terça-feira, agosto 01, 2006

CASO Nº 47

CAVALHEIRO DE 38 ANOS, SEXUALMENTE IMPOTENTE, BOA CONDIÇÃO SOCIAL E ECONÓMICA, PROCURA SENHORA FRÍGIDA, AINDA JOVEM, PARA RELAÇÃO DE CONVÍVIO. ASSUNTO SÉRIO. RESPOSTA AO TELEFONE Nº …
Ela acabara de ler o anúncio no jornal da manhã naquela página onde se publicitam serviços de massagens eróticas, vibradores certificados com a marca CE, pomadas cuja aplicação regular faz aumentar o membro fálico em pelo menos dois centímetros e meio, além da oferta pessoal de uma grande variedade de serviços: jovens universitárias que se propõem alegrar a vida monótona de casais, loiras e morenas desinibidas que vão a hotéis, homens dotados que recebem em casa com discrição absoluta. Sorriu. Por uns instantes ficou pensativa, tirando os óculos de ler que poisou sobre a secretária. Depois ergueu os olhos na direcção de um calendário de parede, compulsando a sucessão dos dias da semana: quarta-feira um congresso, quinta um seminário, sexta à tarde aulas na faculdade. E foi então que se pôde ver, com a luz artificial que jorrava do tecto a bater-lhe no rosto, como era bela. Chamou uma assistente de confiança e pediu-lhe para recortar o anúncio. Em seguida levantou-se, dirigiu-se a um móvel de arquivo em cujas gavetas, entre separadores, se guardavam diversos dossiês. Aproveitemos agora que está de pé para lhe apreciarmos a figura: estatura mediana, cabelos curtos, pernas bem torneadas, braços longos, volumes generosos no relevo do busto. Trinta anos, talvez. Vemo-la voltar à secretária com um dossiê na mão. Deixemo-la a ler.
Vamos encontrá-la uns dias mais tarde à mesa dum restaurante rumoroso, à hora do almoço, conversando com um sujeito bem apessoado que parece ser um pouco mais velho. Se não fosse a sobreposição de vozes e o tinido das loiças, os brados que os empregados lançam para a cozinha, poderíamos ouvir melhor a matéria da conversação. Percebe-se no entanto que falam do anúncio, que ele é o cavalheiro de trinta e oito anos impotente e de boa condição social e económica, e que tem lugar ali, naquela hora, o encontro agendado pelo anunciante. É preciso que se conheçam melhor. Deixemo-los falar à vontade, tanto que devem ter para dizer um ao outro, tão delicada que deve ser a substância do diálogo.
Para um casal se conhecer, um fim-de-semana à beira-mar pode ser uma excelente oportunidade. Mesmo em situação tão especial como esta em que ele se assume como sexualmente impotente e ela se dá como declaradamente frígida, pelo menos assim parece, de outra forma não teria respondido ao anúncio. Mas tratando-se em ambos os casos de pessoas sérias, animadas de honestos propósitos, como entretanto se apurou e desde já fica lavrado em acta para que conste, tudo deverá correr da melhor forma. Tenhamos fé.
A reserva no hotel foi feita para duas noites: de sexta para sábado e de sábado para domingo. É a hora de jantar. Um jantar de duas pessoas que, apesar das limitações assumidas ou apenas conjecturadas, parecem já sentir uma certa atracção recíproca pode muito bem começar com uma entrada de ostras acompanhadas de Murganheira bruto branco, vinho espumante natural excelente para deglutir marisco e peixe de todas as espécies. Depois virá um prato de salmão fumado com espargos verdes em molho tártaro. Terminará em beleza com uma sobremesa de manga salpicada de vinho doce malvasia. Tudo escolhido por ela, até parece uma ementa erótica. É então que passearão pela orla da praia. Talvez dêem as mãos, coisa natural entre um homem e uma mulher que começam a estimar-se, e provavelmente subirão para o quarto já depois da meia-noite. Antes ainda tomarão no bar um batido de chocolate gelado.
O que poderá ser dito sobre a noite deste casal? Que nenhuma angústia os assediará no momento em que, despindo as roupas, se prepararem para ir para a cama. Ele não terá de lhe provar nada, nenhum medo de falhar o desempenho sexual lhe toldará, obsidiante, a serenidade da noite. Poderá beijá-la e palpar-lhe os seios, coisa que até um homem impotente, cremos, é capaz de fazer com gosto. E ela não pedirá nada que ele não lhe possa dar. Talvez se comprima de encontro aos músculos do seu corpo e aspirando o perfume de homem adormeça tranquilamente num abraço de estátua. Mas não se insista nestes pormenores íntimos. Respeitemos a privacidade de cada um.
Sabe-se que no dia seguinte, sábado, a manhã ia adiantada e o casal não descia para tomar o pequeno-almoço. Meio-dia, uma hora, duas, duas e tal, e da recepção telefonam para o quarto informando que a sala de refeições ia encerrar dentro de meia hora, perguntando se desciam para almoçar. Mandaram subir o almoço ao quarto. E só de lá saíram já noite fechada, para comerem umas sandes e beberem um sumo, voltando de imediato ao aposento terminada que foi a frugal refeição.
Não se pense ser fácil de entender uma situação como esta. Um homem sexualmente impotente e uma mulher que, segundo parece, é frígida fechados num quarto de hotel há trinta e seis horas, apenas uma curta saída para comerem umas sandes, sem que se conheça motivo especial que ali os detenha. Tanto tempo fechados e um fim-de-semana com tanto sol. Só pensam em cama, Nem põem os pés na praia, Bem boa é ela e tem cara de quem gosta – isto são comentários dos empregados da recepção, triste gente que não sabe o que diz e só pode conjecturar, embora tenha havido quem, para não falar à toa, fosse encostar o ouvido à porta do quarto, colhendo da deselegante investigação confirmações absolutas, certezas inamovíveis, verdades de fazer brilhar os olhos.
É certo que sairão do quarto sobre as quatro da tarde de domingo, depois de a responsável pela limpeza ter telefonado a pedir a desocupação, pois tinha de preparar as instalações para os novos hóspedes que chegariam nessa noite. Peço imensa desculpa mas façam o favor de sair. Era pessoa educada, dá para perceber, não tem nada a ver com os colegas da recepção, trabalhadores de hotelaria sem formação profissional, situação inadmissível num estabelecimento de quatro estrelas, ainda por cima com tantos clientes estrangeiros. Sairão pois um pouco comprometidos, arrastando as bagagens, esgalgados, olheiras como vírgulas no discurso de longas horas. Passarão pela recepção para fazerem o check out sob o olhar ávido dos empregados que irão observá-los minuciosamente, invejando o sortudo, e a ela comendo-a com os olhos, procurando descobrir-lhe as peças da roupa interior sob a transparência do vestido, carregando as baterias das fantasias para uso oportuno, que pode ser já nessa noite quando voltarem a casa e se depararem na cama com a mulher de carnes flácidas ou menos favorecida pela formosura. O que um homem infeliz tem de fazer para cumprir com os deveres conjugais… Vê-los-emos ainda passarem pelo restaurante e pedirem uns bifes, preparando-se para abater a fome do dia, que a outra fome, de meses ou anos, não sabemos ao certo, já houve quem dela encontrasse alívio.
É segunda-feira. Podemos vê-la agora no seu gabinete de trabalho com o fim-de-semana ainda na memória. Está sentada à secretária diante do ecrã do computador. Mexe nas teclas, dá uma ordem de impressão. Extrai da impressora a folha que vai servir de frontispício a um dossiê que acaba de abrir e onde se pode ler:

FACULDADE DE PSICOLOGIA CLÍNICA

DRA. SANDRA CLÁUDIO

DEPARTAMENTO DE INVESTIGAÇÃO APLICADA
EM
IMPOTÊNCIA SEXUAL MASCULINA

TERAPIA
ATRAVÉS DE
ENVOLVIMENTO SEXUAL
COM OS PACIENTES

EXPERIÊNCIAS BEM SUCEDIDAS:

CASO Nº 47


Durante alguns minutos faz algumas anotações nas páginas do dossiê. Passa as mãos pelos cabelos, desenha um sorriso entre a melancolia e a satisfação. Talvez esteja um pouco confusa, com os sentimentos ligeiramente desordenados. Em seguida consulta a agenda de mesa e é quando repara que terá de almoçar mais cedo: tem uma sessão de terapia marcada para as três da tarde.


D.E.

sexta-feira, julho 28, 2006

foto JN
Não sei se ela apenas olha
as ruínas das casas
os sulcos
que se abrem no chão à força
da charrua das bombas
ou se procura
em alguma memória
de outra vida distante
a tranquilidade do mar
as frescas florestas de cedros
os pássaros que em pleno Verão
riscavam a alegria dos dias
no céu da cidade

Talvez da janela
aberta como uma ferida
ela não veja mais
que o reflexo da parede
trespassada de fogo
e ao coração ainda puro
ignorante da raiz dos destroços
não reste senão
para memória futura
a poeira do tempo parado
de onde nascerá o ódio

D.E.


domingo, julho 23, 2006

A ARTE DE BEIJAR

Não sabes beijar, disse-lhe ele, sacudindo-a de cima de si para a borda da cama. Era noite, um feixe de luar atravessava a janela aberta que dava para um pátio onde àquela hora, em pleno Verão, ainda brincavam crianças. Ela deixou-se ficar quieta durante algum tempo, olhando o jorro de luz que lhe iluminava o corpo. Depois levantou-se com muito cuidado para não acordar o companheiro que entretanto adormecera e foi sentar-se na pequena sala de estar a ver televisão. Passava um filme romântico, um casal que se beijava num grande jardim que lhe pareceu o Central Park de Nova Iorque, isto porque acima das copas das árvores erguiam-se, enormes, as colunas de cimento dos edifícios urbanos. Um filme americano. Pôs-se a estudar a forma como os amantes se beijavam: a inclinação dos eixos das cabeças, a abertura dos lábios, a maneira como prendiam as mãos ou como as soltavam em brandas carícias de amor. Beijar sempre se lhe parecera uma coisa natural, uma manifestação de afecto desprovida de qualquer grau de ciência, algo que nos vem da alma como a luz nos entra pelos olhos. Mas agora chegava à conclusão que, em verdade, deveria haver uma maneira certa de beijar, bastava dar conta da forma como o faziam os amantes do filme. Tinha de aprender a beijar, o mais depressa possível.

Na manhã seguinte, no escritório, recordou-se das dificuldades profissionais que inicialmente tivera. Dissera-lhe o chefe, um dia, Você se não aprende a trabalhar com o computador não vai ver o seu contrato de trabalho renovado. E ela metera-se a estudar à noite naquela escola de informática do bairro, um curso de cem horas, dez semanas – Windows, Excel, Internet. Salvou o emprego. O que agora precisava para salvar a relação amorosa era de aprender a beijar. Mas escolas para aprender a beijar não conhecia. Uma colega tinha andado a frequentar um curso de etiqueta, outra aprendera dança do ventre, sabia de quem tivesse cursado arte de dizer, decoração de mesas, como receber visitas e organizar recepções, mas sobre a arte de beijar não conhecia nenhum curso em cujas aulas pudesse inscrever-se. Passou a ver os filmes da televisão e as telenovelas com maior atenção, e parecia-lhe que alguma coisa ia aprendendo com eles. Só que na prática não via confirmados os progressos que pensava estar a fazer. O companheiro continuava a achar uma sensaboria os beijos que ela desentranhava para o fazer feliz, negando-lhe a boca que ela tanto procurava.

Lembrou-se então daquele seu grande amigo de infância com quem tinha vivido as inocentes brincadeiras de criança. Perdera-lhe o rasto na adolescência, quando a família dele se mudara para outra cidade, mas viera a reencontrá-lo mais tarde, acabado de sair de um divórcio muito traumático. Decidiu telefonar-lhe. Da mesma forma que, na altura, o encorajara a superar o difícil transe que ele atravessava, podia agora esperar a ajuda que só um amigo pode dar, o conselho, a orientação, tanto mais que se tratava de pessoa com experiência adquirida no domínio dos desacertos amorosos. Encontraram-se. O amigo ouviu-a com interesse, os olhos brilhantes. Segurou-lhe uma das mãos como quem transmite uma força, e passando-lhe um dedo no recorte da boca, disse: Vou ajudar-te. Como?, perguntou ela, pressentindo uma resposta que não podia conhecer antecipadamente mas que depois de dada compreendeu ser a única possível: Vou ensinar-te a beijar.

Começaram em casa dele, ao fim da tarde, seguindo um programa de formação minuciosamente estabelecido, com uma clara definição dos objectivos a atingir. Primeira sessão, só beijos de lábios. Depois, nas sessões seguintes, as aulas práticas progrediram em exercícios de dificuldade acrescida, trabalhando com a língua e os dentes, misturando secreções salivares, beijos sôfregos e de cortar a respiração. Por hoje chega, dizia ela, preparando-se para retocar os lábios com um batom que tirava da mala de dentro dum estojo de que fazia parte um pequeno espelho. Era sempre ela a pedir o fim da sessão. Ele, por sua vontade, continuaria. Voltavam no dia seguinte. Como fazia muito calor começaram a aliviar-se das roupas para uma execução menos penosa do trabalho: ele tirava a camisa, ficando nu da cintura para cima, e ela despia a blusa deixando apenas o sutiã. Os teus beijos são já tecnicamente perfeitos, disse-lhe ele de certa vez, É a altura própria para passarmos a práticas pedagógicas mais exigentes. E começaram a combinar beijos com carícias: enquanto as bocas sorviam ou mordiam furiosamente, as mãos soltavam-se sobre os corpos, tocavam as zonas erógenas, metiam-se sob o pano das roupas à procura de ocultas delícias. As sessões tinham lugar muitas vezes sobre o tapete da sala, na horizontal.

Não é possível saber quando terminaram exactamente as sessões, o momento em que o formador deu por concluída a formação ou mesmo a altura certa em que formanda sentiu já estar formada em arte de beijar. Também não é possível determinar se ele se limitou a ensinar-lhe a matéria inicialmente proposta ou se se terá alongado por artes e conteúdos extra-curriculares. Sabe-se sim que ela se tornou outra mulher, mais segura, mais ardente e confiante nas suas capacidades.

Sabe-se ainda que em certa noite, já no fim do Verão, estando ela deitada com o companheiro naquele mesmo quarto onde havia uma janela que dava para um pátio, ele se aproximou, tendo começado a beijá-la. Coisa estranha, talvez se tratasse dum apetite passageiro originado por algum estímulo inesperado. Ela não disse nada, mas pensou, enquanto se abandonava quase indiferente àquela surpreendente manifestação de afecto, que afinal era ele que não sabia beijar.

A noite estava fresca, já não se ouvia a algazarra das crianças brincando, só lhe apetecia dormir. E nenhum raio de luar atravessava a janela do quarto para iluminar o seu corpo.

D.E.

sexta-feira, julho 21, 2006

LER NA AREIA

O Leitor, de Bernhard Schlink.

Um romance sobre a descoberta do amor, o fascínio dos livros e a vergonha dos campos de extermínio do nazismo. Uma leitura densa de emoções e prazer. Um olhar sobre a História e o Direito. Um romance para se ler agora, no momento em que o fundamentalismo islâmico procede à revisão em baixa do número de vítimas do Holocausto – como se a diferença, por maior que fosse, pudesse alterar a expressão da monstruosidade. Um romance para se ler neste tempo, quando a Palestina e o Líbano estão a ferro e fogo e não é fácil compreender de que lado está a razão, se é que ela está em algum dos lados.
D.E.

sábado, julho 15, 2006

VOLTANDO AO MESMO




LYGIA!





ISTO COMEÇA A TORNAR-SE FIXAÇÃO DOENTIA.






VER AQUI:
www.gargantadaserpente.com/450/poemas/246.shtml

Sobre LYGIA FAGUNDES TELLES - "AS HORAS NUAS"

SEI APENAS AQUILO QUE UM GATO PODE SABER. Mas digo que para entender a alma duma mulher não chega às vezes a vida dum homem. Nisso terei eu algumas vantagens com as minhas vidas múltiplas: compreender uma mulher como esta, dona de mim mesmo, que me mandou castrar para que fosse só seu e de mais ninguém – Rosa, Rosa Ambrósio, Rosana, actriz que pisou os palcos da glória, agora um pouco envelhecida, ainda por cima alcoólatra, ou alcoólica, nem a terapia lhe tem valido. Rosana perdeu homens: Miguel, o primeiro amor, chamado na juventude ao convívio dos deuses; Gregório, o legítimo, embora já dormissem em camas separadas, levado por um enfarte que foi um suicídio; Diogo, o secretário, muito mais novo do que ela, saído da sua vida pelo próprio pé. Por isso vive quase só, comigo e com uma empregada, a Diú, já que com Cordélia, a filha, não pode contar. Cordélia, uma jovem com uma singular atracção por homens velhos, todos na casa dos sessenta, velhos perversos a quem falta o vigor e a honestidade do amor juvenil. Minha filha, coitadinha, não deixe que eles se babem sobre as suas carnes, não permita que façam porcarias consigo – mas isto não sou eu que digo, é uma dor que Rosana tem dentro de si, é um grito dela. De todos os amantes só Diogo sabia declinar-lhe o nome: ROSA ROSAE. Talvez por isso tenha sido tão custosa a separação.

Rahul. Rahul é o meu nome. Já tive vidas de gente, já fui menino numa moradia de venezianas verdes, ou de persianas verdes, vivi um singular episódio de amor numa casa com átrio, peristilo e um jardim florido onde havia uma mesa com tampo de mármore e pés de bronze imitando patas de leão. Outras eras. Vestia uma túnica e era jovem. Hoje sou uma bola de pêlo com patas almofadadas, língua rugosa, um sexo inexistente e estes olhos da alma atravessando os tempos.

Ananta Medrado, trinta e um anos, virgem, é a psicanalista que assiste Rosana. O cavalo do desejo à desfilada no corpo, ou no andar de cima onde habita um misterioso vizinho, ou dentro da alma, lugar onde acontecem tantas coisas que não sabemos explicar. Quem poderia imaginar ao vê-la assim com a sua bata de médica, sentada no consultório à cabeceira do divã, tratando a minha dona – uma diva no divã – fazendo correr o rio das palavras na memória dos afectos perdidos? Ananta desapareceu e nunca mais foi encontrada, o assunto está na Delegacia das Pessoas Desaparecidas. Um problema. Não, um teorema. Um teorema é um problema onde metemos Deus: teo + rema. Isto dizia Gregório, o meu dono, um ataque cardíaco que foi suicídio. Ananta desapareceu para se refugiar em algum lugar a domar o cavalo bravo do desejo, trinta e um anos, ninguém a castrou, isto é o que pensa Rosana, a minha dona.

Tenho saudades de Gregório. Antes de Rosana desfazer as estantes e dar sumiço nos livros ainda vinha pela noite visitar o refúgio da biblioteca. Eu deitava-me na transparência das suas pernas, ronronando a minha asma como uma chaleira fervente, e mesmo assim parecia que me sentia e afagava-me o dorso peludo com a nuvem da mão. Depois desapareceu de vez. Tenho saudades de Gregório, tenho saudades de tudo o que fui. Hoje sou um simples gato saído de um livro para falar de uma história.

Uma história? Nem tenho a certeza.

D.E.

domingo, julho 09, 2006

FUTEBOL E "RAPARIGA COM BRINCO DE PÉROLA"


A princípio não quis levar aquilo a sério: era um jogo a feijões, para um prémio de consolação… Mas depois vi que estavam lá o Presidente da República, uma primeira dama de circunstância, o Chefe do Governo – estes os que mereciam maior visibilidade mediática – e, na penumbra, creio, ministros e ajudantes de ministros, deputados e directores-gerais, tudo gente que se senta à mesa do orçamento e está acostumada a lidar com a vertigem do transporte aéreo com a mesma naturalidade de quem apanha o autocarro para a Buraca. E todos, pelo menos os que eu via, cantavam o hino nacional a plenos pulmões. Foi então que dei importância ao assunto. Mandei vir uma imperial e uma embalagem de amendoins e dispus-me a assistir ao confronto – havia um magnífico ecrã na zona de restaurantes do centro comercial, sempre era melhor do que ver em casa.

Atravessei estoicamente a primeira parte do jogo. Meditei, ao intervalo, nos feitos heróicos dos filhos de Luso. Desisti aos sessenta minutos, quando aquele jogador português com nome gálico confundiu a nossa baliza com a do adversário.

Disse-me depois o empregado de um café, na Avenida de Roma, que ainda tínhamos levado mais uma estocada, mas que um valoroso patriota de nome Nuno tinha aberto um rombo no último reduto do adversário. O Nuno, perguntei, o que tem sido sistematicamente preterido em favor de aquele açoriano que costuma correr atrás de bolas de queijo flamengo? Esse mesmo, respondeu-me o profissional de hotelaria e serviços similares, jogou apenas meia dúzia de minutos mas fez tanto quanto o outro que andou horas e horas a arrastar o canastro pelos relvados luxuosos da Alemanha.

E lembrando-me dos altos magistrados da Nação, todos de hino na boca e patriotismo a transbordar do peito, suspensos das duras tarefas da governação, vendo cair os nossos naquela jornada inglória, vieram-me as lágrimas aos olhos e aos lábios aquelas palavras do grande Luís de Camões sobre a austera, apagada e vil tristeza em que se metera a Pátria. A sua Pátria, a nossa.

Dei comigo numa sala do Quarteto, na sessão das dez, a espairecer. Na plateia éramos só dois, imagine-se o prejuízo daqueles pobres empresários… Mas para mim foi o melhor da noite: Rapariga com brinco de pérola, de Peter Webber, com a esplendorosa Scarlett Johansson e, em fundo, a pintura de assombro de Johannes Vermeer.


D.E.

sexta-feira, junho 30, 2006





Jorge Luís Borges está sentado num banco de jardim no Alto de Santa Catarina, diante da estátua do Adamastor, naquela posição que lhe é bem conhecida: o tronco erguido, a cabeça levantada, as mãos apoiadas no cabo da bengala. Tem do seu lado esquerdo Ricardo Reis, que segura a maleta de médico, desconhecendo-se se guarda nela as ferramentas da arte de Hipócrates ou se a usa para acomodar os seus escritos de poeta: odes sáficas e alcaicas, que o mesmo é dizer feitas à maneira de Safo e de Alceu, génios gregos, inspiradas nas musas Lídia, Cloe e Neera; Marcenda, outra musa, viria mais tarde. À direita do argentino senta-se uma figura menos conhecida: Herbert Quain, irlandês, autor, entre outros, do livro The god of the labyrinth, edição de 1933, um romance policial no género dos de Agatha Cristhie.

Por que razão ou desígnio se juntaram naquele local tão distintas personagens, é matéria que o narrador não sabe explicar. Sabe que, embora mortos, vieram os três por caminhos de vivos, por estradas e aeroportos, andando nas ruas, apanhando transportes públicos, pois não são fantasmas de atravessar paredes ou de esvoaçar em lençóis, muito menos de arrastar correntes. São espectros civilizados, que se movem pacificamente entre os viventes, sem nenhum estrépito, poupando-os a todo o assombro ou tribulação. Borges, veio de Genebra, do cemitério de Plainpalais; Reis, do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, em cujo túmulo lhe dá guarida Fernando Pessoa; Quain, de Roscommon, na Irlanda. O banco onde se sentam ostenta um letreiro com um prudente aviso: PINTADO DE FRESCO. Ainda bem, assim não se sentará nenhum passante onde já estão acomodados estes viajantes do tempo. E depois, não consta que se agarre a tinta das pinturas à roupa dos que já não são, como se neste lugar o Ontem pudesse ser o Hoje, o Ainda, o Todavia, tudo segundo o que pode ser lido e relido no citado Borges, poema O Tango.

- Ó Fernando António – disse Borges – alegro-me que tenha vindo. É sempre bom poder falar consigo.

- Por favor não me chame Fernando António – replicou Ricardo Reis vivamente incomodado – não tenho nome de santo da Cristandade…

- Você é um cómico, meu caro Fernando – insistiu Borges – essa sua mania de se mascarar, essa sua ideia peregrina de nos fazer crer que é sempre o outro e nenhum… Homem, assuma-se. Agora que está morto e bem morto, liberte-se de vez do labirinto em que se meteu em vida.

Ricardo Reis remexeu-se nervosamente na tábua do assento.

- Labirinto deve ser consigo. Não foi você que inventou essa figura de papel que está aí desse lado? O pretenso autor do livro The god of the labyrinth? Olhe que cheguei a pensar que a obra tinha existência real…

- Meu caro Fernando, veja bem o que diz, olhe que o Herbert é muito sensível. Ainda bem que ele não compreende o português…

- Volto a dizer-lhe que não me chamo Fernando. O meu nome é Ricardo Reis, nasci no Porto em 1887, estudei medicina, estive exilado no Brasil, morri em Lisboa em 1936…

- Ó Fernando, que eu saiba o único heterónimo que você matou foi o Alberto Caeiro, em 1915, coitado, ainda tão novo, apenas com vinte e seis anos… Não me consta que tenha dado um fim ao Reis ou mesmo ao Campos.

Proferira estas palavras em tom de grande ironia, deixando exasperado o poeta das Odes.

- Leia Saramago, o meu último biógrafo, e verá. Se calhar não leu, não podemos ler tudo… Ou será despeito seu por nunca ter recebido o Nobel? Ah! já me esquecia, você é cego. Os cegos não lêem, embora, caso curioso, possam ser directores de bibliotecas… De bibliotecas cegas, foi você que o disse… No entanto, pelo que sei, não lhe faltaram os olhos dos outros para fazer as suas leituras.

Borges acolheu com bonomia as alfinetadas de Ricardo Reis. Dirigiu o rosto na direcção da estátua do Adamastor, pensativo, como se escrutinasse nas gavetas do tempo uma memória antiga. Trocou umas palavras incompreensíveis com Herbert Quain, possivelmente em algum dialecto celta, e virando-se para Ricardo Reis falou assim:

- Uma coisa acho extraordinária em si, meu caro Fernando. Bem, não será a única, mas é uma delas, e muito importante, que sempre me deu que pensar. É que você tenha tido a pretensão de se constituir em émulo de Luís de Camoens…

- Luís de Camões – emendou Ricardo Reis, já conformado com a maneira como sistematicamente era nomeado por Borges.

- Eu digo Camoens. Nunca assimilei convenientemente o vosso vocalismo nasal. Sabe bem que a minha língua materna é o inglês, o castelhano veio mais tarde… Mas adiante: você escreveu a Mensagem como quem escreve Os Lusíadas do século XX. Falou do Bandarra, não esqueceu o Conde D. Henrique nem D. Tareja, mas sobre Luís de Camoens nem uma palavra. A isso chamo eu uma omissão histórica. E voluntária. Além disso, há uma diferença entre as duas obras: o grande épico recebeu por Os Lusíadas uma tença anual de quinze mil réis, atribuída pelo rei de Portugal, e você com a sua Mensagem não foi além de um segundo prémio do Secretariado de Propaganda Nacional do António Ferro, um intelectual que era funcionário do regime, o maior admirador de Salazar. Depois, lembrei-me disto há pouco, você nem fala do Adamastor. Camoens dedica-lhe vinte e quatro oitavas no Canto V, tanto como cento e noventa e dois versos; você na Mensagem alude a um Mostrengo, e resolve o assunto de uma penada, em três estrofes de nove versos… Ora o seu Mostrengo não tem nada a ver com o Adamastor do nosso grande épico. Digo nosso, repare bem, porque me correu nas veias o sangue português. Não sei se sabe, mas sou descendente dos Borges de Torre de Moncorvo. Até tenho uns versos feitos aos meus antepassados,

Nada o muy poco sé de mis mayores
Portugueses, los Borges: vaga gente
Que prosigue em mi carne, oscuramente,
Sus hábitos, rigores y temores…

- Já conheço, escusa de se dar ao trabalho de continuar – atalhou Ricardo Reis.

Borges levantou-se, e um pouco inseguro, batendo com a bengala como se procurasse orientação, foi até junto da estátua do Adamastor. Deteve-se ali durante uns minutos – se é que é possível falar de minutos, ou mesmo de outra unidade de medida, para exprimir o tempo dos que não existem –, a boca entreaberta de admiração, os olhos vagos postos na massa de pedra do Gigante. Era essa a visão do estatuário: o Adamastor apaixonado, sofredor, que revelara a Vasco da Gama o seu amor por Tétis, o sentimento não correspondido. Não serve ao amor de uma ninfa a fealdade de um gigante – verdade tardiamente entendida pelo titã. E foi assim que tendo surgido assustador sobre a minúscula nau, figura robusta e válida, pressagiando naufrágios e perdições de toda a sorte, se apartou de ante os olhos do Gama em medonho choro, esmagado pelo sofrimento de quem não é servido pelo amor.

Quando voltou para o seu lugar no banco, junto dos companheiros, estes conversavam em inglês sobre o modelo de desenvolvimento da Irlanda, país pobre que se tornou rico, e que bem poderia ser um exemplo para Portugal…

- Só quem amou poderia falar assim do Adamastor – disse Borges. Mas nem Reis nem Quain, enredados na sua conversa, compreenderam o que queria dizer.

Calaram-se finalmente quando o ouviram recitar um poema.

A LUIS DE CAMOENS

Sin lástima y sin ira el tiempo mella
Las heroicas espadas: Pobre y triste
A tu patria nostálgica volviste,
Oh capitán, para morir en ella
Y con ella. En el mágico desierto
La flor de Portugal se habia perdido
Y el áspero español, antes vencido,
Amenazaba su costado abierto.
Quiero saber si aquen de la ribera
Última comprendiste humildemente
Que todo lo perdido, el Occidente
Y el Oriente, el acero y la bandera,
Perduraria (ajeno a toda humana
Mutación) en tu Eneida lusitana.

Foi então que um vento inopinado tomou conta das copas das árvores. No banco em frente foram pelo ar as folhas de um jornal que era lido por dois idosos. Saltou o boné da cabeça de uma criança. Brilharam as coxas de uma rapariga debaixo da saia esvoaçante. Um sem-abrigo que fumava uma beata engasgou-se com o fumo e teve um ataque de tosse. Dois namorados que se beijavam junto à grade do miradouro vieram abrigar-se no pequeno bar do jardim. Num automóvel estacionado no largo disparou-se o sistema de alarme.

E houve quem visse dois grandes rectângulos de papel elevarem-se no céu sobre as casas que descem para o rio.

Borges está agora sozinho no banco.

Um dos idosos a quem o vento arrebatara o jornal, tocou no braço do companheiro e disse:

- Está ali um tipo que parece cego. Olha, vai levantar-se… Vamos perguntar-lhe se precisa de ajuda para atravessar a rua.

Diga-se porém que nada do que o idoso viu pode ser considerado seguro. De resto, nem é seguro que ali tivessem estado os dois idosos, e que o vento lhes tivesse levado o jornal, e que houvesse um banco de jardim com um letreiro a avisar que estava pintado de fresco.

D.E.

sábado, junho 03, 2006

O DESCONCERTO DOS AMANTES

Serena está deitada de costas na cama, a cabeça sobre as mãos numa nudez irrepreensível que me magoa os sentidos. Recorta-se a linha do corpo contra o cetim da colcha, o prodígio dos seios, a pele muito branca, o tufo de sombra dos pêlos púbicos. Faz-me mal vê-la assim, como um nu deitado de Modigliani fora do tempo e do espaço, sorrindo e entreabrindo as coxas como se se preparasse para os delírios do amor. Pela persiana que não está completamente fechada entra no quarto uma fresta da luz da tarde… Mas nada disto que vejo tem existência real. Serena não está comigo, deixou-me há muito tempo. Saiu de casa dominada por um inesperado desencantamento, e dela conservo na memória estas imagens que projecto como holograma no espaço vazio do meu quarto. Vejo-a sempre assim desde o dia da sua partida. Todos os dias.

Não foi paixão, disse-me, não passou tudo de uma grande admiração que me tomou, uma errada percepção de sentimentos, um turbilhão de ideias desordenadas. Pensava ser amor, mas afinal era apenas deslumbramento. Cegou-me a tua luz, fragilizei-me, mas agora que habituei os olhos a esse fulgor já sou capaz de compreender a verdadeira expressão do que sinto.

Subo a persiana e encho o espaço do quarto de claridade. Serena volta-se de bruços, como se a luz e o ar quente da tarde lhe causassem incómodo ou apenas quisesse subtrair o rosto à observação dos meus olhos. Vejo-lhe as ancas e o anel da cintura, os ombros estreitos, o torneado das nádegas e das pernas.

Já não te sinto, disse-me, não consigo viver com este afecto mudo, como se me bastasse o teu olhar para saber que me amas.

Senta-se na borda da cama e faz tenção de começar a vestir-se. Toma as roupas que jazem em desalinho sobre o cadeirão. Enfia os braços nas mangas da camisa, veste as calças. Está agora de pé, virada para mim, a camisa desabotoada, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Apetece-me tocar-lhe nos seios… Mas não adianta pensar nisso. Serena não está aqui e o que vejo não passa de uma ilusão amarga que se meteu no meu quarto e me faz sofrer.

Só me desejas pela minha beleza, disse-me, nunca foste capaz de me ler a alma. Para ti não passo de um corpo e de um sexo.

É verdade que te desejo pela tua beleza, sim, a beleza é o pão dos olhos, não sei viver sem ela. Mas não me peças que te fale de amor. São redundantes todos os discursos amorosos, são frágeis as palavras quando nos propomos explicar os sentimentos. As palavras são sons, apenas sons, signos inconsequentes que não suplantam a eloquência dos olhos, o toque das mãos.

Serena acaba de se vestir. Passa a escova pelos cabelos olhando-se no espelho. Sai do quarto, e eu oiço bater a porta que dá para a escada. Sinto-me asfixiar dentro do espaço fechado. Chego à janela que se abre para o precipício da rua e vejo-a sair. Olho-a, sigo os seus passos pela calçada. Sinto-me cansado. Respiro profundamente bebendo a grandes sorvos a aragem quente. E encho-me da luz da tarde até cegar, como um pássaro doido voando no abismo.


D.E.

NUNO JÚDICE, o blogue

www.aaz-nj.blogspot.com


REGRESSO DO BAILE


Falo de poesia pura, como se de pura
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.

No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.

Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.

Nuno Júdice

domingo, maio 28, 2006

FINGIMENTOS...

OFÍCIO DE POETA

Vai por esse corredor que se mete na casa entra
na primeira sala de onde uma voz te chame
acerca-te da cómoda alta
e abre a profunda gaveta dos poemas

De lá sairá um génio igual ao da lâmpada
volátil transparência uma nuvem que se move dessas
que enchem os nossos olhos de crianças grandes
quando inventamos no céu
árvores animais e caras
fartos de terminar as viagens antes da estação do sonho

Se tiveres tempo e a luz jorrar das janelas
prepara-te para escrever mas antes
reclama os três desejos da ordem

Que não te trema a voz no instante de pedires
o frasco do veneno com o rótulo impossível
acredita apenas naquilo que sentes
e a tua audácia será compensada

Então poderás correr e soltar as palavras
na superfície lisa das pedras
e construir outras nuvens no céu onde verás
árvores animais e caras
paisagens
que recortarás com afecto para um caderno de colorir
já do lado de cá do sonho

Aí serás menino outra vez
usarás as esperadas cores dos teus lápis
o amarelo vivo para o sol
o verde mar para o mar
o azul claro para as neves que coroam os picos dos montes
o castanho para o caminho sinuoso que
conduz a uma casa com uma porta e duas janelas
até que uma mão te poise no ombro
e te anuncie o momento

Glotal a tua escrita
correrá os silêncios dos corpos
e aceso o fio das palavras habitará a massa do sangue
o lume vivo dos sentidos

O caudal sem margem encherá de claro a ruína dos muros
e haverá um estrépito de asas
sobre as lagunas da inconsequente alegria

Um sopro inquietador da carne e da alma
torrencial
nos jardins de líquenes do conformismo certificado


D.E.

sábado, maio 20, 2006

DIÁLOGO COM UMA ESTÁTUA


Naquela noite, numa das minhas deambulações pelas ruas da cidade, fui dar à velha praça onde se ergue a estátua do Poeta. Sempre me deslumbrou aquele monumento: a figura grave do grande Vate, com a sua espada e o livro da Epopeia, sobrepujando em bela pose as oito estátuas de pedra de cronistas e homens de letras em redor do pedestal. Obra de escultor romântico, não dá para enganar… Como já passasse da uma da manhã e estranhamente a iluminação do monumento continuasse por desligar, quedei-me a pensar como era absurdo aquele dispêndio de quilovátios num momento em que o país está tão carecido de atingir o equilíbrio das suas contas e quando a propósito de tudo e de nada tanto se fala de poupança de energia. Detido nestas ideações de pendor economicista, exercício a que muitas vezes me entrego, fui interpelado por uma voz de timbre invulgar que logo me pareceu provir das alturas da estátua.

- O senhor, por mercê, veja se me enxota este pombo que está pousado na minha coroa de louros. Já não aguento o fedor das dejecções que me lança.

Embora surpreendido por tão singular pedido, dispus-me a afrontar a ave columbina com o interjectivo da praxe, mas não chegou a ser preciso. Como se tivesse ouvido e compreendido o rogo do Poeta, logo deixou a cabeça laureada para se ir instalar, em voo picado, na do cronista Fernão Lopes.

- Vossa Excelência perdoe-me – tartamudeei – mas se bem me parece é uma estátua e as estátuas não costumam falar. É certo que Vossa Excelência não é uma estátua qualquer, mas, mesmo assim, estava longe de imaginar que possuísse o dom da palavra…

Apesar da distância e do desconforto angular com que o observava, vi claramente visto que me lançava um olhar de gozo pela observação proferida, respondendo-me de imediato.

- Em primeiro lugar peço-lhe para não me tratar com tanta formalidade. Sabe, nunca fui habituado… Trate-me por Luís, ou… pensando melhor, por Dom Luís. Afinal, ainda provenho da nobreza galega e, além disso, tenho idade mais que suficiente para ser seu tetravô. Dito isto, fique a saber que mantenho o poder da palavra por especial mercê de Vénus, deusa que sempre me acompanhou e a quem nunca faltei, como é sabido, com a minha veneração literária. Só há um pequeno problema: Vénus não me concede mais do que uma hora em cada mês para desenferrujar esta língua centenária, e sempre a horas mortas, quando não há gente metediça por perto, por razões que naturalmente compreenderá. Como se me afigura pessoa digna, com quem se pode ter uma conversa, vou aproveitar. Talvez esgote o meu tempo deste mês. Só lhe peço para não falarmos de política, pois como sabe é ciência que retalha o coração dos homens e não lhes traz o mor proveito da temperança.

Hesitei um pouco, e arrisquei uma primeira questão.

- Senhor Dom Luís, há grandes dúvidas quanto a alguns dos seus dados biográficos. Sabemos, por exemplo, que o exilaram no Ribatejo por causa de amores no Paço, fossem eles com Dona Catarina de Ataíde ou com a Infanta Dona Maria, filha do Rei Venturoso. Até usou nos seus poemas o nome críptico de Natércia… É verdade que amou a bela e culta infanta? Quem era Natércia?

Aquele olho de grande visionário pareceu ganhar um revérbero de fogo.

- O senhor foi logo tocar no maior segredo da minha vida. Como ousa pretender que venha pôr em praça pública matéria de tamanha delicadeza? Sempre fui um cavalheiro respeitador do bom nome das damas da nobreza. Aliás, sempre respeitei todas as damas, mesmo as ninfas de água doce que frequentavam a taverna Mal Cozinhado, e até defendi junto do Rei, como é sabido, uma boa mulher de família que ia ser deportada por, devido a necessidade, ter praticado a prostituição. Portanto não lhe digo nada sobre esse assunto. Não sou como o Visconde de Almeida Garrett que pôs a nu, naquela incrível peça chamada Um Auto de Gil Vicente, o romance de amor entre o meu colega Bernardim e a Infanta D. Beatriz, a futura duquesa de Sabóia. Ardi em muitas flamas, é certo, mas sempre observei a tradição cavalheiresca dos cancioneiros medievais: nunca se revela o nome da dama.

- Mas, Senhor Dom Luís – argui – o senhor é uma homem do Renascimento, não é um trovador medieval…

- Mas é claro que não sou um trovador medieval. Escrevi sonetos e odes à maneira do estilo novo, embora não tenha desprezado os géneros tradicionais como vilancetes e cantigas. Conceda-me porém a graça de não me catalogar como renascentista, ou maneirista, ou lá o que seja nessa vossa febre de periodologia literária, pois em realidade fui um romântico, avant-la-lettre se quiser, mas um romântico.

- Bem – arisquei – o senhor aprendeu com os clássicos da Antiguidade. Leu Virgílio, Horácio…

- E Plauto, e Terêncio, e Ovídio. E também Petrarca, e Dante, e Boscan, e Garcilaso, e Sannazaro. Conceda-me a graça de me poupar a comentários desse jaez, pois leitura foi ofício que sempre pratiquei, azeite que nunca faltou na torcida da minha candeia.

- Bem, não queria ofender, apenas queria exprimir, no meu falar singelo, que o senhor Dom Luís fez aquilo que todos os renascentistas fizeram: estudar os clássicos da Antiguidade e imitá-los. Por isso é que andou lá por Coimbra, na Universidade, como escolar…

Arrependi-me logo de tão inoportuna observação. O Épico pareceu ficar fora de si, abandonando a rigidez da postura e revolvendo-se freneticamente no cume do pedestal.

- Não diga isso nem a brincar! Assevero-lhe que não andei em nenhuma Universidade. O que aprendi, e não foi pouco, foi no Colégio das Artes em Santa Cruz. Por isso é que nunca me trataram por Doutor como soía acontecer com bacharéis e licenciados e sempre fizeram com o Doutor Sá de Miranda ou com o Doutor António Ferreira. Pensa o senhor que é preciso ir à Universidade para obter formação? Às vezes o melhor é mesmo não pôr lá os pés… Mas retomemos o tema do meu exílio ribatejano. O que eu sofri! Nem as ninfas do Tejo que tantas vezes invoquei em Santarém e em Constância minoraram a minha amargura. Tão perto e tão longe dos amores… Por isso é que me alistei como voluntário para o Norte de África…

- Onde perdeu o olho…

- Sim, onde perdi o meu olho direito numa rixa nocturna na casbá de Ceuta…

Atrevi-me então a observar que não era dessa forma que a tradição nos narrava o infeliz sucesso. Sempre nos ensinaram na escola que o Poeta tinha perdido o seu olho direito em feroz combate com os infiéis, em defesa da Pátria e da Cristandade. E ele riu, a única vez que o vi rir durante a nossa conversa, confessando o seu vicioso comportamento de espadachim quezilento, sempre pronto a soltar a lâmina da espada, como daquela vez em que feriu um tal Gonçalo Borges numa rixa no Rossio, indo bater com os costados na Prisão do Tronco, de onde só saiu para seguir na nau S. Bento para o serviço da Índia.

Neste ponto da conversa, abandonou surpreendentemente a posição erecta que lhe é conhecida e sentou-se no bordo do pedestal, as pernas pendentes em direcção à cabeça do cronista e gramático João de Barros.

- Senhor Dom Luís – atrevi-me a perguntar – em todos esses transes da sua vida nunca recorreu a influências, nunca lhe valeram os amigos?

Uma sombra pareceu correr sobre o rosto de bronze do Épico.

- Fala-me de amigos. Amigos verdadeiros tive poucos, não mais que o número de sílabas de um verso em medida velha. Olhe, tome nota: O Doutor Garcia de Orta, que fez a mercê de publicar uma ode minha no prefácio do seu Colóquio dos Simples e Drogas, o meu primeiro trabalho publicado; Diogo do Couto, que me resgatou em Moçambique, onde passava fome, sem dinheiro para prosseguir a viagem de regresso à Pátria; Heitor da Silveira, moço infeliz, meu colega, morreu à entrada da barra do Tejo; D. Gonçalo Coutinho, chamou-me Príncipe dos Poetas e pôs uma pedra na minha campa rasa; D. Manuel de Portugal, o meu Mecenas, sem ele se calhar não teria publicado Os Lusíadas...

- Os Lusíadas, Senhor Dom Luís, a Grande Epopeia, de que fizeram aquela edição pirata no ano de 1572…

Aqui o Épico voltou a tomar-se de uma invulgar excitação.

- Edição pirata, o senhor não sabe o que diz. Faz-me dó ver o tempo que se tem perdido com essa polémica. Não houve nenhuma edição pirata, saíram ambas da oficina de António Gonçalves, o meu impressor. Lá porque uma edição tem o pelicano do rosto com o bico para o lado esquerdo e na outra está o ridículo palmípede com o bico para o lado direito, idearam logo que a segunda era contrafacção. Já viu bem o trabalho que fizeram? Aqueles risíveis golfinhos, aqueles grotescos motivos vegetalistas, aquelas colunas e arquitrave que escandalizariam Vitrúvio se nelas botasse os olhos? Aquilo foi tudo feito a trouxe-mouxe. Uma edição miserável, cheia de gralhas, indigna do meu trabalho. Digo-lhe que odiei aqueles oficiais impressores. Havia de ver os canecos que viravam à hora de comer. Se a composição se tivesse feito da parte da tarde, quando destilavam a bebedeira, teriam botado no rosto do livro em vez de um pelicano uma galinha, ou um pato marreco, sabe-se lá…

- É de facto surpreendente essa informação que me dá…

- Inventaram muitas coisas a meu respeito, não se admire, podia estar aqui a enumerá-las o resto da noite. Desconhecem a minha vida, e como não sabem, inventam.

Perante esta afirmação, pareceu-me ter chegado a minha oportunidade de brilhar, e fui dizendo:

- Nem pense nisso, Senhor Dom Luís. Todos sabemos que passou dezasseis anos no Oriente, andou pelo Malabar em acesa luta contra o Rei da Pimenta, no estreito de Meca contra os navios muçulmanos, sulcou os mares da China, esteve em Macau como Provedor dos Defuntos e Ausentes onde terá sido injustamente acusado de ilícitos de colarinho branco, como hoje dizemos... Foi preso em Goa, naufragou na foz do rio Mecom…

- Alma minha gentil que te partiste

- Sim, esse belo soneto à Dinamene que perdeu nessa tragédia marítima… Mas hoje é uma figura inquestionável da nossa memória colectiva. Sem a sua obra Portugal se calhar não existiria, o senhor reinventou a nossa História, foi o grande arquitecto da Língua Portuguesa, o seu labor só merece referências elogiosas…

O Poeta aqui resolveu corrigir-me.

- Também tive os meus detractores, sabe? O Verney, por exemplo, que assinou o Verdadeiro Método de Estudar com o criptónimo de Frade Barbadinho da Congregação de Itália, disse muito mal de mim. Eu desculpo-o, coitado, coisas de racionalistas deslumbrados com Kant e com o progresso das ciências … Mas também houve muitos que se aproveitaram do meu nome. Veja o caso daquele escritor realista, o José Maria Eça de Queirós: veio acabar o seu romance O Crime do Padre Amaro aqui junto das antigas grades do meu monumento. Lá talento tinha ele, não nego, mas estava atrapalhado par pôr um fim na obra. Não admira, com tantos padres e beatas falsas, até um bom escritor pode vacilar. Então desfiou uma conversa reaccionária entre dois sacerdotes viciosos e um fidalgo decrépito e rematou a falar do meu olhar de bronze e dos meus largos ombros de cavaleiro. O que tenho eu a ver com aquele romance naturalista? Nada. Meteu-me ali para se safar, foi só isso… E o Visconde de Almeida Garrett, que no seu drama romântico Frei Luís de Sousa põe aquela patética personagem chamada Telmo a dizer que andou comigo lá pela Índia, em terra de prodígios e bizarrias? Eu desculpo tudo isto, são fingimentos de poetas, mas escusam de estar sempre a bater no mesmo…

- Pelo que vejo, o Senhor Dom Luís está informado de tudo… Tanto conhece a literatura dos Antigos como a dos Modernos…

- Saiba o senhor que estou morto, mas não durmo…

- Sim, efectivamente…

- Veja só o que se passa agora com essa manifestação artística de duvidoso gosto, a Cow Parade. Pois não é que fizeram uma miserável imitação da minha pessoa numa ridícula vaca a que puseram o nome de Vacamões? A isto, sinceramente, esperava ser poupado. Soube-o hoje mesmo. Quem me trouxe a notícia foi o meu colega Ribeiro Chiado que está ali diante de A Brasileira, e soube-o por alguém que veio do Rossio e lhe contou. É incrível! Sabe por que razão procedem assim, sabe? Porque eu vendo, tenho aceitação no mercado, nem preciso de marketing. Ah! se pudesse registar a minha trade mark como fez a Margarida da infraliteratura, havia de ver o dinheiro que ganhava só em direitos de imagem e merchandising… Mas, pensando bem, para que queria eu riquezas, se nunca as conheci nem me daria bem com elas? O meu único rendimento certo foi a tença de 15 000 réis anuais dada por D. Sebastião, justamente por ter escrito Os Lusíadas. Só que o pobre moço nunca deve ter lido o meu poema…

Por esta altura, o pombo que dormitava empoleirado na cabeça de Fernão Lopes descerrou uma pálpebra de sono como se estivesse a suplicar silêncio. Comecei a sentir frio e o cansaço começou insidiosamente a tomar conta de mim. Caminhava depressa a madrugada. O carro da recolha do lixo, vindo das bandas do Loreto, deu a volta à praça com grande estrépito e meteu-se nas ruas do Bairro Alto. Pela Rua das Flores chegava um hálito de rio em maré vazante. Desligaram-se as luzes do monumento.

- Senhor Dom Luís – disse respeitosamente – com a sua permissão, retiro-me; já é muito tarde, e tenho à minha frente um dia de trabalho.

Mas já não me respondeu o grande Vate. Tinha assumido de novo a majestade do seu porte, hirto, e eu vi que era apenas uma estátua que ali estava, uma estátua romântica com uma espada, uma coroa de louros na cabeça, e segurando um livro que encostava ao peito de bronze como se o quisesse meter no coração – coração que as estátuas não têm, por maiores que sejam os sonhos dos homens ou a exaltação poética dos artistas.

Tomei um táxi na Rua do Alecrim e fui para casa tentar dormir.

D.E.

domingo, abril 30, 2006

OS VELHOS

SUSANA SURPREENDIDA PELOS VELHOS , painel de azulejaria do século XVI, Palácio da Bacalhoa, Azeitão
Que os velhos podem ser perigosos elementos anti-sociais, perturbadores da ordem natural das coisas e violadores dos princípios morais de qualquer comunidade, já o divisara o profeta Daniel no escrito bíblico sobre a casta Susana (Daniel, versículo 13, 1-64). E nem sequer nos é permitido duvidar da razão de Daniel quando interveio em defesa de Susana: uma vez que o seu nome tem o preciso significado de “Deus julga”, julgando o profeta pela interposta pessoa de Jeová, logo se exclui qualquer hipótese de erro humano que pudesse desfigurar a verdade dos factos ou atrapalhar o correcto juízo sobre as acções praticadas.

A Susana que Daniel defendeu era jovem, bela e fidelíssima esposa, uma tríade de atributos de conjunção nem sempre observável. Era casada com Joaquim, rico comerciante judeu de Babilónia.

A casa de Joaquim e da casta Susana era frequentada por dois velhos juízes que se diziam conselheiros do povo mas que em verdade eram uns ociosos, libertinos e depravados como só os velhos sabem ser. Pensaram os dois em atentar contra a castidade de Susana. E na primeira oportunidade que se lhes deparou, apanhando-a sozinha a tomar banho num pequeno lago do jardim, tentaram consumar os seus lúbricos intentos.

Não conseguiram nada os velhos. Não que lhes faltasse o vigor, pois estavam ali para as curvas como já se percebeu, mas porque se opôs com tenacidade a casta Susana. Esta, no entanto, não se livrou de se ver envolvida numa situação dúbia para cujo esclarecimento e reposição da verdade foi vital a intervenção do profeta.

Serve esta imagem para ilustrar a periculosidade dos velhos. Entre nós, longe vai o tempo em que eles se dedicavam a práticas inócuas como passear os netinhos ou visitar os filhos. Hoje quem os quer ver é a caminho do Algarve ou de Benidorm, gozando as generosas reformas com que se sangram os fundos da Segurança Social e se debilitam as contas do Estado, sempre com a esperança de vida, esse pesadelo de qualquer governo justo, a crescer de forma descontrolada, em roda livre, prolongando a folia para além dos limites do razoável. Anda preocupado o governo, andam preocupadas as pessoas de bem. Tudo por causa dos velhos, esse género que não respeita os seus prazos de validade e perversamente se dilata no tempo a sorver prestações sociais suplementares, catorze meses ao ano, assistência médica e medicamentosa, cirurgias, custando os olhos da cara aos orçamentos públicos.

Felizmente temos um governo avisado, consciente dos perigos e das ameaças que os velhos representam. Pois se quereis gozar, cadáveres adiados estendidos ao sol nas areias das praias, refastelados nos bancos de jardim, trabalhai, o Estado não tem a obrigação de vos sustentar!

Entretenham-se os jovens com uns estágios profissionais, uns cursos de formação, nada que lhes conceda um estatuto de emprego certo e duradouro. Mas os velhos, esses, terão de dar o litro. Reformas nunca antes dos setenta, de preferência até mais tarde. Trata-se de gente ameaçadora, capaz do pior. Há que mantê-los ocupados e de rédea curta. Sabe-se lá em que desvarios congeminam quando os vemos, aparentemente calmos, nos jardins das cidades, cavaqueando ou jogando às damas. Nunca fiando. Ainda bem que a este respeito, para tranquilidade de todos nós, o governo não dorme…


D.E.

sexta-feira, abril 28, 2006

IDEIAS DE EUROPA



Na mitologia latina Europa é uma princesa de Sídon por quem se enamora Júpiter, o rei dos deuses. Para a seduzir, transformou-se o deus num alvo e manso touro, surpreendendo-a quando se divertia junto ao mar. Atraída pela beleza e pelo ar inofensivo do extraordinário animal, subiu Europa para o seu dorso, não esperando ele por outra coisa para partir à desfilada pelas águas do mar. Só parou em Creta, e aí se consumou a união entre o lascivo deus e a jovem princesa.

Europa princesa, rainha. Foi assim que a viu Sebastian Münster, geógrafo e cartógrafo alemão (1488-1552) ao publicar em Basileia a sua Cosmographia Universalis, apresentando, a par de vinte e seis mapas, a imagem alegórica da rainha Europa. E se um braço é a Itália, tendo na mão a Sicília, e o outro se projecta na direcção da Dinamarca e da Escandinávia, a cabeça é a Península Ibérica e os olhos são de Portugal.

Bem diz Camões no canto III de Os Lusíadas:

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.”

E Fernando Pessoa, na Mensagem, em admirável exercício de intertextualidade:

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.”

Ideias de Europa. Como em David Mourão-Ferreira, Retrato de rapariga:

“Muito hirta de pé no patamar do sono
Contornando sem pressa a curva de uma artéria
Por mais ocasional que fosse o nosso encontro
dava-me a entender que estava à minha espera
Com um livro na mão com um lenço ao pescoço
uma expressão cansada a palidez inquieta
de quem andasse ao vento ou trouxesse no rosto
em vez de pó de arroz um pó de biblioteca

surgia de repente onde sempre estivera
em Zurique em Paris em Liége em Colónia
Por único endereço uma carreira aérea
Mas não sei se era louca ou apenas mitómana
Onde quer que eu a visse uma coisa era certa
Numa rua num bar num museu numa doca
dava-me a entender que estava à minha espera
dava-me a entender que se chamava Europa”

D.E.

terça-feira, abril 25, 2006

A FELICIDADE DOS AMANTES

Vai para dois anos que me dedico a escrever cartas de amor, de manhã à noite, intensamente, no pequeno gabinete que aluguei num velho edifício de escritórios duma rua da Baixa. Mas devo dizer, como prévio e indispensável esclarecimento, que apesar da abundância da minha produção epistolar, toda ela sobre estados de alma amorosos, não me encontro apaixonado por ninguém nem julgo que tal me venha a acontecer nos tempos mais próximos. Trabalho as cartas de amor, moldo os sentimentos, forneço as chaves com que se abrem os corações mais empedernidos e se jogam os lances das inseguras paixões, mas tudo de uma forma profissional, não me deixando envolver, respondendo às solicitações, que são muitas, da minha vasta clientela. Sou, portanto, um profissional do amor. Escrevo as cartas que os apaixonados não sabem escrever, e cobro por isso os meus honorários.

Tudo começou quando aquela rapariga magra de olhos bonitos, que frequentava o café onde eu costumava estudar, se abeirou de mim com um pedido fora do normal: que lhe escrevesse uma carta para o namorado, uma carta de amor, que ela já tinha tentado e não lhe saía nada. Como eu era estudante de Letras, quase a terminar o curso, pensava encontrar em mim a competência legítima para dar a volta ao assunto. Foi então que comecei a exercitar-me nas singulares modulações do discurso amoroso: enleei-me nas metáforas, usei as anáforas e as sinestesias, voguei na crista da onda das expressões hiperbólicas como um surfista sobre uma prancha de afectos. A carta agradou. A seguir, foi-me pedida outra carta, e outra. A notícia da excelência dos meus escritos passou de boca em boca. Quando dei por mim estava a escrever cartas para um vasto público que frequentava o café ou a ele era atraído pelo poder da minha escrita.

De começo, todo este trabalho era feito de forma desinteressada, por simples vontade de ajudar, mas não tardou muito que alguns dos meus consulentes começassem a pagar-me o café ou a cerveja, a trazer uma garrafa de uísque como oferta, a deixar uma nota de cinco ou de dez euros. Era o reconhecimento pelos serviços prestados. Por essa altura, lendo um matutino de grande circulação, dei conta, na página de anúncios, do grande número de videntes, curandeiros, espiritualistas, génios de virtude e de conhecimento que ofereciam ajuda para toda a classe de problemas humanos: amor, dificuldades sexuais, droga, negócios, desavenças conjugais. Grande deveria ser o desamparo, a fragilidade, o desconcerto da vida dos homens para uma oferta tão copiosa de ajudas espirituais. Foi quando me lembrei de abrir um gabinete de aconselhamento amoroso e confecção de cartas de amor. Pareceu-me propósito natural, honesto, pois não trabalhava com ciências ocultas ou ilusões de curas, com enganosas imagens do sobrenatural, limitando-me, com os pés bem assentes na terra, a usar o inexcedível poder da palavra escrita para captar e conciliar o apetecido amor.

Abri o meu gabinete na Baixa, deitei uns anúncios nos jornais, criei um sítio na Internet. Como sou respeitador dos desígnios fiscais, colectei-me e comecei a passar recibos verdes. E se na mesa do café já ia tendo algum movimento, no meu gabinete – decorado com esmero, com uma estante onde se destaca, em preciosa edição, a Ars Amatoria de Ovídio, e, na parede, o brilho de uma gravura de Dido e Eneias amando-se na gruta mítica – ali, o negócio começou a prosperar a olhos vistos. Era só facturar.

A rapariga magra de olhos bonitos tornou-se nesse meu princípio de vida a melhor cliente do gabinete. Vinha todas as semanas com um novo pedido: uma carta, um simples bilhete, um poema. Sim, também comecei a fazer poemas de amor, um preço ligeiramente mais alto, está bem de ver, dado tratar-se de género especioso e de mais seguro efeito. Ela ficava a olhar-me, muitas vezes com a expressão própria de quem vive uma grande paixão. Mas também acontecia aparecer para pedir um conselho sobre um vestido ou uma ementa romântica, matérias que não estavam propriamente dentro da minha especialidade mas que procurava atender, sem cobrar qualquer preço, dado tratar-se de cliente sempre merecedora de uma atenção comercial.

Entretanto, a partir das notas tiradas nas consultas comecei a interessar-me por uma espécie de sociologia do amor. Tendo eu clientes de ambos os sexos, verifiquei que entre as mulheres eram jovens as que me pediam cartas e poemas, enquanto da parte dos homens era por volta da idade madura que tal necessidade se manifestava. O que sugere como é diferente entre os sexos a forma de sentir e viver o amor. Talvez volte a este tema, se puder, em próxima oportunidade…

Passei a viver, como se pode imaginar, um tempo de prosperidade e de grande satisfação pessoal. Sabia que as minhas cartas ajudavam a melhorar a vida das pessoas que me procuravam, ordenando sentimentos e paixões com resultados de sucesso. Os meus clientes, resolvidas as suas inseguranças, estabilizadas as vidas amorosas, habituaram-se a passar pelo gabinete para me comunicarem os seus novos estados de alma. Deixam sempre pequenas lembranças em manifestação de gratidão, o que me toca profundamente. E eu sinto-me satisfeito pela felicidade de todos como se se tratasse da minha própria felicidade.

Um problema, porém, veio ensombrar a alegria dos dias. Uma manhã, quando menos esperava, entrou-me no gabinete a rapariga magra de olhos bonitos. Vinha transtornada, percebi logo. Já lhe conhecera muitas expressões apaixonadas, já lera muito nos seus belos olhos, mas nunca a vira como naquele dia. Antes que pudesse articular palavra, perguntar ao que vinha, se havia crise ou desenlace amorosos, jogou sobre a secretária um grande maço de cartas e poemas, tudo o que tinha encomendado e eu havia escrito. Receei por momentos que a devolução da mercadoria pudesse significar a existência de defeito, inadequação de forma ou de conteúdo, avaria superveniente, deterioração do sentido, sei lá, são vertiginosas as idades do amor, nesta matéria tudo é mudança, variedade, novidades, o que hoje está certo está amanhã errado, mesmo o mais experiente dos conselheiros pode falhar. Até que ela, reprimindo a respiração ofegante, disse:

- Tome, fique com elas. Foi para si que as encomendei.

Saiu porta fora e nunca mais a vi. Só então dei conta de que a rapariga magra dos olhos bonitos estava apaixonada por mim. E logo desde os tempos das primeiras cartas, as que lhe escrevi ainda no café.

Se ao menos eu tivesse descoberto a tempo, antes de me ter metido nesta empresa que cura dos amores alheios e desleixa os próprios, talvez a minha vida fosse hoje diferente. Mas agora é tarde. Sou um profissional do amor, tenho responsabilidades perante os clientes, não posso deixar-me envolver. Talvez a minha vida mude, talvez eu venha ainda a escrever cartas de amor na própria voz, a saber mais de mim e menos dos outros. Mas para já não devo abandonar o barco: na modesta parte que me cabe, sou responsável pela felicidade dos amantes.
D.E.

25 DE ABRIL, SEMPRE !

sexta-feira, abril 14, 2006

BREVE NOTÍCIA DO HOMEM QUE SALVOU A CUSTÓDIA DE BELÉM

D. Fernando Saxe-Coburgo-Gotha

Pense-se no que seria o nosso património artístico e literário sem três peças fundamentais: Os Lusíadas de Luís de Camões, o políptico Veneração a S. Vicente de Nuno Gonçalves e a Custódia de Belém de Gil Vicente. Seria um património menos rico, imaginariamente despojado de tão importantes obras. E no entanto, quando hoje lemos a grande epopeia camoniana ou apreciamos no Museu Nacional de Arte Antiga os painéis do pintor régio de D. Afonso V e o esplendor artístico da obra-prima da ourivesaria manuelina, não nos passa sequer pela cabeça que esses três tesouros já estiveram em risco de perdição.

Os Lusíadas, quando a embarcação que trazia Camões de Macau para Goa – onde iria cumprir pena de prisão por irregularidades cometidas no desempenho das funções de provedor dos defuntos e ausentes – naufragou na foz do rio Mecom, na costa do Cambodja. Diz a tradição que Camões salvou o manuscrito nadando apenas com um braço, segurando com o outro, acima da espuma das águas, o precioso trabalho poético.

Os painéis de Nuno Gonçalves, esses, jaziam abandonados num depósito em S. Vicente de Fora e talvez viessem a servir como tábuas de andaime ou pasto de lume se o pintor Columbano não tivesse dado com eles em 1882.

Quanto à Custódia de Belém, pilhada pela soldadesca de Napoleão e mais tarde devolvida pelos franceses, deu entrada na Casa da Moeda onde a descobriu, em risco de se converter em vil metal, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, nobre de origem alemã, rei consorte de Portugal pelo seu casamento com a rainha D. Maria II.

Falemos um pouco deste homem que parece ter sido o salvador da Custódia de Belém. Ficou conhecido na História de Portugal pelo nome de Fernando II. Era uma personalidade de rara sensibilidade artística, desenhador de mérito, tendo apoiado os artistas plásticos da sua época através da compra de obras e da atribuição de bolsas para estágios de formação no estrangeiro. Foi graças à sua ajuda que Columbano estudou em Paris.

Em 1834, com a extinção das ordens monásticas, adquiriu D. Fernando o pequeno Convento de Nossa Senhora da Pena, em Sintra, fundação jerónima do tempo de D. Manuel I, e a partir desse núcleo lançou um projecto de edificação de um palácio de que foi comitente e em certa medida arquitecto – o Palácio da Pena. Saíram do seu risco muitas das soluções compositivas e decorativas desse palácio de conto de fadas, uma obra eclética e revivalista que dialoga com múltiplas estéticas, da arquitectura mudéjar granadina ao manuelino e ao neobarroco.

Foi um rei estrangeiro, mas isso não lhe diminuiu a importância nem o afecto que o País lhe dedicou. Não se limitou a ser uma figura decorativa, um rei consorte. Trabalhou em nome da cultura, deixou obra.

E impediu que a Custódia de Belém, essa miniatural catedral gótica, filigrana e poema, fosse muito provavelmente derretida.
D.E.

quinta-feira, março 23, 2006

POLITICAMENTE INCORRECTO

GEORGE SAND, desenho de ALFRED DE MUSSET


George Sand foi o pseudónimo literário de Amandine Lucie Aurore Dupin, francesa nascida em Paris, vivente entre 1801 e 1876.

Alfred de Musset, poeta e dramaturgo romântico, um dos seus famosos amantes, é o autor do desenho que nesta página se reproduz. Outro seu amante, não menos famoso, foi Chopin, uma ligação que durou perto de dez anos.

É significativo que esta escritora, autora de um grande número de romances de diversos subgéneros literários – histórico, iniciático, epistolar, de crítica social – tenha tido necessidade, para se afirmar no mundo da literatura e do jornalismo, de usar um pseudónimo masculino.

George Sand é um exemplo de mulher bem sucedida, que viveu do que escreveu, profissional da escrita numa sociedade conservadora onde o papel da mulher estava confinado ao lar e à reprodução familiar.

Em 1848, ano da queda do rei Louis-Philippe e do início da Segunda República francesa, George Sand deixou-se tentar pela política. Mas depressa se desiludiu, retirando-se para o campo e começando um novo ciclo de produção romanesca de inspiração rústica.

Não é por mera casualidade que lembramos esta mulher na semana em que se agitaram as águas da nossa política em torno da iniciativa legislativa sobre a fixação de quotas para mulheres nos cargos políticos elegíveis.

E perguntamos: precisam as mulheres que lhes dêem a mão para entrarem na Assembleia da República ou nos órgãos autárquicos? Temos a ideia de que se elas desejassem uma participação mais activa na vida política há muito que o teriam conseguido. Dominariam hoje as estruturas dos partidos e os órgãos do poder da mesma forma que já dominam, ou estão em vias de dominar, as carreiras universitárias e a investigação científica, o jornalismo, a vida literária e artística. E isto por várias razões: porque são mais fortes e inteligentes do que os homens, mais determinadas e laboriosas, e porque não há fatalidade biológica ou condicionamento de educação que as impeça, se assim quiserem, de chegar onde chegam os homens. Só que elas manifestam pela política essa saudável anorexia que as afasta dos jogos do poder. As mulheres são um anti-poder, é assim que as vemos. Até porque não nos parecem edificantes muitas das experiências de poder político no feminino.

Significa isto que tudo está bem e nada é preciso fazer? Nem pensar! Infelizmente, ainda persistem na sociedade actual os condicionamentos e discriminações que levaram Amandine Dupin a adoptar o pseudónimo George Sand. Só que o problema não se resolve com quotas ou qualquer outra medida administrativa. É uma questão de reforma de mentalidades que só a educação pode gerar. É um trabalho de gerações a ser feito por homens e por mulheres.

Por isso votamos contra o projecto legislativo neste comentário. Comentário político. Politicamente incorrecto.



D.E.

quinta-feira, março 16, 2006

PINTAR A ALMA



Que há de comum nestes dois retratos?

Um, de D. Sebastião, é obra de Cristóvão de Morais com data de 1571. O outro, de Antero de Quental, é de Columbano Bordalo Pinheiro e foi pintado em 1889. Três séculos separam a factura das duas obras: do período maneirista ao naturalismo do século XIX. Mas o que de certa forma as unifica é o poder que ambas demonstram de, através dos olhos, revelarem a alma dos retratados.

Do jovem D. Sebastião fica-nos esse sentimento de grande vingador e defensor da Cristandade, o olhar insolentemente belo e desafiador, sonhador de heroísmos e feitos cavaleirescos. De Antero de Quental, a imagem de um velho lutador à beira da desistência, o desespero por um país que recusava modernizar-se, ele que fora a figura mais luminosa da Geração de 70 e lucidamente identificara nas Conferências do Casino as causas da decadência dos povos peninsulares.

Sempre se soube ler nos olhos das pessoas. Com a arte dos grandes mestres também é possível ler nos olhos dos retratos.

D.E.