quinta-feira, outubro 27, 2005

O DIÁRIO DE MAFALDA



nesse diário
uma força de marés e sóis
um cristal de voz
puro como um amor
ou a madrugada

um tempo de pássaros
o fado claro
a cor dos poemas
e o metal da música
contra a cinza dos dias
sem paixão

D.E.

sábado, outubro 22, 2005

O PÉNIS DE MÁRMORE E AS TÁBUAS DE BRONZE DE VIPASCA

1

Lusciénio, filho dum liberto enriquecido com um negócio de azeites rançosos e vinhos adulterados, duas ânforas de água do Tibre por cada três de genuíno néctar, estava destinado a uma promissora carreira no foro. O pai mandara-o aprender com os melhores mestres de Roma, estagiara na Grécia, até se deixara seduzir por Epicuro antes de optar por ideias e desígnios mais ajustados às práticas forenses. Porém, por razões que até um narrador omnisciente não consegue descortinar, foi obrigado a exilar-se na Lusitânia, onde chegou acompanhado de Gláucida, escrava líbia para todo o serviço, tendo-lhe sido concessionada a exploração de cinco poços no couto mineiro de Vipasca.

Em Itália deixou Semprónia, a lasciva, mulher de líbido alta que no martírio das noites lhe secava as fontes seminais e comia as forças do corpo, só lhe dando tréguas em três ou quatro dias do mês sob o efeito inelutável das regras fisiológicas. Era então que Lusciénio se recolhia em paz nos braços de Gláucida, vingando-se em beijos e carícias da imoderada violência dos vícios da carne. No porto de Óstia, de onde saiu pelo mare nostrum a caminho da Hispânia, ainda viu no cais a libidinosa Semprónia, despeitada com a sua partida na companhia da escrava. Um arrepio atravessou-lhe o campo da pele. Ia fresca a aragem do mar, Lusciénio levou a essa conta o inesperado estremecimento. O pior, no entanto, estava para chegar.

Ao largo da costa de Saguntum, cinco dias e cinco noites levava já de viagem a galera ágil, os remos chapinhando nas águas, as velas grávidas do cálido siroco, deu-se conta da reiterada falência do seu membro fálico. Tentara na segunda e na terceira noite, não insistira à quarta, que o mar estava bravo e o enjoo lhe tolhia o desejo, mas na quinta noite, sob os olhos estelares do céu, puxou Gláucida para um desvão do convés e, a coberto do sono da marinhagem, tratou de abater o jejum. Não conseguiu nada. As carnes penianas, flácidas como alforrecas, não o permitiram. Cravou as mãos no cordame da embarcação e chorou em desespero a sua raiva impotente.

2

Em Vipasca era dura a vida dos homens. O couto mineiro era um cemitério de escórias, os poços e galerias esventravam a terra em demanda do filão metalífero. O transporte do minério fazia-se sob escolta dos legionários para o porto fluvial de Myrtilis. O Estado esmagava os concessionários com pesados impostos e levava, qual ave rapace, o maior quinhão do seu labor. Os banhos eram um pequeno refrigério na inclemência daquele clima continental, muito quente no Verão e frio no Inverno.

Quando o administrador do couto mineiro informou o governo de Emerita Augusta da chegada de Lusciénio, da concessão de cinco poços que acabara de requerer e do curriculum forense de que era detentor, além do rápido deferimento da matéria requerida recebeu também taxativas instruções para que o recém-chegado fosse contratado como jurisconsulto ao serviço da administração local. E assim, a par da gestão das suas concessões, Lusciénio passou a trabalhar, como legista, no aperfeiçoamento dos regulamentos económicos e sociais de Vipasca.

3

Tudo parecia sorrir ao exilado jurisconsulto. O administrador, agradado com o douto desempenho das suas funções, abria-lhe as portas do triclínio e era vê-lo recostado em ceias sumptuosas, em esquisitas degustações, comendo e bebendo do melhor, mariscos provenientes de Troia e Gades, vinhos da Bética e da Campânia. O minério que saía dos seus poços, apesar da mão roubadora do Estado, rendia-lhe bons proveitos. Gláucida floria de beleza na tranquilidade da sua juventude, até pensara dar-lhe a alforria e casar-se com ela. Só aquele problema sexual não dava sinais de se resolver.

Um comandante da guarnição militar com quem costumava falar nas horas brandas do banho, deu-lhe uma receita que obtivera de um druida gaulês numa das suas comissões ao serviço do Império: misturar numa papa de favas feita com água do mar, intestinos de atum e tâmaras do Egipto, juntar vinho doce e mel de abelhas, tomar uma hora antes da prática sexual. Experimentou, mas não deu resultado.

Alarmado com a persistência do desarranjo, resolveu tentar a medicina. Médicos não havia em Vipasca, seria necessário ir a Pax Iulia e consultar um qualquer aspirante a Hipócrates que aí exercesse a arte. Consultou, mas não obteve a cura.

Foi então que em desespero decidiu recorrer à intercessão divina. Havia numa vasta região da Lusitânia o culto do deus Endovélico. De Ebora a Ossonoba, de Caetobriga a Myrtilis, corria a fama daquela divindade salutífera que curava mais e melhor que o próprio Esculápio. Rumou ao santuário do deus e aí prometeu a entrega votiva de um pénis erecto da altura de um homem, esculpido em mármore rosa, se lhe fosse restituído o poder viril. E tendo como provável que a causa do seu padecimento pudesse ser feitiço da infame Semprónia, dirigiu preces a Prosérpina, deusa infernal, para que contrariasse o mal de inveja que lhe havia sido enviado.

4

Nunca se conseguiu saber se graças a Endovélico ou a Prosérpina se curou Lusciénio da sua aborrecida perturbação. A Posteridade viria a descobrir no santuário de Endovélico em S. Miguel da Mota, Alandroal, muitas aras e lápides com inscrições votivas, até uma cabeça da divindade esculpida em boa pedra, mas não se encontraria qualquer pénis erecto, em mármore rosa ou de qualquer outra variedade de mármore, o que poderá indiciar que o voto não foi cumprido por não ter sido recebida a graça.

Mas em 1876 e 1906 seriam descobertas nos escoriais de Aljustrel duas tábuas de bronze contendo a legislação aplicável no couto mineiro de Vipasca. E isso deverá ter sido obra de Lusciénio, letrado exilado na Lusitânia por obscuros motivos, filho dum liberto rico, amante terno da escrava Gláucida e objecto sexual de Semprónia, mulher lasciva, invejosa e má.

sábado, outubro 15, 2005

Soneto a S. FREI GIL DE SANTARÉM, devaneio poético com metro e rima

Quiseste ser meu Fausto um deus venal
alçado acima dos simples mortais
pelo incomum saber de artes letais
abandonaste o Bem seguiste o Mal

Rútila tentação jugo fatal
dissolutos festins gozos carnais
amaste bruxas anjos sepulcrais
em submissão a um poder brutal

Comia-te o corpo a impura lava
a que te tinhas dado alegremente
e que de ti já tudo te levava

Quando uma luz te penetrou a mente
e te tirou da condição de escrava
a alma cega dessa treva ingente

D.E.

domingo, outubro 09, 2005

CESÁRIO


DE TARDE

Naquele pic-nic de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde


Quero, dessa aguarela, o fogo de rendas do decote, a transparência das papoilas na colorida alegria da blusa, e, se possível, soltar as mãos no dorso das rolas, aves tão belas, tocar-lhes a seda das penas e as rijezas dos bicos, e já que, meu poeta, nada dizes dos lábios, dos olhos, dos cabelos, acreditar em gomos de fruta vermelha, em lagos espelhados de céu e em searas da cor da tarde, e abrir esse piquenique de burguesas às operárias da cintura industrial, às senhoras maduras da classe média, às meninas universitárias e às empregadas dos centros comerciais, uma grande alucinação de beleza sem distinção de classes, uma tela do tamanho dos campos e dos penhascos, meu poeta dos sentimentos e das sensações, mestre de Caeiro, nosso mestre.

D.E.

quarta-feira, outubro 05, 2005

UM CONTO POETICAMENTE TRISTE

Havia já uma semana que os meus olhos ensonados, obrigados a respeitar o sinal vermelho do semáforo em cada manhã que por ali passava, se detinham a ler o que estava escrito na superfície amarelada daquela parede. Era num prédio de esquina, sem graça. A inscrição estava à altura do rés-do-chão, onde chega o braço e o coração de um homem:

ANA, AMO-TE. PERDOA

Aí à vigésima vez em que me deixei fascinar pela romântica mensagem, numa manhã de trânsito intenso, fiquei com as rodas do carro coladas ao chão, o semáforo a debitar sucessivas ordens para avançar, e uma sinfonia de buzinas a desabar sobre a minha cabeça numa imitação grotesca de uma peça de Stravinsky.

Confesso que não dei por nada. Só me apercebi da enorme desordem sonora quando um polícia, desses que usam botas de cano alto e têm uma braçadeira vermelha com um metálico T, se arrimou ao vidro da janela e me perguntou se me estava a sentir mal. Que não, disse, que estava tudo bem. E ele então explodiu com todo o fragor da sua incontestada autoridade, que não atrapalhasse o trânsito, que arrancasse depressa e sem mais delongas, que ainda puxava do bloco de multas e praticava um pouco de caligrafia.

O que pode fazer nestas circunstâncias um pobre licenciado em Psicologia Clínica, média de curso de treze valores, vinte e oito anos de idade e ocupação profissional incerta? Obedecer, é claro, desentupir a via pública e deixar para trás o furioso cívico e a romântica inscrição mural.

Mas há coisas que vemos e não esquecemos com facilidade. Vivemos numa era de sofisticados meios de comunicação. O infeliz amador que na sua dolorida mágoa se entregara àquela arcaica forma de comunicar, podia ter escrito uma carta em correio azul, enviado uma mensagem SMS ou veiculado a profundidade dos seus sentimentos através do vertiginoso correio electrónico. Preferiu gravar na parede aquilo que lhe ia na alma. Foi esse procedimento singular que me fascinou e que me levou a desejar conhecê-lo.

Dobrada a esquina, na rua que sobe, há um desses cafés populares de bairro onde todas as noites se reúnem os mesmos clientes, moradores na vizinhança, bebendo umas cervejas e, ao fim-de-semana, assistindo aos jogos da Liga na Sport TV. Fiz-me frequentador do local. À segunda noite já tomava assento numa mesa onde se discutia acaloradamente as diatribes do Pinto da Costa e as invectivas que lançava aos de Lisboa. Foi quando descobri, na parede de um prédio que ficava mesmo em frente do café, outra lancinante inscrição:

ANA, SOFRO POR TI. PERDOA

Perante tão eloquente réplica, começou a formar-se dentro de mim a convicção de que o caso era mesmo sério. Como psicólogo, devorava-me o desejo de descobrir o sofredor, de lhe dar ajuda em transe tão delicado. Aproveitaria para conhecer um pouco mais da mente humana, alargar os meus conhecimentos em tão complexo domínio, robustecer o meu arcaboiço científico no laboratório dos encontros e desencontros dos nossos quotidianos afectos. E em cada noite que me metia no bairro em demanda do convívio do café, acabava sempre por deparar com novas inscrições nas paredes sebentas dos prédios. O homem não parava. Era um delírio mural.

Entretanto, lá fui obtendo de um dos meus companheiros de tertúlia algumas indicações sobre a citada Ana.

Disse: Moça bonita, um corpo à maneira, mora ao cimo da rua, às vezes até toma a bica aqui no café mas desanda logo, não faz sala, vivia aí com um gajo barbado e com ar de lunático, parece que é professor, sempre com livros na mão, às vezes até falava sozinho, mas não parecia má pessoa, nunca mais o vimos, a rapariga agora vem aí mas sempre sem companhia, se é ele que anda a escrever nas paredes?, se calhar é, raio do homem para o que havia de dar-lhe, com tantas mulheres que há por aí, francamente, é só um gajo estalar os dedos e é vê-las aparecer, sabe o que lhe digo?, há vinte anos não havia nada disto, o que o pessoal queria elas também estavam doidinhas pelo mesmo, agora ficam agarrados à internet e é só sexo virtual, esta malta está toda maluca, ó Chico tira aí mais duas imperiais, uma para mim e outra para este senhor, mas dizia eu, bonita rapariga sim senhor, é pena que não tenha tido sorte com o gajo, se calhar não a satisfazia e ela calçou-lhe uns patins, é o que há mais para aí, sabe, até lhe conto a história do filho do João que trabalha como segurança no centro comercial, pois o rapaz...

E num fim de tarde, após prolongadas mediações, consegui encontrar-me com Ana no café. Vi-a chegar, o corpinho ondulado metido na justeza dos jeans, o redondo dos seios adivinhado sob o minúsculo top, o brilho de um piercing na concha do umbigo. Como únicas testemunhas, sobre a mesa, duas garrafas de Coca-Cola e um cinzeiro de lata amarrotado.

Sabe, não costumo falar com estranhos, mas disseram-me que era por causa do Jorge que queria conversar comigo, coitado do rapaz, sou muito sua amiga, acredite que me custa esta situação, afinal ainda estivemos juntos perto de um ano, e depois anda para aí desesperado a pintar as paredes do bairro, só o dinheiro que gasta em tintas, francamente, é uma coisa que nem se compreende, pois acredite que estou a ser sincera, gosto dele a sério, só que não dava para fazer vida juntos, sou uma pessoa alegre, gosto de luz, não sou dada a melancolias, mas diz que é psicólogo?, é interessante, também pensei em tirar psicologia, só que acabei em letras, fiz o segundo ano de estudos franceses, por que razão desisti?, dificuldades, sabe, apareceu-me um emprego na TMN, aproveitei, não podemos perder estas oportunidades, mas voltando ao assunto, o Jorge é um bom tipo, não era mau amante, mas por vezes andava estranho, era a mania da poesia, quando escrevia ou descobria um novo poeta ficava estranho, ultimamente era o Walt Whitman, conhece?, é assim como o Álvaro de Campos mas em inglês, Leaves of Grass, lia o livro da frente para trás e de trás para a frente, dissecava os poemas, replicava, ficava insuportável durante essas fases, depois passava-lhe, melhorava, mas era por pouco tempo, não era mau amante, repito, pena que se transtornasse de vez em quando, estou a falar-lhe abertamente porque é psicólogo, não me abria assim com qualquer um, passava uma semana inteira que não se chegava a mim, está a ver, é aborrecido, e foi então quando conheci outra pessoa, a vida é assim, a verdade é que essa experiência também não correu bem, estou sozinha, mas não tenho vontade de recomeçar com o Jorge, até lhe digo que...

Ana é um pássaro falador, uma torrente de palavras saindo da boquinha bonita, os dentes muito brancos, a língua ágil humedecendo o carmim dos lábios. Podemos dizer aos pássaros que se calem? Podemos reprimir os maviosos murmúrios dos regatos? Ana fala, irremediavelmente, e eu bebo-lhe os mais ínfimos sons, coloridos fonemas do meu deslumbramento súbito.

A conversa com Jorge veio a seguir. Encontrei-me com ele no anfiteatro dos jardins da Gulbenkian. Trazia Apollinaire no bolso do casaco.

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nous amours
...
L´amour s´en va comme cette eau courante
L´amour s´en va

Expliquei-lhe ao que vinha, que era só para ajudar, que falara com Ana e que ela me encorajara a ter uma conversa com ele. Jorge poisou em mim um olhar de poeta incompreendido, passou a mão pela melena, e eu vi-lhe os dedos gastos do ofício de segurar canetas e picar teclados, os olhos bêbados do lume dos versos. Depois saímos dali a tomar um refresco, acabámos a conversa no seu tugúrio em Alfama. E Jorge parecia já outro homem, uma cura de milagre, decidido a enfrentar a vida de forma mais prosaica. Pegou nas latas de tinta e ofereceu-mas, acabava ali mesmo o seu mortificante delírio mural.

Regressei a casa, vaidoso dos meus sucessos clínicos. Curar um homem numa única sessão é obra. À noite fui ao café, detive-me ainda diante de alguns escritos parietais do poeta Jorge. Aquilo era passado.

Depois subi a rua para bater à porta de Ana, comunicar-lhe o surpreendente resultado do meu encontro com Jorge.

Conversámos. Como as palavras são tanto e tão pouco. Chaves poderosas que nos abrem portas para todos os estados de alma, ou apenas essa frágil articulação de segmentos sonoros, esse esplendor de signos imperfeitos a que falta a substância das coisas? Falávamos, e as nossas palavras começaram a pedir um toque de pele, a lentura do corpo. Foi quando Ana pôs a sua mão sobre a minha e eu senti que já não havia nada a dizer, que a partir daquele momento toda a fala era um despropósito e que a única coisa que fazia sentido era deixar-me ir na aventura da mão, seguir-lhe o braço, perder-me na plenitude do corpo.

Comecei então a viver com Ana no seu apartamento pequenino e simpático. O amor começava ao fim do dia, quando chegávamos a casa, e prosseguia pelos perfumados jardins da noite até às horas da madrugada. As vezes passávamos pelo café, os meus companheiros riam-se.

Mas durou pouco tempo a nossa relação. A imagem de Jorge, obsidiante, fixou-se na minha cabeça. Aproximara-me dele como terapeuta e acabara a roubar-lhe a mulher que amava. Tinha-o desenganado dessa paixão, conseguindo até que me entregasse as latas de tinta. Quem sabe se com mais umas inscrições, umas noites mais a pintar paredes, não teria logrado recuperar o seu amor perdido? Doía-me pensar nessa elementar possibilidade. Doía-me saber que enquanto eu me entregava às delícias do corpo de Ana e passava a noite abraçado a ela, Jorge, o infeliz poeta, sofria sozinho no seu quarto, acompanhado apenas dos seus vates, sem ninguém para amar.

Passei a ver, sempre que estava com Ana, o olhar melancólico do poeta e a sua mão acenando com o livrinho de Apollinaire de onde caíam folhas soltas com os poemas escritos a Annie Playden. Tentava fechar os olhos, mas era ainda pior. Ouvia então estranhas vozes que declamavam ´´La chanson du Mal-Aimé´´, poema que acabei por decorar sem nunca ter lido:

Adieu faux amour confondu
Avec la femme qui s´éloigne
Avec celle que j´ai perdue
L´année dernière en Allemagne
Et que je ne reverrai plus

Resolvi espaçar os meus encontros com Ana, passando algumas noites em minha casa. Era a única forma de fugir às vozes e imagens obsidiantes, de ter algum descanso. Até que tudo acabou: Ana, com frontalidade, apresentou-me um certificado de amante incompetente e entregou-me a guia de marcha.

Sofro agora como sofre ou sofreu o poeta Jorge. Há cinco dias que não me apresento ao trabalho e as noites são de uma indizível tortura. Mas hoje saí com as latas de tinta para o bairro de Ana. Evitei passar junto do café, entrei pela rua de cima, e aventurei-me na primeira parede nua que descobri, uma excelente parede para receber o meu grito de alma, até admira que o poeta Jorge nunca tenha dado com ela. E premindo nervosamente a válvula do spray deixei nela o primeiro dos meus apaixonados apelos:

ANA, CONTINUO A AMAR-TE. PERDOA.

D.E.

MORTE DE AL BERTO

Não foi como a de Rimbaud
A noite
não estendeu o seu manto sobre as copas das árvores
a luz
que tomou conta do tempo
não sossegou o coração dos pássaros
não suspendeu os jogos das crianças
À tua frente havia um mar
do qual não sabias o nome
um pélago onde chegavam rios esquálidos
que abraçavam a voragem
O chicote da tosse
rachava-te as arcadas do tórax
fechava-te o sopro dos pulmões
a febre crescia
sobre as disfunções orgânicas
em dose letal
Estavas magro
muito magro
doíam-te os dentes os ossos
E
na cidade
havia uma alegria de asas
sobre as cabeças dos homens
algazarras de meninos
nos recreios escolares
nenhuma lágrima se desprendia
nenhum fio de emoção
cortava a atmosfera amena
Depois
a dor cessou completamente
e uma grande tranquilidade sobreveio
ainda viste sair de ti
a nuvem da alma
Van Gogh
de quem eras íntimo
veio receber-te
Podia ter sido no céu de Arles
ou de Lisboa
ou de Paris
mas não
foi num campo amarelo de trigo
algures num patamar do tempo
Trazia numa mão
a última carta escrita a Theo
e na outra
o brilho metálico de um revólver
E tu entraste no campo de trigo
uma tela que ondulava ao vento
com revoadas de corvos escuros
recortados num céu azul
Desapareceste onde se supunha estar uma ceifeira
e era Verão


D.E.

quinta-feira, setembro 22, 2005

CLARISSA

Aos dezassete anos podemos ler o romance da nossa vida. Basta que tenhamos aprendido a confiar nos livros e a compreender os mundos de sonho que nos revelam.

Li ´´Clarissa´´ , de Erico Veríssimo, na sala de leitura da Embaixada do Brasil, uma cave acolhedora na Avenida Sidónio Pais, onde se servia um café que não sabia à bica sofrida daqueles tempos e onde tínhamos sempre como música de fundo os ritmos coruscantes do país irmão.

Posso até nem ter compreendido o romance inteiramente, os sentidos do microcosmo da pensão de D. Eufrasina com as discussões entre o judeu Levinsky e o malicioso Nestor, as tiradas políticas do tio Couto e do major Pombo. O livro é de 1933, a seis anos de distância do começo da Guerra, e as sombras de Hitler e Mussolini pairam por vezes sobre os diálogos dos pensionistas. Mas havia Clarissa, menina-mulher à beira de fazer catorze anos, e Amaro, homem triste e inadaptado que vivia na contemplação da beleza sempre acompanhado da sua música e dos seus poetas. E isso para mim chegava.

Amaro, sorumbático, nocturno, é o contrário da imagem viva e alegre, luminosa, de Clarissa.

Amaro amou Clarissa. Terá Clarissa amado Amaro?

Só o podemos imaginar através dos pensamentos que o narrador omnisciente nos proporciona, como naquela tarde em que Clarissa entrou no quarto de Amaro e, diante do aquário do peixe Pirolito, entretanto trespassado por um raio de sol, lhe pediu para compor uma música.

Pensa Clarissa: ´´ Seu Amaro, se eu não tivesse medo de dizer uma bobagem, eu ia dizer uma coisa para o senhor. Ia dizer que o senhor é muito parecido com o Pirolito. Porquê? Porque eu sou amiga do Pirolito e ele nem fica sabendo: vive ali dentro do aquário, não vê ninguém e nem fica sabendo que eu sou amiga dele. Pois o senhor é bem assim: vive no seu quarto, fechado, não fala comigo, não me vê nem fica sabendo como eu sou sua amiga. O senhor é muito parecido com o Pirolito. Eu sei que isto é uma bobagem de menina, mas o senhor me desculpe: é o que eu sinto´´.

E pensa Amaro: ´´ Menina, tu nunca poderias compreender. Nem tu nem ninguém sabe quanta ternura há em mim. Eu hei-de ser sempre para vocês todos o seu Amaro melancólico e taciturno, o seu Amaro que trabalha num banco e faz música nas horas vagas, o seu Amaro que vai ler os seus livros à sombra dos plátanos, o seu Amaro que não sabe fazer um gesto de amizade nem de acolhimento. Vocês nunca compreenderão. E tu, menina, não podes compreender também a alegria íntima que me dás. Porque és poesia, és música, és… nem sei o que és… Tudo isto se pode sentir, tudo isto se pode pensar. Mas nada disto se pode dizer. Seria piegas, seria idiota, como seria idiota também eu dizer que te amo. Tenho mais do dobro da tua idade. E algumas rugas no rosto… Clarissa, se eu pudesse falar, se tu pudesses entender… Eu te diria que nunca desejasses que o tempo passasse. Eu te pediria que fizesses durar mais e mais este momento milagroso. A vida é má, menina, a vida envenena. Amanhã serás gorducha e prática como titia. Amanhã terás filhos, te transformarás numa matrona respeitável. Onde estará então a menina em flor que corria no pátio atrás das borboletas? Mas tu tens curiosidade de conhecer a vida… É natural. Talvez nem compreendas a significação deste momento. Quanta coisa eu teria para dizer se eu pudesse falar, se pudesse entender…´´

Depois deste livro, fica a amar-se a vida e a beleza de outra maneira. Dá-nos vontade de ler John Keats, o poeta preferido de Amaro, escrever poesia, dar o nome de Clarissa a uma filha.

Seguindo o pensamento de Amaro, tudo isto se pode sentir, se pode pensar, embora seja talvez demasiado piegas para ser dito.

Mesmo assim, aqui vai o poema feito muitos anos depois:


CLARISSA

I

Era numa Primavera
de glicínias roxas e pessegueiros floridos
Havia um papagaio verde
que gritava o teu nome
no alpendre da pensão
Fios de alegria na aragem morna
- os teus cabelos negros de adolescente
a luz do relevo do busto
que despontava
- Quando fizesses catorze anos
mamãe dava-te licença para botares salto alto

II

Os gramofones enchiam de música
a atmosfera soalheira
os bondes circulavam na cidade
sob acácias policromas
Se calhar era Domingo
Tu descobrias-te diante do espelho
bela
florzinha quase impudente

III

O poeta
lívido homem
lia poemas de John Keats
à sombra dos plátanos
e tinha sempre na cabeça
a Nona de Beethoven
pela Orquestra Sinfónica de Amesterdão
O poeta vivia muito sobre o piano
tirando notas que ninguém compreendia
e trabalhava como funcionário bancário
para poder pagar a pensão
comprar os livros de poemas
e o papel de música para compor
Sentava-se à sua secretária
no banco
para fazer lançamentos de deve e haver
conferir balancetes
lidar com as severas taxas de juro
com os enigmáticos descontos de letras
com as reformas e os protestos
Naquele tempo
não havia computadores
- tudo se registava manualmente
com canetas de pau e aparo
em cursivo inglês ou em letra francesa
na superfície de folhas marginadas
em circunspectos livros selados
O poeta não era
profissionalmente competente
porque tinha a cabeça cheia de versos
e poemas sinfónicos
e não corria um minuto
um instante sequer
que não pensasse no milagre do teu corpo
a fazer-se mulher

IV

Numa manhã
terminados os exames no colégio
deixaste a pensão
regressaste a casa
Nenhum raio de sol
voltou a trespassar de luz
o aquário
Estrídulo
o papagaio verde
continuou a gritar o teu nome
no poleiro do alpendre
E as folhas dos plátanos
ávidos olhos
leram nos poemas
o bisel da paixão
O piano
esse
nunca deixou de tocar
sobre os alçapões
do sentimento mudo

D.E.

domingo, setembro 18, 2005

LEITURAS DE SONHO - ´´Tragédia do Príncipe João´´ de Diogo de Teive

Diogo de Teive foi um humanista português que nasceu em Braga no princípio do século XVI e que se notabilizou como escritor e professor.
Ensinou na Universidade de Paris e no Colégio de Guiena (Bordéus), tendo sido professor do Colégio Real das Artes da Universidade de Coimbra. Toda a sua obra foi escrita em latim, opção linguística característica dos humanistas do Renascimento.
A ´´Tragoedia Joannes Princeps´´ é uma peça de teatro em cinco actos sobre o drama nacional resultante da morte prematura – possivelmente por doença diabética – do Príncipe João, filho do rei D. João III, único herdeiro directo da Coroa portuguesa.
Nenhum dos nove filhos do casamento de D. João III com D. Catarina de Áustria sobreviveu aos seus progenitores. O Príncipe João foi o último a desaparecer, pouco tempo depois de ter desposado D. Joana, filha do poderoso Carlos V, rei de Espanha e senhor de vastos domínios em todo o orbe.
Mas há uma esperança que atravessa o drama: o nascimento de uma criança que se gerava no ventre da Princesa – o ´´Desejado´´, o futuro rei D. Sebastião – e que ocorre já depois da morte do seu jovem pai. Para evitar emoções que pudessem afectar o normal desenrolar da gravidez, é ocultado à Princesa o grave estado de saúde do esposo. Dado que o parto estava para muito breve, o funeral realiza-se em segredo, seguindo o corpo discretamente para os Jerónimos.
Sabemos como se gorou o caudal de esperança depositado neste filho póstumo, sucessor do seu avô no trono de Portugal. A tragédia do Príncipe João afigura-se assim uma antecipação do desastre nacional protagonizado por um rei jovem e imaturo na Batalha de Alcácer Quibir. E curiosamente é a repetição de um drama semelhante, ocorrido dois reinados antes, quando o herdeiro de D. João II, o Príncipe D. Afonso, faleceu de uma queda de um cavalo em Santarém.
Para quem quiser ler esta obra, há uma recente edição bilingue latim - português da Fundação C. Gulbenkian / Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

D.E.

terça-feira, setembro 13, 2005

ILHA DE MOÇAMBIQUE, ´´ILHA DE PRÓSPERO´´, ´´ILHA DE CALIBAN´´

ILHA DOURADA - RUI KNOPFLI

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade.
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento.

Rui Knopfli

A MORTE SAIU À RUA ...

Corria Dezembro de 1961, dia 19, não havia iluminações de Natal nas ruas, nesse tempo apenas a Baixa com o seu comércio rendoso dispunha de orçamento para tais ornatos, a Rua da Creche, o Largo do Calvário, a Calçada da Tapada eram margens da cidade, ruas de bairros operários com cheiro a rio, e havia os becos tristes onde se entrava e saía sempre pelo mesmo lado, escuros, com prédios escuros, na Rua da Creche, ao fundo, havia um beco de nome esquecido, uma menina de cabelos negros que lá morava, mas não é disso que cabe falar desse 19 de Dezembro de 1961. A Escola Comercial Ferreira Borges ficava ao cimo da Rua da Creche e fazia esquina com a Calçada da Tapada, Tapada da Ajuda já se vê, onde se estudava agronomia e outras ciências exactas, também havia o campo de futebol do Atlético, clube da primeira divisão, naquele tempo não havia Liga, os jogos eram relatados pelo Artur Agostinho, ainda não tinha aparecido a sport tv, quem quisesse ver tinha de comprar bilhete, mas isso faz parte de outra história. Sucede que a noite chegou cedo, estava-se sobre o solstício de Inverno, as meninas tinham aulas de manhã, os rapazes à tarde, o país era pobre, havia que aproveitar o edifício e dar trabalho por turnos aos professores, meninas de manhã e rapazes à tarde, assim também se evitava a mistura dos sexos, e foi quando, pelas cinco ou seis horas, a língua escura da noite já lambia os muros e as paredes, entrava mesmo pela sala dos senhores professores, se soube da oração a Nossa Senhora de Fátima pela salvação da Índia Portuguesa. Todos os alunos ficavam para tão piedoso acto, com a ajuda de Nossa Senhora e das tropas portuguesas o Pândita Nerhu não havia de ficar a rir-se, a ordem era para resistir até ao último homem, o senhor presidente do conselho de ministros já o havia dito, todos deviam morrer pela Pátria, havia vida para além da morte, convicção natural de quem acreditava na vida eterna. Pois os alunos lá ficaram a rezar pais-nossos e avé-marias, nada de extraordinário, era tudo rapaziada temente a Deus, que tinha feito a catequese, a primeira comunhão e a profissão de fé, Goa e Damão e Diu invadidas pela União Indiana, um país de bárbaros que falava inglês e não apreciava a acção civilizadora dos portugueses, mas estava lá o exército e o navio aviso Afonso de Albuquerque, se necessário usariam a táctica do quadrado como em Aljubarrota, o solo pátrio não seria entregue de mão beijada. E na varanda da sala dos senhores professores, que dava para o pátio do recreio, apareceu uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda talvez da Igreja de Alcântara, ali mesmo ao lado, o senhor prior de Alcântara é que estava muito mal visto pelos chefes religiosos e pelos governantes,  falava-se ser uma espécie de comunista, o que não surpreendia, pois até se dizia que Jesus Cristo tinha sido o primeiro comunista, isto era conversa do pai de um aluno que era operário da CUF e ouvia a Rádio Moscovo, até punha um copo de água sobre a telefonia para não ser detectado pelos radares da Polícia, mas não nos desviemos do assunto, que o que neste escrito se trata é da invasão do Estado Português da Índia pelas tropas do Pândita Nerhu e da heróica resistência dos soldados portugueses, o navio aviso Afonso de Albuquerque a bombardear o porta-aviões e os navios de três canos naquela terrível batalha naval de que o Diário de Notícias se fez eco. Pois era já noite feita e os alunos continuavam a rezar no pátio do recreio, não era por falta de orações que se perderia Portugal,

quando,

uns tiros se ouviram vindos do lado da Rua da Creche, era uma rua pacata, morava lá o mestre Fonseca, professor de dactilografia e caligrafia, escritor com o nome de Mário Castrim, e às vezes até era visto no seu escritório no rés-do-chão do prédio em frente, agarrado à sua literatura, a queimar os olhos com o trabalho do Diário de Lisboa Juvenil, parece que nesse tempo ainda não era crítico de televisão. Pois numa rua pacata como aquela não se esperavam tiros a uma hora em que os alunos rezavam e as famílias os esperavam para jantar, algumas já alarmadas com a demora, e a causa dos tiros não se soube logo, apenas no dia seguinte explicou o senhor professor de religião e moral ter sido por mor de um bêbado que provocou um polícia, coitado do bêbado, o polícia não deveria ter puxado da pistola, mas um homem, mesmo bêbado, tem de saber que está a falar com um polícia, uma autoridade a respeitar, lá estava escrito na sala dos senhores professores Deus-Pátria-Família-Autoridade, o que mostrava que a autoridade era tão importante como tudo o resto, não era por estar em último lugar que era menos importante, muitas vezes os últimos são os primeiros. Mas a história do polícia e do bêbado parecia não bater certo e o Zeca Afonso até compôs aquela canção

a morte saiu à rua num dia assim
naquele lugar sem nome pra qualquer fim
uma gota rubra sobre a calçada cai
e um rio de sangue dum peito aberto sai

teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
só olho por olho e dente por dente vale
à lei assassina à morte que te matou
teu corpo pertence à terra que te abraçou


e hoje a Rua da Creche até já não é da Creche, é verdade que estão sempre a mudar o nome das coisas, a ponte, por exemplo, também já teve vários nomes e continua a ser a mesma, só lhe acrescentaram o tabuleiro do comboio e mais umas faixas de rodagem, e a creche que ali havia se calhar hoje já não existe, quem sabe, o que se sabe é que o edifício ainda há pouco tempo tinha inscrita no frontispício a palavra parvulário, que vem do latim parvus, que quer dizer criança, mas nada disto é importante,

a rua chama-se hoje Rua José Dias Coelho, escultor, desenhador e pintor, que ali foi morto a tiro de pistola por um agente da PIDE em 19 de Dezembro de 1961, dia em que a tropa portuguesa da Índia tinha ordens para resistir até ao último homem.

segunda-feira, setembro 12, 2005

LEITURAS DE SONHO OU COMO OS DEUSES BRINCAM COM OS HOMENS OU A ORIGEM DAS PALAVRAS ANFITRIÃO E SÓSIA

Plauto, o maior comediógrafo latino, viveu entre 260 a.C. e 184 a.C., tendo chegado a ser-lhe atribuída a criação de cento e trinta comédias. Provavelmente não terá produzido tantas, mas há uma, a comédia ´´Anfitrião´´, cuja autoria lhe é inequivocamente reconhecida.

O tema desta comédia foi retomado por muitos criadores literários e dramaturgos, entre eles Molière, e, entre nós, por Luís de Camões e António José da Silva.

E qual é o tema?

Júpiter, pai dos deuses, decidiu descer ao mísero mundo dos mortais para possuir Alcmena, matrona fidelíssima ao senhor seu esposo, de nome Anfitrião, que se encontrava ausente em missão militar contra os Teléboas. Os deuses clássicos tinham destas coisas, abandonavam muitas vezes a pose divina para se misturarem com os pobres humanos, atrapalhando-lhes a vida…
Na companhia de Júpiter veio Mercúrio, o mensageiro dos deuses, para ajudar à festa.

Chegados a este vale de lágrimas, toma Júpiter a forma humana de Anfitrião, marido de Acmena, enquanto Mercúrio se transforma em Sósia, o escravo de Anfitrião, que com ele havia partido para a guerra. E assim se apresentam a Acmena.

Ficou feliz a matrona, julgando ver regressado o seu amado esposo, e a noite que entretanto chegou povoou a alcova de palavras ternas, de cicios e gritos, tendo Júpiter, no poder incomensurável da sua divindade, retardado o curso da Lua para tornar mais longa a noite e prolongar o prazer.

Só que havia coisas que os deuses clássicos não conseguiam prever. Anfitrião regressa da guerra, coberto de glória, e manda à frente o escravo Sósia para dar a novidade à esposa. O pobre dá de caras com o seu duplo (Mercúrio) à porta de casa e fica estarrecido. Logo aparece Anfitrião e descobre que em sua casa já lá está uma cópia sua (Júpiter).
Supremo imbróglio: Anfitrião, o verdadeiro, procura convencer a esposa de que é ele o marido, acusando-a de adultério, mas ela não se sente adúltera, pois com quem quer que fosse que tivesse dormido naquela noite, tinha-o feito com a convicção de ser o seu marido.

Acontece que Alcmena já estava grávida de três meses do seu legítimo esposo. Mas por obra divina voltou a engravidar de Júpiter e, milagre dos milagres, acabou por dar à luz três crianças, uma delas Hércules, cuja paternidade foi assumida pelo supremo deus.

Anfitrião, por sua vez, ao descobrir o envolvimento dos deuses naqueles insólitos eventos, sentiu-se honrado e ficou agradecido por ter partilhado os seus haveres, incluindo a esposa, com o pai dos deuses.

Foi a esta comédia latina, inspirada aliás num velho tema grego, que a linguística europeia foi buscar a palavra anfitrião para designar quem recebe alguém em sua casa, partilhando os seus haveres domésticos, embora não indo tão longe como o remoto anfitrião de Plauto; e sósia, para referir um indivíduo muito parecido com outro, podendo mesmo confundir-se com ele.

D.E.

domingo, setembro 11, 2005

´´A SECRETA VIDA DAS IMAGENS´´




´´Aniversário´´ (1915) de MARC CHAGALL (Vitebsk, Bielo-Rússia, 1887 - Saint Paul, França, 1985)

Viagens de sonho

Para quem quiser e puder deslocar-se a Óbidos e Caldas da Rainha, sugerimos uma visita a quatro interessantes monumentos:

- Igreja de Nª Senhora do Pópulo – Caldas da Rainha.
Construída entre a última década do século XV e o ano de 1508, funcionou como capela privativa do Hospital Termal criado em 1485 pela Rainha D. Leonor. O seu provável arquitecto foi Mateus Fernandes, o mesmo que concluiu a exuberante porta de entrada das Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha. É uma obra de dimensões modestas, mas de grande beleza e significado, anunciadora das portentosas realizações do manuelino. Uma jóia. Está localizada atrás do Hospital Termal.

- Igreja de Santa Maria - Óbidos.
Admirar as telas de Josefa de Óbidos, obra de 1661.

- Santuário do Senhor Jesus da Pedra. Fica à entrada de Óbidos na estrada que vem das Caldas da Rainha. É uma construção imponente em estilo barroco, sendo aí venerada uma curiosa cruz de pedra do período Paleocristão (séculos IV e V).

- Eburobrittium – Escavações de uma importante cidade túrdula, profundamente renovada pelos romanos. Está a cerca de um quilómetro de Óbidos, tendo acesso por uma estrada de terra ou através de um percurso pedonal. Esta cidade é citada por Plínio, escritor romano do século I, e foi encontrada no decurso das obras de construção da auto-estrada do Oeste. Está demarcado o Fórum e já foi posta a descoberto uma parte importante das termas, nomeadamente uma bela piscina circular com 3,4 metros de diâmetro interno.

Bons passeios. Há muito Portugal para descobrir!

D.E.

quarta-feira, setembro 07, 2005

´´NU DEITADO´´ de Amedeo Modigliani


Toco o teu corpo impudentemente puro
deformação expressiva
em almofadas de luminosos cetins
de escarlates sedas
e deixo-me ir na corrente líquida dos olhos
na embriaguez dos lábios
as mãos cheias do volume dos seios
Tacteio os músculos finos dos braços
dobrados em delta
sinto o anel da cintura
o recorte lume das ancas
a massa pujante das coxas
Repouso no centro do corpo
onde
o triângulo púbico
é um trapézio de Vénus
D.E.

terça-feira, setembro 06, 2005

AQUI ESTOU!

Depois da fala de Xico Futa, filósofo do Musseque Sambizanga, apresenta-se o Disperso Escrevedor:

- Nasceu em Lisboa no ano MCMXLVII da era de Cristo.

- Coisa surpreendente, está casado com a mesma mulher há vinte e oito anos.

- Tem um filho, teenager terminal, que cursa Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

- ´´Disperso Escrevedor´´ não é um pseudónimo, nem tampouco um heterónimo. É apenas um expediente para que não o levem muito a sério. Nesta altura da vida era o pior que lhe poderia acontecer.

- Disperso Escrevedor dispersa-se muito e escreve pouco. Costuma consultar dicionários para não exagerar nos erros.

- Às vezes escreve para esconjurar o mal merencório.

- Não tem grande aptidão para trabalhar com ferramentas informáticas. Aliás, é muito reduzida a sua habilidade para trabalhar com quaisquer ferramentas. E ainda não descobriu como é que conseguiu criar este blog.

- Disperso Escrevedor não tem qualquer programa ou plano para o blog. É navegação à vista.

INCIPIT

''Dizia Xico Futa:
Pode mesmo a gente saber, com a certeza, como é um caso começou, porquê, praquê, quem? Saber mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, desfaz ou estraga as conversas, as macas? Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princípio, quando chega nesse princípio vê afinal esse mesmo princípio era também o fim doutro princípio e então, se agente segue assim, para trás ou para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, aparece... E digo isto, tenho minha razão. As pessoas falam, as gentes que estão nas conversas, que sofrem os casos e as macas contam, e logo ali, ali mesmo, nessa hora em que passa qualquer confusão, cada qual fala a sua verdade e se continuam falar e discutir, a verdade começa a dar fruta, no fim é mesmo uma quinda de verdades e uma quinda de mentiras, que a mentira é já uma hora da verdade ou o contrário mesmo.''

Luandino Vieira, ´´Luuanda´´, Estória do ladrão e do papagaio