os frequentadores viviam em pleno as delícias da época balnear. O espanto e a tristeza não podiam ser maiores.

Foi então que em Pomar e Dourém – as cidades mais importantes da região – e até nos aglomerados populacionais mais pequenos como Freixarias ou Caxianda, saltou a indignação popular. Como dizia a propaganda da altura, os povos ergueram-se como um só homem para impedir o roubo das águas. Organizaram-se manifestações junto das câmaras municipais, os funcionários dos partidos políticos pediram esclarecimentos às estruturas concelhias, estas às direcções de distrito, e o assunto subiu aos conselhos nacionais, foi discutido no governo e no parlamento, as televisões apareceram, e começou a falar-se de boicote às eleições que se aproximavam.

Com a ajuda das televisões, os boicotes eleitorais são momentos altos de defesa e afirmação dos direitos cívicos. A receita é simples: toma-se uma corrente com o respectivo aloquete – aloquete quer dizer cadeado, usa-se esta variante lexical para dar um cunho mais elegante à prosa; fecha-se com essas alfaias a assembleia de voto; entretanto, tenta-se deitar a mão aos boletins e urnas para queimar todo o material; a Guarda aparece, ameaça restabelecer a ordem democrática, e é nesse momento que algumas cidadãs fazem frente à corporação policial – está comprovado que é mais difícil os guardas tomarem qualquer acção de força contra elementos do sexo feminino; chegam os repórteres das televisões e então, encenação primorosa, o presidente da junta de freguesia pede aos cidadãos que dispersem para que o direito de voto se exerça em liberdade; aumentam os protestos e o presidente da junta retira-se conformado. É nesta altura que o repórter anuncia que, nos termos da lei, o acto eleitoral será repetido na semana seguinte.

Mas não foi preciso chegar tão longe. O Santuário tinha adquirido, entretanto, novos argumentos para relançar os seus milagres e o povo confirmou o direito às águas. Se calhar puseram-se a fazer contas e concluiram pela inviabilidade do projecto. Talvez tivessem encontrado efeitos nocivos de impacto ambiental, talvez mexesse com as aves migratórias, com as espécies protegidas, e não pudesse beneficiar dos fundos comunitários. Algo aconteceu. Nos tempos que correm nada se faz sem demorados estudos prévios, até os grandes projectos abortam. Para os habituais frequentadores, sem meios para demandarem as praias ou as termas, foi uma sorte. Nem chegou a ser um milagre. Há lá milagre maior que os pequenos milagres da vida que todos os anos têm lugar em Lagroal: o corpo bonito de D. Rosa, na borda do rio, sob o esplendor dos salgueiros; o amor de Padre Ramos e de Margarida; as formas arredondadas de Magnólia com a pele em brasa ao lume do assador. E tantos outros de que nem temos conhecimento. Flores da água. E as curas do corpo e da alma, santuário verdadeiro sobre a língua do rio, três meses felizes de Verão. Para o ano há mais. Todos os anos.
D.E.

domingo, janeiro 15, 2006

AS CARTAS DE MARIANA


Tinha uma gaveta cheia de cartas de amor, maços de folhas manuscritas em caligrafia esmerada, nem sempre igual, o desenho das letras – largo ou contido – graduando a expressão dos afectos, o lume das paixões.

Sabe-se que não se ama sempre da mesma maneira, ainda que a qualquer paixão se associem por natureza a imoderação, o arrebatamento, o despojamento das faculdades racionais em tudo o que se relacione com a pessoa amada. Como andava frequentemente apaixonada, imagine-se o alvoroço da sua vida em risco permanente de se despenhar no insondável precipício dos sentimentos excessivos.

Mariana – assim se chamava. Uma gaveta cheia de cartas de amor que nunca chegaram a ser enviadas. Começou a escrevê-las aí pelos catorze anos, num tempo de manhãs ternas e tardes ensolaradas. Descobrira a centelha que lhe incendiava a alma e só era capaz de se aventurar pela seara da escrita.

Aos dezoito anos os pais comentaram: “A rapariga ainda não namora.” Aos vinte, concluíram: " Por este andar fica solteira.” E no entanto, a gaveta dilatava-se de inflamadas cartas que lhe brotavam naturalmente como uma respiração. E ia lendo Florbela, Camões, António Boto, poetas maiores do sentimento amoroso.

Aos vinte e três anos terminou o curso universitário, e teve de atender os conselhos familiares no sentido de começar a projectar o futuro, de pensar em constituir família, que não era na orla dos trinta que uma mulher devia dar esse passo. Agora que tinha concluído os estudos e já assegurara um estágio profissional, era despachar-se. Sem precipitações, claro, mas quanto mais cedo melhor.

Mariana lia por essa altura as cartas da outra Mariana, a do convento de Beja, dirigidas ao oficial francês por quem irremediavelmente se apaixonara. Eram tão diferentes as suas cartas. Era tão diferente o sentimento que a envolvia. Ou talvez até não houvesse diferença nenhuma – já não sabia ao certo! – o sentimento possivelmente era o mesmo, a diferença estava no modelo de expressão. O seu sentimento parecia-lhe mais profundo, mais verdadeiro, pela dificuldade que tinha em ser assumido.

Nos primeiros tempos de produção epistolar, os escritos de Mariana versavam essencialmente os aspectos afectivos, os desencontros e as separações, a ausência da pessoa amada e o desejo de a ver, de simplesmente a ver – eram cantigas de amor de um trovador moderno. O fogo das paixões agitava-lhe o viço da carne, desassossegava-a, mas havia sempre a ternura e a paz de uma carta que a resgatava do vazio da noite e a apaziguava madrugada fora. Mas isso foi no princípio. Com o passar dos anos, ultrapassado o patamar da adolescência, as cartas de Mariana foram-se tornando copiosamente sensuais, tons de carmim e ocre sobre o azul da inocência perdida.

E Mariana passou a sair muito, a chegar de madrugada, a fazer e a receber muitos telefonemas para acertar encontros e combinar recreios. Os pais observaram: “Deve ter arranjado namorado, já não era sem tempo.” E começaram a insistir com ela para que lhes fosse apresentado o eleito do coração.

Ela continuava a fazer a sua vida, independente, imune à curiosidade familiar, enquanto a produção de cartas se ressentia daquele frenesi vivencial. Passaram-se muitas semanas sem escrever uma única carta de amor.

Veio o tempo de férias e deixou-se arrebatar por nova paixão. Tinha ido sozinha para a praia, o Verão é sempre uma boa estação para amar. Uma paixão de sal, cabelos ruivos e sardas na pele, o amor em língua inglesa. Sarou as feridas da separação com muitas cartas escritas em inglês, a gaveta voltava à sua antiga opulência. Então os pais, que a viam passar mais tempo em casa, disseram: “Anda mais sossegada, era tão bom que esta rapariga assentasse.” Não sabiam nada da vida de Mariana, nunca souberam nada, uma filha que tinham em casa e que era quase como uma estranha. Sentiam que algo lhes escapava, que alguma coisa não estava bem, se ao menos ela arranjasse namorado para casar. Era mais do que tempo, já ia a caminho dos trinta.

E surpreendentemente, numa manhã de inexcedível felicidade, Mariana anunciou-lhes que iria viver com uma pessoa. Uma pessoa que ela amava, e por quem era amada. “Não há casamento?” – perguntaram. “Com casamento era mais bonito” – atreveram-se a sugerir. Que não, que não havia casamento, uma união livre, para durar enquanto durasse o amor. E combinou-se a apresentação: viria jantar no sábado seguinte.

Que azáfama com aquele jantar! Que cuidados postos na preparação dos pratos! O pai caprichou na escolha do vinho, que a um convidado, para mais sendo homem, oferece-se sempre um bom vinho, bebida nobre, néctar de deuses. Finalmente iam conhecer o namorado da filha, o homem com quem ela iria viver e mais tarde casar, isso estava fora de dúvidas, pois a legalização da situação acaba sempre por acontecer, torna-se tudo mais fácil, e depois há os filhos, é sempre bom os pais estarem casados.

Mariana chegou pelo fim da tarde, o rosto afogueado de emoção, os seios túrgidos de palpitações, trazendo pela mão o seu amor. Chamava-se Ana Maria, tinha no olhar um azul de aguarela pura e a boca era uma água límpida de se beber. E valia bem uma carta de amor.
D.E.

domingo, janeiro 01, 2006

RETRATO DE ORFEU COM EURÍDICE EM FUNDO

Alberto é meu amigo vai para vinte anos, desde os tempos em que, recém-licenciados, estagiámos na Direcção-Geral de Contribuições e Impostos. Não me consegui adaptar às funções de técnico tributário para que o estágio me preparava - talvez por prezar demasiado a minha independência e não me conformar com a maquinação de roubos protegidos por lei - mas o meu amigo Alberto, que tinha lido pela cartilha dos melhores mestres em finanças públicas, logrou subir os difíceis degraus da carreira e alcançar um importante lugar à mesa farta do orçamento.

Alberto é um homem positivo. Olha a vida com o seu olho azul de pragmáticas cintilações, aposta sempre - ou quase sempre - nos cavalos certos. Foi bem sucedido na carreira profissional, parecia sê-lo no amor. Mas já lá iremos…

Temos por hábito encontrarmo-nos para jantar a um dia certo do mês, nos dias cinco, excepção feita aos casos em que calhe a data em um domingo, avançando então para segunda-feira o amistoso repasto. A razão desta inoportunidade, que leva ao deslize de um dia na tábua do calendário, prende-se com uma das grandes paixões do meu amigo, que tem justamente em cada domingo o seu tempo de excelência – a caça. Alberto é caçador, um matador de rolas e perdizes, de coelhos e lebres, às vezes mete-se em montarias a dar cabo de veados e javalis.

Num certo domingo, andava eu pelo Alentejo a farejar monumentos megalíticos, os olhos ávidos de dólmenes e menhires, as pernas ainda mais doridas do que daquela vez em que me pus à procura do santuário do deus Endovélico, dou com o Alberto e o seu grupo de caçadores. Ia de escopeta ao ombro, um cinturão de coelhos mortos contra a folhagem do fato camuflado, os monteiros arrastando a matilha pelo trilho de lama da charneca. Rimo-nos do surpreendente encontro naquele recôndito lugar, e ele fez questão de me oferecer dois coelhos cuja carne saboreei no dia seguinte num suculento guisado com muitos chumbinhos à mistura.

Quando me lembro daquele grupo de caçadores, vem-me sempre à memória o filme de Carlos Saura, “ La Caza”, que vi numa sessão especial do Quarteto há um ror de tempo. Acho que foi a partir dessa altura que passei a detestar caçadores e a arrumá-los sistematicamente na mais sinistra gaveta das minhas faculdades judicativas. Excluindo, pela amizade e confiança que nos une, o meu amigo Alberto, a figura do caçador tornou-se para mim sinónimo de violência e falta de princípios éticos; posteriormente, cheguei mesmo a desenvolver uma teoria freudiana sobre a prática da caça, apresentando-a como sublimação do instinto sexual: a espingarda é o membro fálico, o cartucho a massa do sémen, os chumbos os espermatozóides - qual deles vai fecundar de morte o coração das aves e dos outros indefesos animais? O caçador, segundo a minha teoria, padece de um mórbido desinteresse pelo sexo feminino: sai de casa de madrugada, deixando sozinha a mulher, e na companhia exclusiva de homens mete-se pelas matas e charnecas do país profundo a estoirar pólvora e chumbo, elementos agressores do equilíbrio ambiental. Retorna ao lar lá para a meia-noite, bem comido e bebido, depois de dividir a caça e arrumar os cães. Cai à cama que nem uma pedra…

Assim, em cada jantar dos dias cinco, enquanto eu falava da precariedade do meu trabalho de jornalista, que é escrever sobre arte e temas de cultura, coisas aborrecidas de se lerem, o meu amigo Alberto narrava-me o seu último episódio de caça, como aquele em que se confrontou com um javali ferido que investira perigosamente sobre si. E tentava convencer-me de que a caça, como arte ou actividade lúdica, também é cultura, citando-me o “Livro da Montaria” de D. João I como prova da sua ancestral e irrefutável dignidade.

Mas Alberto tem outra paixão, os touros, e aqui também me esmaga, em sua defesa, com o peso de irrefragáveis personalidades como Hemingway ou Federico Garcia Lorca, que sendo homens de cultura e de pensamento também encontraram lugar para amar a festa brava. E recitava-me:

“A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.”

A sua paixão pelos touros levou-o a frequentar uma tertúlia em Vila Franca onde passa as tardes e noites de sábado em ágapes e "tentaderos", além, claro, de não perder uma corrida nocturna no Campo Pequeno e de se deslocar com frequência à Andaluzia e à Estremadura de Espanha para assistir à "fiesta" e gritar olés. Lembram-se de uma manifestação que os defensores dos direitos dos animais fizeram em Barrancos contra os touros de morte? Pois o meu amigo Alberto estava na primeira linha dos contramanifestantes. Tal militância taurina deixou-me desgostoso, até faltei ao jantar desse mês pretextando uma arreliadora gripe de Verão.

Mas de quem eu queria mesmo falar-vos é de Eurídice, a mulher do meu amigo Alberto. Que dizer desta senhora que lhe deu duas filhas que já entraram na universidade? Sempre gostei dela, cada vez fui gostando mais, uma admiração contida que a amizade com o marido não me permitia extravasar. Eurídice tem quarenta anos, um corpinho próprio para a idade e uma cara que, sendo bonita, apresenta contudo reflexos de uma vaga tristeza. Tem uma voz doce, veste-se de forma juvenil, e o peito é ainda pujante de consistência e volumes apelativos. Eurídice começou há pouco tempo a frequentar o ginásio, o que revela que se preocupa com o corpo e com o aspecto físico. Comentei isso com Alberto num dos nossos jantares. Limitou-se a um encolher de ombros.

Como Alberto costuma cantar o fado, que é outro dos seus interesses, dei em chamá-lo de Orfeu, o mítico cantor amante de Eurídice, embora suspeitasse que por ela não desceria o meu Orfeu aos infernos. A vida do casal, sobretudo a partir da altura em que as filhas se fizeram mulheres, tornou-se sumamente monótona.

Cabe aqui referir um singular episódio, numa certa noite, que se passou entre mim e a mulher do meu dedicado amigo. Naquele mês, por força de o restaurante onde costumamos jantar se encontrar encerrado, fez-se o convívio do dia cinco em casa de Alberto. Toda a noite o olhar de Eurídice me abrasou a pele, vinho forte que me queimava a garganta, energia que me deixava tonto, desajeitado. Lembram-se daquele capítulo de “Dom Casmurro” de Machado de Assis – capítulo CXVIII, “ A mão de Sancha”? Pois se fizerem o favor de o ler poupar-me-ão umas boas linhas de narração, porque o que se passou foi mais ou menos como aí se explica, se é que se explica…Foi à saída, um beijo de despedida, e o fogo da mão de Eurídice, que tomou a minha, prendendo os meus dedos durante uma enormidade de tempo. “ Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo; quando cheguei o relógio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão.” – isto dizia Dom Casmurro, também chamado Bentinho, sobre a despedida que lhe proporcionou a mulher do seu amigo Escobar. Saí para a rua, depois de abraçar Alberto, com a sensação de me ter parado a digestão. Doía-me a cabeça, estava aturdido e nauseado. “ Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocámos. Agora achava-lhes isto, agora aquilo. Os instantes do diabo intercalavam-se nos minutos de Deus, e o relógio foi assim marcando alternativamente a minha perdição e a minha salvação.” – Fala à vontade meu velho Dom Casmurro, que também eu senti o lume vivo na mão da mulher do meu melhor amigo; também eu sei aquilo que as mãos e os olhos são capazes de dizer no silêncio irremediável das palavras.

Voltemos ao meu Orfeu, o Alberto, com quem continuo a jantar e a discretear sobre coisas da vida e da amizade aos dias cinco de cada mês, salvo quando se interpõem o império da cinegética, a voragem taurina ou o apelo irreprimível do fado cantado. Na nossa última ceia, assim nomeada com toda a propriedade, pois começou, devido a inadiável compromisso do meu amigo na sua tertúlia de Vila Franca, já perto das onze horas da noite, tive uma notícia inesperada: Eurídice havia saído de casa. Tinha instruído as filhas de todos os quês e porquês da sua evasão: a monotonia da vida conjugal, a preterição a que estava sempre sujeita diante das paixões fortes do marido. As miúdas compreenderam tudo, até a apoiaram. O mais doloroso é que Eurídice tinha fugido com um qualquer Aristeu que andava lá pelo ginásio a fazer musculação. Ia para duas semanas que Alberto não lhe punha a vista em cima, apenas tinha falado com ela ao telefone, tendo-lhe sido dito que estava no Algarve e que como o tempo estava bom não pensava regressar tão cedo. Aparentemente parecia que Alberto tinha aceitado o revés com naturalidade, pois não alterou o seu ritmo de vida e nem se preocupou em descer ao Algarve infernal para a resgatar. Em verdade, os dias de hoje já não têm nada a ver com o tempo dos mitos…

Mas as semanas foram passando e a insegurança começou a instalar-se na tranquila existência do marido abandonado. A casa converteu-se numa grande desordem, porque a empregada doméstica, com a quebra da cadeia de comando propiciada pela ausência da patroa, ia descurando o cabal cumprimento dos seus deveres laborais: os aprovisionamentos e a cozinha não funcionavam, a limpeza vacilava, o serviço de roupas atrasava-se. Começaram a faltar camisas nos cabides do guarda-roupa, cuecas e peúgas nas gavetas da cómoda. Na despensa e no frigorífico as vitualhas estavam reduzidas a um mínimo de sobrevivência.

Alberto reconheceu o caos e ao cabo de um mês chamou Eurídice. Ela regressou magra, tisnada de sol e fogo, com o mesmo sorriso triste, mas não pediu perdão nem se arrependeu de nada. E nada mudou na vida do casal.

Deito os olhos ao calendário. O próximo dia cinco calha a um domingo, e por essa razão o meu jantar com Alberto fica para segunda-feira. Nem poderá ser de outra forma, ainda por cima agora que acaba de abrir a época de caça.


D.E.